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SANTA CATARINA DE SENA: PRIMEIRA LEIGA DECLARADA DOUTORA DA IGREJA

Dirce Serafim


Introdução

No dia 4 de outubro de 1970, no ato de proclamação de Santa Catarina de Sena como doutora da Igreja universal, o papa Paulo VI declarava que “podemos chamar a Catarina a mística do Corpo místico de Cristo, isto é, da Igreja.”

Tendo sido “um dos mais luminosos modelos dos carismas de conselho, de palavra de sabedoria e de palavra de ciência” , Catarina não possuía cultura especial, antes revelava uma sabedoria infusa, uma prodigiosa “assimilação das verdades divinas e dos mistérios da fé contidos nos Livros sagrados do Antigo e Novo Testamento” .

A Igreja é para ela o próprio Cristo, pelo que desenvolve uma intensa atividade em favor da sua, “uma reforma antes de mais interior e depois externa, mas sempre em comunhão e em obediência filial aos legítimos representantes de Cristo.”

Esta verdadeira política “no sentido espiritual da palavra” , possuidora de uma inteligência intuitiva, vontade férrea e grande sentido de maternidade espiritual, não tem senão o desejo de uma perfeita configuração com Cristo, no contexto longínquo da Idade Média tardia, em que a cultura fortemente marcada pela dominância cristã, iniciava uma experiência de aprendizagem dolorosa com os erros próprios e os dos seus opositores. O excesso foi a sua medida, e é verdade que a sua vida está cheia de prodígios, de fenómenos sobrenaturais, de visões e revelações, assim como de penitências assombrosas, mas o seu caminho é afinal acessível a quem quer percorrer o itinerário de santidade: um modo pessoal de viver e buscar a perfeição, com uma humildade originada na consciência clara da distância entre criatura (o não ser) e Criador (o que é), e o desejo de amar todos em Deus.

Em 1999, o Papa João Paulo II proclama Santa Catarina de Sena co-padroeira da Europa, juntamente com Santa Brígida da Suécia e Santa Benedita da Cruz, reconhecendo a importância do exemplo da santidade de rosto feminino e, no que diz respeito à leiga da Terceira Ordem Dominicana, salienta “o infatigável esforço de Catarina para a solução dos inúmeros conflitos que dilaceravam a sociedade do seu tempo”. É um título a acrescentar aos de co-padroeira da cidade de Roma e de padroeira de Itália que antes lhe foram atribuídos por Pio IX e Pio XII, respetivamente.

História de Vida

Quem foi Catarina Benincasa

Catarina Benincasa nasceu em Sena, Itália, a 25 de Março de 1347. Giacomo e Jacopa, esta conhecida por Monna Lapa, foram os seus pais. O rés-do-chão da casa onde habitava a numerosa família era o local de trabalho do pai, como tintureiro de peles e pequeno comerciante.

Quando tinha cerca de seis anos, Catarina regressava com o irmão Stefano de uma visita à irmã mais velha e ao aproximar-se da igreja do convento dominicano próximo da casa de seus pais, ela fica imóvel, de olhos esbugalhados, contemplando as cores e formas sobre a igreja. O irmão chama-a, impaciente, e Catarina, perturbada, chora. Mais tarde diz que vira Cristo, vestido de branco como um bispo, de cruz na mão, fitando-a amorosamente e abençoando-a. A partir desse dia, Catarina tornou-se uma criança diferente, com um ar mais sério e uma grande necessidade de estar só. À medida que crescia e ouvia a mãe falar de casamento, ficava cada vez mais claro para Catarina que esse não era o seu caminho, tal como não era o de entrar no convento. Queria ficar em casa e servir Deus de forma nova. Iniciou então um tempo de ascese e foi amadurecendo a ideia de pertencer à ordem Terceira de S. Domingos, grupo secular de mulheres, normalmente viúvas e idosas—as Manteladas--que levavam uma vida de piedade, tendo como modelo a espiritualidade dominicana. Embora dispensadas de votos, as terceiras usavam a túnica branca e o manto preto característico dos dominicanos e a Catarina agradava esse sinal de pertença à família religiosa. Os pais, relutantes, acabaram por ceder ao seu desejo quando ela tinha dezasseis anos. As senhoras depressa perceberam que ela ia além do cumprimento da Regra em oração, em jejum, em penitência, mas ela prosseguia o seu caminho de libertação das palavras, do sono, da indumentária, da alimentação… para ganhar cada vez mais espaço para a relação com Deus. Os êxtases frequentes após a comunhão começaram a causar sensação e a gerar alguma oposição. Durante três anos remeteu-se ao silêncio do seu quarto, atenta à sua cela interior, meditando e absorvendo um saber infuso que lhe ia penetrando no coração de maneira prodigiosa. Prodigiosa foi também a sua aprendizagem da leitura. Tendo pedido a uma companheira que lhe ensinasse o alfabeto, e tendo esse desejo sido contrariado, descobriu um dia que podia ler ainda que não soubesse soletrar ou distinguir letras.

Aos dezanove anos, após uma experiência mística em que sentiu que Cristo lhe colocara no dedo um anel, invisível aos demais, como sinal de aceitação do seu amor, Catarina deu por terminado o seu noviciado solitário e decidiu reatar o convívio familiar. Chegara o tempo de servir os outros, de exercitar a prodigalidade com os pobres, de colaborar com as instituições de caridade de Sena. Foi aí que ela foi aumentando a sua informação sobre as questões do tempo, pois os peregrinos tinham sempre muito que contar. Também entre as suas companheiras religiosas surgiu uma primeira amiga—Francisca, a Cecca—que passou a acompanhá-la por toda a parte. Ela e Lisa, uma das suas cunhadas, desenvolveram uma verdadeira devoção por Catarina, tornando-se nas suas defensoras contra as censuras suscitadas pela sua independência e o seu comportamento por vezes incompreensível.

Pouco a pouco, vai-se constituindo à sua volta uma família espiritual. É uma curiosa família, um grupo bizarro de pessoas diferentes em temperamento, grupo social, cultura. Graças ao dom do discernimento e da capacidade de captar a verdadeira natureza, os recursos e fragilidades de quantos a abordavam, Catarina vai reunindo todos num amor comum a Cristo e aos outros, ajudando cada um a sair do seu amor-próprio. Para todos, mesmo os mais velhos, aristocratas, frades, artistas, populares, ela é la dolce mamma.

Em 1372, Catarina contagia o seu grupo com um novo programa de ação: a Cruzada. Acreditava que uma nova Cruzada seria a solução para terminar com as rivalidades entre as diversas comunas, entre as repúblicas, entre os defensores do papado (Guelfos) e os do império (Gibelinos), reunindo todos num esforço coletivo para o grande empreendimento de resgatar o Santo Sepulcro dos turcos. Numa estadia em Pisa, Catarina apercebe-se da enorme influência árabe entre os ocidentais e dos males que assolam a cristandade. É também em Pisa que Catarina sente que o Senhor lhe reserva grandes sofrimentos. Como sinal, ela é estigmatizada com as chagas idênticas às de Cristo. Só depois de morta puderam ser observados esses estigmas.

Viaja, escreve várias cartas a cardeais, políticos, soberanos, ao próprio papa Gregório XI a quem incita a abandonar Avinhão e regressar a Roma. O papa aceita a mediação de Catarina com os governadores de Pisa, Luca, Sena e Florença. Apesar de vários contratempos, e alguma desonestidade por parte dos embaixadores florentinos, Catarina chegou a conseguir o regresso do papado para a Cidade Eterna. No entanto, ela própria sentiu que se aproximava maior escândalo na Igreja. Com efeito, após a morte de Gregório XI, em março de 1378, foi eleito como sucessor, Urbano VI. Porém, o seu autoritarismo crescente e verdadeiras explosões de cólera desagradaram a muitos cardeais. Catarina escreve ao papa lembrando que “justiça sem piedade é toldada de crueldade” e aconselha: “Na verdade, Santo Padre, não vejo como possa realizar-se uma Reforma sem escolherdes um grupo de homens santos, que sejam virtuosos e não temam a morte. E não olheis pela grandeza, mas por que eles governem zelosamente o seus rebanhos. E recrutai um grupo de bons cardeais, que sejam os verdadeiros pilares da vossa força, ajudando-vos a carregar com o peso de muitos encargos, com a ajuda divina.”

Os conselhos de Catarina foram em vão. Em agosto, os cardeais franceses declararam a Santa Sé vaga. Em setembro de 1378, fizeram reunir um novo conclave para eleger um papa rival: Roberto de Genebra, que tomou o nome de Clemente VII e foi viver para Avinhão. Começava o cisma do ocidente. Os dirigentes da Europa dividiam-se entre urbanistas e clementinos e o povo sofria, hesitando sobre quem deveria considerar o verdadeiro chefe da Igreja.

Catarina vai com alguns elementos do seu grupo para Roma, a pedido do papa Urbano. Ele reconhecia a sua influência e a de pessoas do grupo—o Cenáculo—junto de pessoas como a rainha Joana de Nápoles e o rei Carlos V de França, por exemplo. No entanto, e apesar de sempre venerarem a sua mamma, muitos acabaram dispersando, em pânico, perante a atmosfera de guerra entre os partidários de Urbano e os de Clemente. Catarina Benincasa empenhou-se até ao final contra o cisma colocando ao serviço da Igreja romana “a derradeira parcela da sua energia física, jejuns, vigílias (…), toda a sua eloquência, todo o seu talento organizador, toda a força magnética da sua personalidade”. Porém, pelo Natal de 1379, o apoio a Urbano diminuía, mesmo em Roma.

A Catarina resta rezar pela Igreja e pela conversão dos pecadores e oferecer a Deus a sua vida. A 29 de janeiro de 1380, enquanto rezava perante o mosaico de Giotto representando a barca da Igreja, sente abater sobre os seus ombros o peso da Navicella. Segue-se um período de fervorosa oração, das últimas recomendações a todos os seus seguidores. No dia 29 de abril de 1380, Catarina Benincasa falecia em Roma, proferindo as palavras de Jesus: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”. Tinha 33 anos.

Foi canonizada em 1461, na festa de S. Pedro e S. Paulo.

Espiritualidade

Dois anos antes de morrer, entre agosto e novembro de 1378, Santa Catarina escreve, isto é, dita, o livro “O Diálogo da Providência Divina” em forma de colóquio entre ela e Deus, entre a que não é e o que é, o livro que encerra o verdadeiro segredo da sua espiritualidade. Em O Diálogo, o Senhor fala através de Catarina, responde às suas petições e ao seu desejo ardente de salvação do mundo e reforma da igreja, para glória de Deus.

Consciente de que ninguém contribui para a santificação dos outros se primeiro não percorrer o itinerário de santificação, Catarina começa por coloquiar sobre a santificação própria. Fundamental será cada pessoa conhecer-se em Deus, o que torna inevitáveis a humildade e o amor, pois a distância entre cada um e a bondade infinita não pode deixar de gerar humildade e união afetuosa. Viver de modo habitual a profunda convicção do próprio não ser face Aquele que é em plenitude leva a viver numa tensão de resposta amorosa em afeto e em obras.

Ao desejo de colaborar na salvação do mundo e na paz entre os cristãos, responde Deus com o apelo à oração e uma imagem interessante do Filho Jesus como ponte entre o céu e a terra, entre humanidade e divindade. É uma ponte com três níveis que representam três etapas do caminho de santificação: o afastamento do pecado, representado pela imagem dos servos mercenários que beijam os pés de Jesus por medo do castigo; a prática da virtude e do amor representada pelos servos fiéis que beijam o lado de Jesus e apenas desejam não desgostar a Deus; a união com Deus, representada pelos filhos ou amigos de Jesus que lhe beijam a boca movidos só pelo amor e desejo de glorificar a Deus. Este amor vai transformando o amado em amor a Deus e ao próximo. As virtudes da paciência, fortaleza e perseverança são frutos dessa união que traz consigo o sentimento de presença permanente da Trindade. Outra característica da espiritualidade de Santa Catarina é a importância das lágrimas. Consideradas como dom, as lágrimas podem ter significado diferente segundo a etapa em que a pessoa se encontra, já que elas procedem do coração. Assim, “o coração rejuvenescido pela graça não tem já a sequidão do amor-próprio que é o que seca a alma”, e as lágrimas de amor perfeito são lágrimas de paz ou desejo ardente de uma maior união com Deus.

A reforma da Igreja é, segundo Santa Catarina, a forma de trabalhar pela salvação do mundo, pois Deus colocou os fiéis no mundo para serem administradores da luz divina. Os sacerdotes devem ser respeitados pela sua participação no sacramento do Sangue do Senhor (Catarina refere-se frequentemente à Eucaristia como a receção do Sangue) e o Papa é por ela considerado doce Cristo na terra. O seu amor pela Igreja conduziu-a a um enorme zelo e obediência à hierarquia eclesiástica. Ela fala da Igreja como Corpo místico de Cristo, porta de Jesus crucificado por onde é necessário passar, Esposa que dá vida e luz.

Com Santa Catarina de Sena podemos, pois, aprender a amar com coragem e lucidez, sincera e intensamente, Cristo e a Igreja.

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