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A PESSOA COMO VALOR ABSOLUTO NA BÍBLIA (2/4)

MENDONÇA, J. Tolentino, A pessoa como Valor Absoluto na Bíblia
in «Communio», Ano XIV, 1997, n.º 1

II. Da Escravidão à Liberdade para Ser
 
O fundamento da religião de Israel é o Êxodo. "Meu pai era um arameu errante que desceu ao Egito (...). Os egípcios maltrataram-nos impondo-nos uma dura escravidão (...). Mas Deus nos fez sair." (Dt 26,6-9) No contexto dessa opressão, Deus revela-Se a Moisés como Aquele que vê e ouve a aflição das pessoas e protagoniza a obra da libertação.

No relato de Ex 1-15, e nas principais releituras proféticas do evento do Êxodo, são quatro os verbos mais recorrentes que a traduzem.

O primeiro verbo é subir (ãlã). Tem um caráter predominantemente geográfico. Pode apontar uma deslocação com finalidade militar, uma expedição territorial (l Rs 20,22; Ex 21,2), mas é usado com maior frequência para indicar o caminho desde o Egito à Palestina. Não faz, contudo, apelo imediato a uma ação libertadora. A atestar esta natureza generalista, a curiosa utilização do verbo em Am 9,7: "Não sois para mim como os cuchitas, ó filhos de Israel? — oráculo do Senhor. Não fiz Israel subir da terra do Egito, os filisteus de Cáftor e os arameus de Quir?"

O segundo verbo é sair em liberdade (hõsi). Diz F. Zorrel que é o termo técnico para a saída do estado de escravidão, para a aquisição de uma terra, para o divórcio de uma mulher ou, em sentido figurativo, de um prisioneiro. O verbo indica não uma mera deslocação geográfica, mas uma viragem em termos sociais.

Resumindo: o primeiro verbo descreve o Êxodo como uma simples anábase, enquanto que o seguinte o explica claramente como uma libertação. Se é possível discutir sobre qual destes dois verbos será o mais primitivo ou sobre o seu enquadramento nas línguas semíticas, há unanimidade quanto à substituição do primeiro em favor do segundo por mão do movimento deuteronomista, com as importantes consequências que daí advêm. Deus está empenhado na afirmação do valor da vida, daquela vida ameaçada. E o facto de ambos os verbos, com intensidades diversas, expressarem isso num processo exodal, sinaliza, mesmo em termos simbólicos, como a nova geografia que Deus promete, corta radicalmente com a antiga experiência de subjugação.

Um outro verbo é tirar para fora (nasal). Esta expressão não surge nunca atribuída a coisas menores ou a bens, mas sempre à própria vida. "Como o pastor tira para fora da boca do leão" (Am 3,12); "Deus que me tirou para fora das garras do leão" (I Sm 17,37). Ser presa de um leão compromete a totalidade de uma existência, sacrifica a unidade vital, pois normalmente o que resta da chacina são, no sublinhar irónico de Amós, "duas patas ou um bocado de orelha" (3,12).

No Egito, Deus não tira para fora a força, a inteligência ou uma qualquer qualidade menosprezada de Israel. Deus salvou a vida do povo, arrancando-a da injustiça e da servidão.

É muito significativo que, embora predito e narrado, o saque dos israelitas aos egípcios (Ex 3,22 e 12,36) não tenha sido a razão invocada pelos egípcios para os perseguirem até ao Mar Vermelho. A razão apontada é que Israel deixaria de ser seu escravo (Ex 13,5).

O último verbo é libertar (g'l). Ele implica uma proximidade, uma comunhão de vida entre libertador e libertado que os outros termos não contemplam. A libertação do Egito não é um ato isolado na história da relação entre Deus e Israel. Se Ele "vê", "ouve" e "intervém" em favor daquele povo é porque ele é Seu e Deus tinha o direito da participação no seu destino.

Esta raiz verbal está intimamente ligada ao direito de família por via de duas instituições judiciais: a ge'ullã, direito ou dever de resgatar patrimónios de família extraviados ou pessoas tornadas escravas; e o goel, parente próximo que tem como obrigação o resgate, a vingança de sangue ou o levirato. Estas instituições não eram específicas de Israel (o "Códice de Hammurabi", por exemplo, também as contempla). A originalidade de Israel está, contudo, em referi-las a Deus.

Em Ex 6,6 é interessante considerar o paralelo entre os três verbos ("sair em liberdade", "tirar para fora" e "libertar"), e perceber como há um crescendo na intensidade e na implicação que, para Deus e para Israel, provêm da afirmação do absoluto da vida humana:

    
A. Eu Sou Deus
B. vos farei sair em liberdade de sob as cargas do Egito
B'. vos tirarei para fora da sua escravidão
A'. E vos libertarei com Mão estendida.