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QUEM É O MEU PRÓXIMO? (2/4)
Comunicação apresentada na assembleia anual da Província Portuguesa da Companhia de Jesus, em Soutelo, 29-31 de Agosto de 2005

CORREIA, José Frazão, Quem é o meu próximo?
in «Brotéria», Braga: dezembro 2005, 431-441

«Quem é o meu próximo?»: a parábola de Lucas e a profecia de Mateus

Para ensaiar um caminho, mais que uma resposta, recordarei a parábola que Lucas nos oferece, chamada do bom samaritano. Depois, seguirei, muito ao de leve, a leitura que o filósofo francês Paul Ricoeur faz desta mesma narrativa . Assim, presto também homenagem ao pensador que há pouco nos deixou, sempre tão humano e tão interessado por tudo o que diz respeito ao humano.

Vamos então à narração de Lucas:

  
Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante.

Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão...

Qual destes três parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?

Respondeu: «O que usou de misericórdia para com ele». Jesus retorquiu: «Vai e faz tu também o mesmo» (Lucas 10, 29-37).

Que procura o doutor quando pergunta «quem é o meu próximo?» Que quer ele saber, ele que será certamente entendido em doutrinas religiosas, práticas e virtudes morais?

O que o nosso doutor procura, sugere-nos Ricoeur, parece ser da ordem do objeto social, passível de ser observado, definido e, por isso, delimitado. A sua pergunta pediria esta resposta: o meu próximo é... este e aquele e aquele outro. E, uma vez encontrado, estaria estabelecido o raio da proximidade à qual estaria obrigado. Fora dele, a não obrigação ou a indiferença que se protegeriam na desresponsabilização cómoda e tranquilizadora: «não, esse não é o meu próximo, porque o meu próximo é este e aquele e aquele outro».

Mas não é por aqui que Jesus conduz o doutor. Pela narração de uma história, que termina numa nova pergunta - «qual dos três parece ter sido o próximo daquele homem?» – e numa ordem – «vai e faz tu também o mesmo» —, Jesus retira o próximo do campo bem delimitado da categoria social para o colocar no terreno do comportamento em primeira pessoa.

O próximo não cabe pois numa definição. Diz antes respeito ao comportamento efetivo de se tornar presente a alguém. O próximo não é a saber. Não se trata de saber previamente quem é o meu próximo nem de delimitar de antemão o raio restrito da proximidade. Não se tem um próximo. Faço-me, sim, efetivamente, próximo de alguém. Esse alguém, de quem efetivamente me aproximei de forma pessoal, é o único referencial para se saber do próximo.

Mas voltando à narrativa, Ricoeur faz notar que os homens que passam são apresentados como categorias sociais, homens revestidos da sua função social, absorvidos pelos seus nobres e santos ofícios, indisponíveis para a surpresa que o encontro requer. O samaritano, visto pelos outros, também é uma categoria. Para o judeu pio é o estrangeiro, aquele que não faz parte do grupo. «É o homem sem passado nem tradição autênticas; impuro de raça e de piedade; menos que um gentio» . A sua categoria é não ter categoria: figura de quem socialmente não tem categoria nenhuma. Mas, pela narrativa, não lhe conhecemos o encargo social. É-nos dito que está em viagem. E «está pronto a mudar de caminho e inventar uma conduta imprevista» .

O Samaritano está disponível para o encontro, para lá de toda a mediação social e sem recurso a nenhum critério de conduta social, prévia e exteriormente estabelecido.

A narrativa tem pois o seu vértice no encontro, efetivamente acontecido, aquele que torna uma pessoa presente a outra pessoa. Isso é ser próximo. Queres saber então quem é o teu próximo? Aproxima-te. Só esse, de quem efetivamente te aproximaste, foi teu próximo. O resto não passou de uma boa intenção. E de boas intenções sabe bem a sabedoria popular o que é que está cheio.

A este encontro narrado no presente, e que não deixa de surpreender enquanto forma de resposta a uma pergunta, associa Ricoeur outros encontros projetados nos últimos tempos. Trata-se da profecia de Mateus, no capítulo 25. O caráter profético deste texto expõe o alcance escatológico da parábola de Lucas.

Recordemos o texto:

  
Quando o Filho do Homem vier na sua glória... à sua direita porá as ovelhas e à sua esquerda, os cabritos.

O Rei dirá, então, aos da sua direita: «Vinde, benditos de meu Pai!. Porque tive fome e me deste de comer, tive sede e me deste de beber.»

Então, os justos vão responder-lhe: «Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber?.»

E o Rei vai dizer-lhes, em resposta: «Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um dos meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes» (Mateus 25, 31-46).

Também aqui é de encontros que se trata, semelhantes ao anterior, entre o samaritano e o desconhecido que fora assaltado e agredido. São encontros tecidos com gestos simples – dar de comer ou de beber, vestir, visitar, etc. –, feitos a quem vive situações limite e está socialmente indefeso, desarmado e exposto ao arbítrio alheio, reduzido ao mais elementar da sua condição humana. O destinatário destes gestos é chamado pequenino, aquele que, como nos diz Ricoeur, não desempenha na história função condutora; é apenas o figurante que fornece a ração de sofrimento necessário à grandiosidade dos verdadeiros acontecimentos «históricos»; é o anónimo que conduz a caravana e sem o qual ao grande alpinista faltaria a glória; é o soldado de segunda categoria sem o qual os grandes capitães não apenas não seriam capazes de suas grandes manobras de génio, como ainda não o seriam de seus erros trágicos; [...] é a «pessoa deslocada», pura vítima dos grandes conflitos e das grandes revoluções .

E a lista poderia continuar com outros tantos exemplos da nossa experiência individual e coletiva.

Ora, o sentido dos gestos referidos por Mateus feitos ao pequenino e pelos quais o encontro acontece, não é refletido no grande sentido da história nem no sentido dos grandes da história.

Existe outro sentido – esclarece Ricoeur – que reagrupa todos os minúsculos encontros deixados de lado pela história dos grandes; é outra história, uma história dos atos, dos acontecimentos, das compaixões pessoais, tecidas na história das estruturas, dos acontecimentos, das instituições. Mas esse sentido e essa história são ocultos .

Nesta profecia revela-se assim, retrospetivamente, o sentido de todos os gestos de proximidade: o exercício pessoal de se aproximar dos pequeninos era o exercício de se encontrar com Cristo, de quem eles eram figura. Por isso, um gesto de aproximação no presente não se esgota em si mesmo mas antes tece um sentido que o supera. Mas nem os justos nem os injustos, nem os que os ofereceram nem os que os recusa¬ram o sabiam. Esse sentido será revelado, apenas e com surpresa de uns e de outros, no último dia.