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QUEM É O MEU PRÓXIMO? (4/4)
Comunicação apresentada na assembleia anual da Província Portuguesa da Companhia de Jesus, em Soutelo, 29-31 de Agosto de 2005

CORREIA, José Frazão, Quem é o meu próximo?
in «Brotéria», Braga: dezembro 2005, 431-441

A pietas: o cuidado pelo humano ferido no outro

Escolho a piedade para concluir o brevíssimo percurso que a pergunta «quem é o meu próximo?» provocou. E faço-o motivado pela reabilitação que o teólogo italiano Pierangelo Sequeri faz da palavra. Por ela poderemos descer ao fundo originário do apelo à proximidade, quer se concretize pela via curta do próximo quer pela via longa do sócio, para recorrer ainda às expressões de Ricoeur. É que a interrogação poderia permanecer: diante da ferida que se expõe no outro, porquê ter que responder, pessoal e coletivamente, à pergunta «onde está o teu irmão?» ou «quem é o meu próximo?». Será consequência necessária nascida apenas de uma opção religiosa concreta, que isentaria quem não se situasse dentro dessa mesma opção? Será antes o resultado meramente pragmático de uma ética contratualista e normativa que deriva do viver associados? Será uma imposição da lei biológica da natureza ou um impulso resultante de afinidades afetivas ou de interesse? Ou haverá um lastro mais originário?

Para Sequeri, numa mesma identidade humana que atravessa a multiplicidade das suas próprias atuações e numa afinidade interior que torna o outro, qualquer outro, imediatamente presente a mim mesmo, insinua-se uma resposta. Dessa identidade e afinidade comuns, desse «humano-que-é-comum» (l'umano-che-è-comune), assoma uma dignidade que não criámos e que precede todas as trocas e interesses individuais e transcende todo o contrato coletivo: o outro, nas suas feridas expostas, apresenta-se como carne da minha carne, osso dos meus ossos, mesmo sendo de outra cor ou língua, distante do meu círculo de relações e interesses. E esta dignidade torna-se objeto de devoção, movimento de participação afetiva e efetiva à humanidade ferida no outro.

É a esta devoção que Sequeri chama piedade (o teólogo usa o termo latino pietas para fugir à conotação beata e mesquinha que o termo adquire frequentemente na utilização comum).

O que é então a pietas? Pietas é um vínculo misterioso e profundo, que pode ser nomeado de muitos modos mas que, na mistura entre o egoísmo e o altruísmo, entre o interesse pessoal e a abertura desinteressada, sobressai diante da fraqueza do outro, da ferida que vemos exposta no outro . Esse laço liga-me efetivamente a ele por uma sacralidade inviolável.

A pietas, afirma o teólogo, exprime-se no «sentir em si mesmo a dor e a fragilidade do outro. E em senti-las como próprias». E chega a exprimir-se numa «vontade de substituição, numa necessidade, aparentemente sem razões, de compensar o outro pelo facto de nós termos sido poupados» ao sofrimento que lhe toca: «como pode acontecer isto a outro ser humano e não a mim?» . E este outro é qualquer outro. Por isso, a pietas está aquém das qualidades ou das afinidades, seja de que género forem, ou mesmo do respeito devido ou não àquele que sofre.

Esta devoção pelo humano ferido no outro, longe da imagem de passividade que poderia evocar, assume a força da inimizade contra os «inimigos do autor, conhecido ou ignorado, da violação do humano que se consuma no outro, mesmo quando o outro não é nosso amigo e pode ser mesmo nosso inimigo» . Por isso, para permanecer na verdade, a pietas não procura a legitimação da paixão do amor, nem a mediação da proteção da norma coletiva. Assim entendida, a pietas não tem necessidade de crianças maltratadas, nem de tsunamis, nem de muita emoção e de muitos beijinhos e abraços, nem da autoestima realizada, tudo isso sempre muito gerido pelos interesses editorais da comunicação social, pela boa imagem que a solidariedade proporciona ou pelos desejos pequenos do bem-estar individual. A pietas não tem neces-sidade de nenhum desses motivos porque basta-lhe reconhecer na dignidade do outro, de qualquer outro, «a figura mais certa e preciosa daquilo a que chamamos 'bem'» . E cultiva uma atenção quotidiana e ativa aos muitos modos nos quais a delicadeza e a firmeza dessa responsabilidade se obscurecem e chegam mesmo a falhar. É uma sensibilidade que não fica indiferente aos abusos sobre o humano, sendo que estes podem acontecer dentro e fora da lei, tanto nos lugares da marginalidade como dentro das instituições que deviam tutelar esse mesmo humano, tanto nas praças da liberdade democrática como nos claustros da consagração religiosa.

A pietas, longe da estéril emoção da indignação que nos gratifica e do horror que nos comove, é pois aquele vínculo forte e passional, vital e doloroso, que nos liga ao humano ferido no outro. Este vínculo, nenhuma lei pode garantir nem ab-rogar e nenhuma transgressão pode destruir.

Concluindo...

«Quem é o meu próximo?» É aquele pequenino que está ferido e de quem, efetivamente, me aproximo. Espontaneamente, o laço humano que há entre mim e ele faz-me comungar visceralmente a sua sorte. Esta sensibilidade genuína, a que chamámos pietas, ganha forma efetiva na criatividade pessoal e na ousadia pública da caridade. Esse próximo tanto pode ser aquele que habita na minha família ou no meu bairro e a quem chego por meio de gestos pessoais de aproximação, como pode ser aquela massa abstrata de gente que nunca vi mas a quem cheguei pela instituição que patrocinei. Quanto ao conhecimento de como o outro foi realmente tocado, esse só a Deus pertence.

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