• 230X230 CentroAletti 0006230X230 CentroAletti 0011230X230 CentroAletti 0018
    © Centro Aletti
  • 230X230 CentroAletti 0019230X230 CentroAletti 0020230X230 CentroAletti 0021
    © Centro Aletti
  • 230X230 CentroAletti 0001230X230 CentroAletti 0004230X230 CentroAletti 0005
    © Centro Aletti
OS MISTÉRIOS DA VIDA DE JESUS NAS ESCOLAS DE ESPIRITUALIDADE  (3/5) 

MELO, Luís Rocha e, Os mistérios da vida de Jesus nas escolas de espiritualidade
in «Communio», Ano XIX, 2002, n.º 2, 122-137

II. Os Exercícios Espirituais

A Devotio Moderna tinha os dias contados, apesar do grande contributo espiritual que deu à Igreja de então. O divórcio entre espiritualidade e teologia dogmática foi nefasto para ambas e não podia perdurar. A dimensão afetiva na relação com Deus, que fomentou e divulgou, foi um enriquecimento notável para a espiritualidade em geral mas, sem a correspondente reflexão intelectual que a fundamentasse, podia transformar-se em vela de cera que vai derretendo até se apagar. Foi o que aconteceu.

Erasmo

Faziam furor, entretanto, na Europa, as obras de Erasmo de Roterdão e as de outros humanistas do início do século XVI. Formado também na escola da Devotio Moderna e da Imitação de Cristo, Erasmo havia mais tarde de se insurgir contra essa corrente pietista ou devocionista que alimentava, no seu dizer, frades ignorantes.

Embora condenadas em várias universidades por causa de exageros nas críticas que dirige à vida religiosa e à Igreja em geral, uma das suas obras, o Enchiridion militis christiani (1503) teve grande sucesso. Escreveu-a "para corrigir o erro daqueles que assentam a vida cristã em cerimónias e práticas exteriores, excessivamente judaizantes, que desviam da verdadeira piedade". Aparecem nela, no entanto, alguns dados importantes para a renovação da Igreja: Jesus Cristo como centro e fim da nos¬sa vida; a fé que se fundamenta em Cristo e nas Escrituras em geral; o combate contra os vícios e a prática das virtudes que devem ser permanentes, através da oração e da meditação das Escrituras. Essas levam a pessoa ao conhecimento da verdade, ao amor e à imitação de Jesus Cris¬to. Encontrá-lo e saboreá-lo são a base da verdadeira espiritualidade. O cristocentrismo, a interioridade e a dimensão afetiva da oração são cons-tantes nesta obra de Erasmo. A imitação de Cristo deve incluir, além disso, uma preocupação permanente pelo homem e a sua auto-edificação: "Homines non nascuntur, sed finguntur" (os homens não nascem homens; vão-se tornando homens). Com o apoio de muitos autores da época, o novo humanismo vai-se difundindo, pouco a pouco, nos principais centros da cultura europeia.

García de Cisneros

Quase ao mesmo tempo, Garcia de Cisneros sai de Valladolid para se estabelecer, com mais vinte companheiros que aderem à reforma beneditina, em Montserrat, perto de Barcelona. Estamos no ano de 1492. Seguindo a corrente da época e a importância atribuída à sistematização, Cisneros propõe, como elemento de reforma da Igreja, "exercícios espirituais" que divide em três semanas, correspondentes às três vias do caminho espiritual: na via purgativa, meditava-se o pecado, a morte, o inferno, o juízo, a paixão de Cristo e a Santíssima Virgem. Tinha como finalidade provocar o santo temor de Deus e a contrição pelo pecado. Na via iluminativa, a segunda semana, os temas eram os da criação, a ordem sobrenatural, a vocação religiosa, a justificação, a providência e o céu; também se podia meditar a vida de Cristo ou dos santos: tinha por finalidade preparar o exercitante para uma boa confissão e despertar nele o amor de Deus. Na via unitiva, a pessoa, convertida e desapegada dos bens deste mundo, já não quer senão servir a Deus. Os temas são os de Deus como princípio de todas as coisas, como beleza do universo, como glória do mundo, como caridade infinita, como regra de toda a criatura. Propõe ainda três maneiras de contemplar a Cristo: primeiro, considerar a santíssima humanidade, como ensina S. Bernardo; segundo, olhar para Cristo como Deus e como homem; terceiro, olhar para a santíssima humanidade de Cristo e concentrar-se na sua divindade. Jesus Cristo ocupa, em Cisneros, o centro da meditação cristã e, de forma particular, a sua paixão que tem como fruto conduzir a pessoa à identificação com Cristo crucificado.

Inácio de Loyola

Inácio de Loyola conheceu certamente a obra de Erasmo quando estudava em Alcalá de Henares, universidade criada em 1500, já também sob o signo do novo humanismo do seu fundador, o Cardeal Francisco de Cisneros (não se confunda com Garcia de Cisneros). Bebeu sem dúvida aquele humanismo que circulava no mundo cultural da Europa, em particular em Alcalá, Salamanca e Paris, onde estudou. Aberto ao mundo, o cavaleiro medieval que sonha com feitos grandiosos em honra do seu rei e da sua dama, apercebe-se da mudança e vai atrás dela até Paris. Lá havia de permanecer até ao final dos estudos. Também conheceu certamente Garcia de Cisneros e o seu Ejercitatorio durante a sua permanência em Manresa e Montserrat. A espiritualidade da Devotio Moderna ainda se fazia sentir na Espanha de 1521.

Regressando, muito embora, à humanidade de Jesus e preconizando o que viria depois, tanto a Devotio Moderna como Cisneros e Erasmo não acentuaram devidamente um ponto essencial: o que dá sentido a todos os mistérios da vida de Cristo é a sua Ressurreição gloriosa. Sem ela, diz S. Paulo que é vã a nossa fé (ICor 15,14) e, podíamos acrescentar, é vã a nossa espiritualidade. O novo humanismo pode ter contribuído, em Inácio de Loyola, para a redescoberta da importância da ressurreição de Cristo na espiritualidade cristã. Se Jesus Cristo é, de facto, o "primogénito" ou o analogado principal da criação (da nova criação), o homem só é plenamente homem, com todo o humanismo que se fomenta nesta época, se participar na sua ressurreição gloriosa, em plenitude no mundo que há de vir e de forma condicionada no presente, como embrião. Sem ela, de facto, e acentuando o valor salvífico da paixão e da morte de Jesus, de forma quase exclusiva, pode criar-se um tipo de espiritualidade dolorista, pouco humana e pouco cristã. As tentativas de reforma do séc. XV e princípios do séc. XVI, bem intencionadas, tanto assim fizeram que deixaram provavelmente na penumbra o essencial do cristianismo.