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O PAPEL DOS LEIGOS NO MUNDO (2/2)

CLIFFORD, Catherine E. e GAILLARDETZ, Richard R., As Chaves do Concílio
Prior Velho, Paulinas: 2012, capítulo onze, 154-162

O Vaticano II e a participação dos leigos na missão da Igreja

Procurando uma teologia mais positiva e construtiva do laicado, o Concílio centrou-se no caráter secular do mesmo, ou seja, na sua imersão total no mundo mediante o trabalho, a família e a cidadania. Em Lumen gentium, o Concílio escreveu:

É própria e peculiar dos leigos a caraterística secular. Com efeito, os membros da sagrada Ordem, ainda que algumas vezes possam tratar de assuntos seculares, exercendo mesmo uma profissão profana, em virtude da sua vocação específica, destinam-se sobretudo e expressamente ao sagrado ministério; por outro lado, os religiosos, no seu estado, dão magnífico e privilegiado testemunho de que não se pode transfigurar o mundo e oferecê-lo a Deus sem o espírito das bem-aventuranças. Por vocação própria, compete aos leigos procurar o Reino de Deus tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo Deus. Vivem no mundo, isto é, em toda e qualquer ocupação e atividade terrena, e nas condições ordinárias da vida familiar e social, com as quais é como que tecida a sua existência. (LG 31; o itálico é dos autores)

Essa vocação secular é explorada de modo semelhante no Decreto sobre o Apostolado dos Leigos (ver AA 2,7). A ideia, porém, não era apresentar determinada definição rigorosa de laicado que o distinguisse do clero ou dos religiosos professos, mas antes descrever a situação típica do leigo e, depois, explorar o significado teológico dessa situação. Tampouco representava uma tentativa de excluir os leigos da participação na atividade e no ministério da Igreja. Noutro lugar, o Concílio afirmou o direito e a obrigação dos cristãos de aplicar os seus dons, tanto na Igreja como no mundo (AA 3; LG 37). Contudo, é em Gaudium et spes 43 que encontramos a reflexão mais madura do Concílio sobre as obrigações cristãs dos leigos, em virtude da sua imersão no mundo da atividade humana comum.

Os documentos do Concílio são surpreendentemente livres do tipo de condenações implacáveis que muitos líderes católicos conservadores tinham desejado. É ainda mais surpreendente descobrir em Gaudium et spes 43 a seguinte condenação: «O divórcio entre a fé que professam e o comportamento quotidiano de muitos deve ser contado entre os mais graves erros do nosso tempo.» Aqui encontramos um franco reconhecimento de que um dos grandes escândalos cristãos do mundo moderno é que tantos cristãos possam professar a sua fé, embora participando em injustiças manifestas. O Concílio realizou-se, afinal, apenas algumas décadas depois da Segunda Guerra Mundial, em que pretensas «nações cristãs» tinham perpetrado gravíssimas injustiças contra populações inteiras.

O Concílio exortou todos os cristãos a integrar a sua fé na vida quotidiana. Ao serviço desta causa, invocou um tema tradicional de espiritualidade católica: a imitação de Cristo. Este tema, porém, foi objeto de uma interpretação muito diferente, aconselhando os cristãos a imitar Cristo, «o operário». Era, portanto, recordado aos católicos, que Jesus passou a grande maioria da sua vida adulta, não a ensinar nem a fazer milagres, mas apenas a exercer uma profissão. A dedução era que os discípulos de Jesus deviam esperar encontrar oportunidades para aplicar a sua fé cristã no respetivo local de trabalho. «A exemplo de Cristo que exerceu um mister de operário, alegrem-se antes os cristãos por poderem exercer todas as atividades terrenas, unindo numa síntese vital todos os seus esforços humanos, domésticos, profissionais, científicos ou técnicos com os valores religiosos, sob cuja elevada ordenação tudo se coordena para glória de Deus» (GS 43). Este texto antecipa, em várias décadas, as profundas reflexões teológicas do papa João Paulo II sobre a dignidade intrínseca, e até a santidade, do trabalho humano, em Laborem exercens. No local de trabalho, em casa, nos bairros e na esfera política, deviam ser os leigos a tomar a iniciativa de aplicar os valores cristãos à vida concreta. Com esta nova orientação, os líderes da Igreja afastavam-se, pela primeira vez desde há vários séculos, de um paternalismo segundo o qual os católicos se deviam limitar a seguir docilmente as diretivas da hierarquia.

Para apreciar esta nova visão, basta recordar o ensinamento do papa Pio X, que escreveu, em 1906.

Daí resulta que essa Igreja é, por essência, uma sociedade desigual, isto é, uma sociedade que abrange duas categorias de pessoas, os Pastores e o rebanho, os que ocupam uma posição nos diferentes graus da hierarquia e a multidão dos fiéis. E essas categorias são tão distintas entre si, que só no corpo pastoral residem o direito e a autoridade necessários para promover e conduzir todos os membros ao fim da sociedade; quanto à multidão, essa não tem outro dever senão o de se deixar conduzir e, como rebanho dócil, seguir os seus Pastores. (Vehementer Nos 8; o itálico é dos autores).

Em dramática contraposição, os Padres conciliares apelavam a uma forma mais adulta de participação na vida da Igreja. Eram os leigos que deviam assumir a liderança na aplicação do Evangelho às preocupações prementes da idade moderna.

No número 33 da Gaudium et spes, o Concílio fez uma apresentação subtil dos contributos únicos que a Igreja poderia dar ao mundo: «Guardiã do depósito da palavra divina, onde se vão buscar os princípios da ordem religiosa e moral, a Igreja, embora nem sempre tenha uma resposta já pronta para cada uma destas perguntas, deseja, no entanto, juntar a luz da revelação à competência de todos os homens, para que assim receba luz o caminho recentemente empreendido pela humanidade» (GS 33). Eis uma visão da Igreja a colaborar com toda a humanidade, confrontando-se com os mais importantes desafios da sua época. A responsabilidade de tal colaboração cabia a todos os cristãos, incumbidos de proclamar o Reino de Deus por palavras e por obras. Nesta passagem, vemos o realismo e a modéstia surpreendentes do Concílio na sua avaliação do contributo dado pela divina revelação. Sem se desviar da fé na verdade de Cristo, o Concílio reconheceu que a divina revelação precisava de ser integrada numa forma mais complexa de reflexão humana, e que esta não poderia seguir a metodologia dedutiva que tinha dominado a doutrina católica no século anterior. O que era necessário era uma abordagem mais indutiva, em que a doutrina da Igreja teria de ser aplicada por quem estivesse mais familiarizado com os padrões e os contornos da vida moderna, ou seja, pelos leigos. A integração dos valores cristãos na esfera familiar, social, política, cultural e económica não se daria por decreto eclesiástico, mas pelos cristãos comuns, recorrendo às suas próprias competências.

Mas qual deveria ser, então, o papel dos mestres tradicionais da fé, ou seja, o Papa e os bispos? Escreveu o Concílio: «Dos sacerdotes, esperem os leigos a luz e a força espiritual. Mas não pensem que os seus pastores estão sempre de tal modo preparados que tenham uma solução pronta para cada problema, mesmo grave, que surja. Não é esse o papel do clero» (GS 43). Para o Concílio, a missão do clero, desde o magistério normativo do Papa e dos bispos às atividades catequéticas e à pregação dos sacerdotes e diáconos, era proclamar a visão moral do Evangelho, tal como fora perpetuada na tradição viva da Igreja. Era particular dever de todos os batizados adotar essa visão moral, integrá-la na sua vida quotidiana e aplicá-la às complexas questões da sua época. Este processo de integração e aplicação ultrapassava o âmbito do clero; era o domínio de um juízo prudencial concreto.

Tomás de Aquino sublinhou a importância da virtude da prudência na vida moral. Seguindo Aristóteles, afirmava ele que a prudência era um exercício de razão prática e estava orientada para a busca do bem, presente em qualquer circunstância . Por outras palavras, a prudência é aquela virtude que nos leva a passar do princípio moral à ação concreta, mas tendo em conta todas as circunstâncias relevantes. O exercício da prudência requeria que se tivesse um sólido conhecimento dos princípios morais pertinentes, mas também requeria que se atendesse aos detalhes concretos de cada situação. Esses detalhes, ao contrário dos princípios em si, são fluidos e mutantes, e apreendê-los é necessariamente mais experimental do que o conhecimento que se tem de determinado princípio. Isso significa que a certeza de alguém acerca da retidão ou do erro dos próprios juízos diminui na medida em que os juízos dependem de dados empíricos contingentes. Na medida em que essa contingência limita a nossa certeza, deveria haver maior disponibilidade para tolerar o desacordo.

Os bispos conciliares revelaram um realismo surpreendente acerca da complexidade do reino prudencial, reconhecendo que, «muitas vezes, a sua visão cristã da vida sugerir-lhes-á determinada solução numa dada situação. Contudo, acontece com bastante frequência – e legitimidade – que alguns dos fiéis, com não menos sinceridade, verão o problema de forma bastante diferente». Como deve este desacordo ser adjudicado? «Procurem, antes, tentar guiar-se mutuamente, num diálogo sincero, num espírito de caridade recíproca e, antes de mais, com uma genuína preocupação pelo bem comum» (GS 43). Esta passagem reflete uma sofisticada apreensão tanto da necessidade como da complexidade da participação cristã no domínio público.

Nem todos apreciaram o significado prático do reconhecimento do lugar do juízo prudencial por parte do Concílio. Implícito ao ensinamento do Concílio está o reconhecimento de que os católicos que aceitam toda a doutrina moral da Igreja podem discordar legitimamente uns dos outros no que se refere à imple-mentação concreta dessa doutrina na sociedade. Por exemplo, a doutrina social da Igreja chama os católicos a fazerem uma opção preferencial pelos pobres, a preocuparem-se de modo especial pelos pobres e pelos fracos do mundo. Nenhum católico consciencioso está livre de ignorar a miséria dos pobres como problema dos outros. Contudo, mesmo que dois católicos concordem que têm uma obrigação religiosa e moral para com os pobres, podem discordar legitimamente sobre as políticas particulares que melhor aliviarão a pobreza. De igual modo, dois católicos poderiam discordar sobre se a aplicação da doutrina moral católica requer um remédio legal.

Finalmente, há que referir o apelo do Concílio ao diálogo em casos de desacordo. Vivemos numa época em que o discurso civil está a ser rapidamente substituído pela política da demonização. A televisão por cabo e a rádio estão povoadas de «cabeças falantes» cuja primordial estratégia retórica é atribuir má vontade àqueles de quem se discorda. A motivação é simples. Se tu discordas de mim, e eu te posso transformar numa pessoa má ou ignorante, já não terei de tomar as tuas opiniões a sério. Infelizmente, esta estratégia retórica, tão pouco caridosa, é muitas vezes reproduzida na Igreja. Por conseguinte, vale a pena recordar o sábio conselho do Concílio, segundo o qual, em caso de desacordo, os cristãos se devem entregar a um humilde diálogo, determinados a colocar o bem comum acima dos seus próprios interesses particulares. Mais adiante, na mesma Constituição pastoral, o Concílio escreve: «Tal missão exige, em primeiro lugar, que, reconhecendo toda a legítima diversidade, promovamos na própria Igreja a mútua estima, respeito e concórdia, em ordem a estabelecer entre todos os que formam o Povo de Deus, pastores ou fiéis, um diálogo cada vez mais fecundo» (GS 92).

Embora o Concílio fosse incapaz de apresentar uma teologia do laicado completamente desenvolvida e consistente, os seus contributos colocaram os fundamentos de uma nova era para a Igreja. Os leigos já não tinham de ser relegados para uma obediência servil às ordens do clero. Agora, os leigos deviam envolver o mundo com espírito de iniciativa, coragem e convicção. Na época pós-conciliar testemunhámos uma ênfase renovada dada à prioridade do Batismo cristão e às exigências da missão cristã, chamando cada discípulo batizado de Jesus a ser servo do Reino de Deus.

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