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PIER GIORGIO FRASSATI

Fernando Manuel Apolinário


“Eis o homem interior! É assim que nos aparece Pier Giorgio Frassati... Ele é o homem interior, amado do Pai porque muito amou”. Foi nestes termos que o Papa João Paulo II evocou a figura deste jovem italiano beatificado no dia 20 de maio de 1990.
 
História de Vida

Pier Giorgio Frassati, filho de Alfredo, fundador e diretor do La Stampa, periódico liberal que fez muito sucesso na Itália, nasceu em 06 de abril de 1901. Apesar de seu pai ser agnóstico e sua mãe avessa a qualquer forma de devoção excessiva, Giorgio, bem cedo, foi atraído por Deus. Sua avó, Amétis, é a única pessoa de sua casa que ora. Giorgio herdará dela o imenso respeito pelos mortos. Esta atração precoce e a relação de amor que ele vai nutrir com Deus, ao longo de toda a sua vida, pela oração, pelo serviço aos pobres, seus compromissos sociais e políticos vão desligá-lo de um universo familiar opressor que não quer outra coisa a não ser a conquista de uma posição social programada. Ele tem, durante toda a vida, uma admiração pelo pai e uma profunda afeição pela mãe.

O que impressiona em Pier Giorgio, de acordo com Karl Rahner, que o conheceu em Berlim, onde seu pai era embaixador, é sua pureza, sua esfuziante alegria, sua piedade, sua liberdade, seu amor pela vida e pela beleza, sua consciência social. Desde a infância, ele não pode suportar a miséria que está em torno a si. Ainda criança, aplica-se a pequenos trabalhos para ganhar dinheiro e distribui-lo generosamente aos pobres. Ele recupera papel prateado, selos para os missionários, economiza bilhetes de comboio. Renuncia aos pequenos prazeres próprios de sua idade para beneficiar os pobres. Um dia, dá seus presentes à governanta, que estava com dificuldades. Tudo fazia na mais perfeita alegria.

Desportista, adorava expedições às montanhas. A montanha era para ele uma diversão. Embora exigisse esforço contínuo e ascese, ajudava-o a fortalecer sua personalidade.

“Aprendei a ser mais fortes em vossa alma que em vossos músculos. Se vós o conseguirdes, então sereis verdadeiros apóstolos da fé de Deus”

Era o único da família que podia montar um cavalo feroz que pertencia a seu pai, em passeios de muitos quilómetros. Amava a vida e agarrou-a com todas as forças.

Ele amava cantar, mas cantava muito mal. Na igreja, colocava-se num recanto e não hesitava cantar a plenos pulmões. Quando lhe diziam que cantava mal, respondia sem hesitar: “O importante é cantar”

Depois de ter sido reprovado no exame de latim, seus pais colocam-no no “Instituto Social” dos jesuítas. Ele começa a ir à Missa todos os dias. A oração torna-se uma constante em seu dia. Ama ler a Bíblia, mas particularmente as epístolas de São Paulo e o Evangelho segundo São Mateus. Passa a ler a Bíblia em todo canto, no metro, na rua, em seu quarto. E quando lhe perguntam o que contém aquele livro, ele responde: “Palavras de vida eterna”.

Seus pais, principalmente sua mãe, percebem progressivamente a atração irresistível de seu filho pela fé católica. Sua mãe tentará tudo para fazê-lo mudar de ideias. O seu medo era que Pier Giorgio se tornasse padre. Seria melhor que ele tirasse uma licença e logo depois se casasse. Seu pai, cada vez mais contrariado com a mudança que acontece na vida de seu filho, vai visitar o pároco: “Que é que vocês fizeram com meu filho?”. Ele sempre sonhara fazê-lo diretor de La Stampa, seu jornal, futuro certamente mais convencional, mas mais glorioso.

Todos em torno dele, com exceção de sua família, começam a ficar maravilhados com as qualidades excecionais deste jovem, sempre pronto a servir, generoso, próximo dos mais pobres, alegre, simples. Um dia em que seus colegas brincam ruidosamente na porta da escola, ele é o único a perceber a tristeza do supervisor geral, “o que tem?”, pergunta-lhe. Seu filho único, de 14 anos de idade tinha acabado de morrer. Giorgio baixa os olhos e fica perto dele para confortá-lo. No ano seguinte, na mesma data, Pier Giorgio dirige-se a ele: “Hoje é o aniversário da morte do seu filho. Vou rezar por ele na Missa”.
Pier Giorgio é um católico militante nas associações, não pelo prazer de militar, mas para servir aos mais pobres e defender seus interesses.

“O fundamento da fé é o amor, sem o qual a religião desmorona, porque nós não somos verdadeiros católicos quando não conformamos a nossa vida aos dois mandamentos de Cristo, que constituem o essencial da fé católica: amar a Deus com todas as forças e ao próximo, quer dizer, todo homem, como a si mesmo”.

Ele alista-se nas Conferências Vicentinas para continuar a servir os mais pobres. Encontra, assim, situações muito delicadas: famílias divididas, filhos ilegítimos, homens que tinham problemas com a justiça. Ele faz sua aquela exortação de Cristo: “Quem estiver sem pecado, atire a primeira pedra”. Visita os doentes e é em contacto com um deles que ele contrai a poliomielite.

“Viver cristãmente é um renunciar contínuo, um sacrifício contínuo que, portanto, não pesa mais, quando se pensa que estes poucos anos passados na dor não se podem comparar com a visão da eternidade, onde a alegria não terá limite, onde gozaremos de uma paz impossível de se imaginar. É preciso aderir fortemente à fé: sem ela, que valeria nossa vida? Nada! Teríamos vivido em vão”.

Pier Giorgio apaixona-se por uma jovem que conhece na Juventude Católica. Órfã, Laura é uma moça corajosa e que estuda Matemática com muito sucesso. É secretária da pequena associação de jovens que Giorgio fundou. Ele convida-a para tomar chá com sua mãe e sua irmã para sentir a reação de sua mãe a vista de Laura, sem lhe falar de seus sentimentos. Ele conta seu segredo a sua irmã, que lhe faz compreender que não pode ir mais longe com essa moça: seria um escândalo para a família. Com medo de dececionar seus pais e percebendo, no fundo de seu coração, que sua morte está próxima, Pier sufoca seus sentimentos em a relação a Laura. Este seria, para ele, um sofrimento, um grande sacrifício.

O seu tempo, de fato, estava contado. Pier Giorgio pressente que seu tempo sobre a terra chega a seu termo. Depois que sua avó morre, ninguém percebe que ele está prestes a deixar esta terra. Reclamam mesmo que ele ficou doente num momento errado! Ele vai-se consumir docemente, sozinho, preocupado em não dar trabalho, sem que ninguém se aperceba do que ele passa, todos preocupados com a morte de sua avó. Mesmo sendo contagiosa sua poliomielite, ninguém fica contagiado.

Seus últimos dias são uma verdadeira tortura, física e moral, mas ele não se queixa.

“Mal conseguia falar, mas um traço de vida permanecia em seus olhos, que estavam fixos na face de Nossa Senhora.”

Pier Giorgio morre três dias depois da sua avó. A notícia corre rapidamente em Turim. Uma multidão numerosa corre a sua casa para vê-lo uma última vez: pessoas do povo, artesãos, mães com seus filhos. O enterro foi fora do comum: a Igreja tornou-se pequena, a praça superlotada de gente, todos meio confusos, vieram prestar homenagem a este jovem de 24 anos. Tal afluência seria incompreensível para uma pessoa pouco conhecida. Foi assim que seus pais tomaram conhecimento do renome de seu filho, o dia de sua partida.

Pier Giorgio foi simplesmente um jovem rapaz, estudante, generoso, alegre, amoroso. Com um ardor apaixonado, ele deixou-se seduzir pelo serviço dos mais pobres e expandiu aquela alegria que vem do alto: a alegria das bem-aventuranças.

Espiritualidade

João Paulo II, no discurso em 27 de março de 1977, aos universitários, disse: “Em Pier Giorgio vemos o homem das oito bem-aventuranças, que traz consigo a graça do Evangelho, da alegria da salvação oferecida por Cristo... Ide e olhai como era o homem das oito bem-aventuranças! Em verdade, nós desejamos todos tornar-nos homens das oito bem-aventuranças. Lá está a verdadeira riqueza. Lá está a maturidade. Nelas reside toda a plenitude que Cristo nos traz; a isto se chama salvação do mundo, do mundo inteiro”.

“Ele testemunha que a santidade é possível para todos...Esforçai-vos para conhecê-lo! Eu confio a ele vosso compromisso missionário.” (João Paulo II)

“Eu não hesitaria em dizer que o segredo da perfeição espiritual de Pedro Jorge deve ser encontrado em sua devoção a Maria...Nunca se passou um dia sem que ele estivesse aos pés de sua Mãe celestial com seu terço, sua oração favorita, entrelaçado em seus dedos...” (Marco Beltramo, amigo de Pier Giorgio)

Frases de Pier Giorgio

“Jesus vem a mim a cada manhã na Santa Comunhão e eu O retribuo de uma maneira pequena visitando os pobres” (disse Pier Giorgio a um amigo)
Quando um amigo lhe perguntou como podia aguentar os odores e a sujeira das favelas, ele respondeu: “Nunca esqueça que mesmo sendo a casa miserável, você está se aproximando de Cristo. No meio dos doentes e desafortunados, vejo uma luz peculiar, uma luz que não temos.”

“Viver sem uma fé, sem um património para defender, sem um esforço constante, pela verdade, não é viver mas somente existir.” (carta a I. Bonini, 27 de fevereiro de 1925)

“Não são aqueles que sofrem violências que devem temer, mas aqueles que as praticam. Quando Deus está convosco, nós não precisamos ter medo.”

“A fé dada a mim no batismo sugere-me com uma voz segura: Por suas próprias forças, você nunca fará nada, mas se você tiver Deus como centro de suas ações, então sim, você alcançará o objetivo.” (carta a I. Bonini,, 15 de janeiro de 1925)

“Na oração a alma eleva-se acima da tristeza da vida.” (uma dedicação em um livro dado por Pier Giorgio a um amigo)

“Quanto mais alto formos, melhor nós ouviremos a voz de Cristo.”

“Eu suplico a vocês com toda a força da minha alma que se aproximem da Mesa Eucarística tanto quanto possível” (Aos jovens católicos de Pollone, 1923)

“Na vida terrena, depois dos pais e das irmãs, uma das mais bonitas formas de afeição é a amizade.” (carta a I. Bonini, 10 de abril de 1925)

“Você me pergunta se eu sou feliz. Como não poderia ser, enquanto minha fé me der força...pois o sofrimento é algo bem diferente da tristeza, que é a pior doença de todas. É quase sempre causada pela falta de fé”. (Carta à sua irmã Luciana, 14 de Vevereiro de 1925)

“Nós católicos, e principalmente nós estudantes temos um grande dever a cumprir: a formação de nós mesmos. Nós, que por graça de Deus somos católicos, não devemos esbanjar os melhores anos da nossa vida, como infelizmente fazem tantos jovens, que se preocupam em gozar daqueles bens que não trazem qualquer bem, mas que comportam como fruto a imoralidade da nossa sociedade moderna. Devemos forjar o nosso carácter para estar prontos a sustentar as lutas que certamente devemos travar.” (Pier Giorgio Frassati, Escritos)

“Verso l’alto” – “Em direção ao alto” (frase profeticamente escrita por Pier Giorgio atrás de uma foto poucas semanas antes de morrer. Esse foi seu lema.)

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