Entrevista a Fabrice Hadjadj, conferencista principal no 2º Encontro Nacional de Leigos

fabrice hadjadjFabrice Hadjadj, filósofo e dramaturgo francês, é o conferencista principal do 2º Encontro Nacional de Leigos. A poucos dias desta Jornada, a Conferência Nacional das Associações de Apostolado dos Leigos (CNAL) pediu-lhe uma análise ao tema em debate, no dia 24, no Centro de Congressos da Alfândega, no Porto, que aqui se reúnem em três tópicos:

Qual o lugar da pessoa humana na nossa sociedade?
“Nós não estamos num simples tempo de crise, mas numa mudança de era, numa revolução radical pelo menos comparável à do neolítico. Não é pois simplesmente uma nova época da história, é algo que se assemelha a uma saída da história. O sinal desta mutação, é o colapso do humanismo e da sua fé no homem e no progresso. O humano já não é central. Perguntamo-nos mesmo em quê ele é legítimo, depois dos horrores do século XX. Ou mesmo em que consiste, depois das reduções da ciência. Porque no lugar do homem coloca-se o indivíduo do liberalismo, o ‘cyborg’ do tecnologismo, o bonobo da ‘deep ecology’ ou o jihadista do fundamentalismo... Estas quatro figuras afrontam-se entre si mas estão na verdade de acordo para rejeitar o homem nascido de uma genealogia, de uma história, com uma língua, um sexo, um nome de família significativo”.

Como reagir?
“Há uma urgência! Mas como as categorias antigas já não funcionam, como estamos face a desafios sem precedente, a maior parte das vezes, não sabemos como reagir.
O cristianismo nunca teve tanta atualidade. O apocalipse nunca foi um obstáculo para ele. Bem pelo contrário. E é por isso, parece-me, que a primeira urgência é a da evangelização - quer dizer esperar contra toda a esperança, abrir um caminho no meio do mar. A época é tão sombria que nós não podemos mais contentar-nos com a lógica do fermento na massa: é preciso também colocar a luz no candelabro”.

Que desafios enfrenta o cristianismo, os leigos cristãos especificamente, neste debate?
“Nesta evidência coloca-se a questão dos meios. Muitas vezes os católicos queixam-se de não ter os meios suficientes. Mas na realidade, temos muitos. Porque aquilo contra o que temos de lutar é uma espécie de desencarnação generalizada.
O internauta e o jihadista são ambos produtos da mundialização. Perderam o sentido de proximidade. Combatem por «perfis» ou por «ideias», não por rostos. Eis porque, mais do que nunca, é preciso pregar o amor do próximo tornando-se próximo, anunciar o mistério da Encarnação, sendo nós próprios encarnados, de próximo para próximo… É esta exigência de encarnação que faz com que a evangelização não deva ser uma especialidade clerical. Os leigos podem muitas vezes manifestar melhor para o nosso tempo um cristianismo não espiritualista, que assume plenamente a sexualidade, restaura a cultura e reabre a história...”

Fabrice Hadjadj