• 230x230 FC 0068230x230 FC 0076230x230 FC 0064
    © Filipe Condado
  • 230x230 FC 0009230x230 FC 0073230x230 FC 0061
    © Filipe Condado
  • 230x230 FC 0066230x230 FC 0002230x230 FC 0007
    © Filipe Condado
  • 230x230 PGS 0126230x230 PGS 0771230x230 PGS 0056
    © Pedro Grandão
  • 230x230 PGS 1265230x230 PGS 0815230x230 PGS 1266
    © Pedro Grandão
  • 230x230 FC 0031230x230 FC 0082230x230 FC 0078
    © Filipe Condado
  • 230x230 PGS 1267230x230 PGS 0957230x230 PGS 0460
    © Pedro Grandão
  • 230x230 CNE 0017230x230 CNE 0140230x230 CNE 0145
    © CNE
  • 230x230 FC 0080230x230 FC 0081230x230 FC 0079
    © Filipe Condado
  • 230x230 CNE 0045230x230 CNE 0049230x230 CNE 0016
    © CNE
QUEM É O MEU PRÓXIMO? (3/4)
Comunicação apresentada na assembleia anual da Província Portuguesa da Companhia de Jesus, em Soutelo, 29-31 de Agosto de 2005

CORREIA, José Frazão, Quem é o meu próximo?
in «Brotéria», Braga: dezembro 2005, 431-441

A caridade: une a via curta das relações pessoais e a via longa das instituições

Percorrido este primeiro nível da surpresa diante da narrativa de Lucas, completada pela profecia de Mateus, Ricoeur avança outro passo e leva a perguntarmo-nos pelo sentido que estes textos poderão ter, para nós, hoje.

Uma das interrogações que surgem prende-se com a possibilidade real de aplicar nas nossas relações pessoais e sociais quotidianas este tipo de relação ao próximo. É que não podemos deixar de nos confrontar com todo o progresso das mediações sociais que caracterizam as nossas sociedades modernas, onde as competências e responsabilidades civis estão previamente bem definidas. Neste novo enquadramento social, a relação de proximidade imediata ao outro enquanto meu próximo não seria um sonho, desfasado do mundo socialmente ordenado das relações? O desenvolvimento da vida em sociedade põe-nos pois a viver relações, não já com o outro que é o meu próximo quando dele me aproximo de modo pessoal, mas com o outro que, como lhe chama Ricoeur, é meu sócio (socius).

O sócio é o outro a quem chego através de uma função social, com quem tenho uma relação mediada, quer pela lei, quer pela autoridade social ou por instituições, ou ainda por meio de qualquer função ou regra social.

Ora, Ricoeur reconhece que diante destas duas figuras, a do próximo e a do sócio, há duas atitudes a evitar, precisamente quando se colocam como alternativa uma da outra. Perante o desenvolvimento das relações e da organização social, bem como da crescente separação entre público e privado, uma atitude pode tender a relegar o encontro imediato com o próximo, a que o filósofo chama a «via curta das relações pessoais», como um mito de realização impossível, fruto de uma mentalidade passada. A maturidade individual e coletiva mostraria que esse tipo de relação não se enquadra nas relações próprias de sociedades modernas, socialmente bem estruturadas. Neste tipo de leitura, a responsabilidade pelo outro – segundo as várias categorias de outros: marginais, desalojados, imigrantes, etc. – é previamente definida e configurada em competências bem determinadas e específicas: bombeiros, polícia, segurança social, etc. Por isso, não me pertenceria aproximar-me. O Estado, na sua teia de organismos e de instituições por ele tutelados, já definiu quem, em determinada circunstância, se deve aproximar.

No extremo oposto, estaria a atitude da lamentação diante da alegada desumanização das relações sociais e institucionais e, como reação, a procura de refúgio em comunidades separadas, alegadamente proféticas, esperando que este mundo se destrua por si mesmo. No fundo, a «via longa das relações institucionais» seria a evitar pela corrupção interna que as caraterizaria e que levaria, mais tarde ou mais cedo, à sua autodestruição.

Mas, para Ricoeur, o próximo e o sócio não podem constituir uma alternativa. Devem, sim, ser entendidos como duas dimensões na mesma história humana, duas faces da mesma caridade. Por isso, para o filósofo francês é a caridade que une e dá sentido aos dois tipos de relação: à via longa da relação pelas instituições sociais e à via curta do acontecimento do encontro pessoal. É a caridade que dá a uma e a outra uma intenção comum.

Assim, o tema do próximo precisa de se ligar ao contexto social precisamente porque é aí que ele encontra todo o seu impacto histórico. É esta ligação ao contexto social que dá extensão à caridade. E não se trata de uma extensão puramente sociológica mas da extensão teológica do Reino de Deus e da senhoria de Deus na História.

A associação entre caridade e extensão histórica é de grande alcance, precisamente para que a relação ao próximo não seja reduzida à chamada caridadezinha da esmolinha ou da pancadinha das costas, que apazigua as boas consciências aburguesadas, quer individuais quer coletivas, e se isenta de uma arriscada presença no espaço público. Não estará, tantas vezes, a invocação da caridade mascarada de injustiça, precisamente porque aparece desvinculada da justiça e sem repercussões no espaço público? Seguramente que, a começar pelos discípulos de Cristo, ninguém está imune de tal ambiguidade! A ridicularização frequente da palavra caridade, quando a trocamos por caridadezinha ou a entendemos como tal, retirando-lhe toda a força e pertinência social, é disso prova.

Nesta linha de pensamento, a parábola de Lucas, recorda Ricoeur, não isenta da responsabilidade de responder à questão: o que significa próximo em determinada situação, por exemplo, do nosso país ou da nossa Igreja? E a resposta à pergunta pode bem passar por justificar uma instituição, por corrigir ou criticar uma outra. O tema do próximo relaciona-se sempre com o que está perto, mas também com o que está longe, tal como o Samaritano, que esteve perto por se ter aproximado, mas continuou longe por continuar a ser aquele não-judeu que ergueu do chão um desconhecido encontrado no caminho .

Em resumo, a relação ao sócio dá às relações humanas a extensão própria da caridade, a mesma extensão e impacto do Reino de Deus na História. «Afinal, a caridade», recorda-nos o filósofo, «não pode ter uma extensão menor que a história». Por outro lado, a relação ao próximo opera a crítica permanente do vínculo social, nunca suficientemente vasto nem íntimo. Essa relação expõe a intensidade e densidade humanas que são próprias da caridade. Mas sabemos que as rela¬ções pessoais também são vítimas de paixões. E, por isso, a caridade não se acha forçosamente nos sítios onde se exibe.

Já o sentido dos gestos concretos de aproximação, esse, pertence ao juízo escatológico. «Seremos julgados», afirma Ricoeur, «por aquilo que fizermos às pessoas, mesmo sem o sabermos, ao atuar pelo canal das instituições mais abstratas», e «o que pesará na balança será o ponto de impacto do nosso amor nas pessoas individualizadas» . Nas relações curtas das relações pessoais, pode acontecer que pensávamos ter atingido esse amor e, afinal, era só exibicionismo. Nas relações longas da política, do trabalho, da economia, da cultura ou da ciência pensávamos não ter atingido ninguém e, também, poderemos ser surpreendidos.

Assim, o critério das relações humanas será o de saber se atingimos as pessoas, pelas relações pessoais ou institucionais, mas não temos o direito nem o poder para administrar esse critério. Entretanto, permanecendo na labuta e na ambiguidade da história humana, e sem que consigamos esquivar-nos ao debate entre o próximo e o sócio, continuamos sem saber se a caridade está exatamente aqui ou se está antes ali.