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OS MISTÉRIOS DA VIDA DE JESUS NAS ESCOLAS DE ESPIRITUALIDADE  (1/5) 

MELO, Luís Rocha e, Os mistérios da vida de Jesus nas escolas de espiritualidade
in «Communio», Ano XIX, 2002, n.º 2, 122-137

Antes e durante o século XVI

A espiritualidade cristã nunca perdeu a identidade, nem nas fases obscuras da sua história. Componentes que, de forma mais ou menos explicitada, sempre animaram o itinerário espiritual da Igreja e de cada um dos seus membros e definiram, de alguma maneira, essa mesma identidade são estas, entre outras: o cristão é alguém que está em Cristo (ICor 1, 30; Rm 8,1; G1 3,28) e reproduz a sua forma (a forma Christi: Rm 8,29) por ação do Espírito Santo (Rm 8,14-17); é alguém que nasce de novo pela água e pelo Espírito (Jo 3,5), se torna filho de Deus (Jo 1,12; Rm 8,14) e é nova criatura (2Cor 5,17; G1 6,15), imagem e semelhança do Criador. Desde que o Verbo se fez homem e veio habitar connosco (Jo 1,14) como revelador único do Pai (Jo 1,18; 14,8) e caminho único para Ele (Jo 14,6), é preciso que apareça um dado no itinerário espiritual dos seus seguidores: só a humanidade de Jesus dá acesso a Deus que nunca ninguém viu (Jo 1,18); de facto quem O vê, vê o Pai (Jo 14,9), e ninguém vai ao Pai senão por Ele (Jo 14,5).

Parece claro, portanto, a partir do Novo Testamento, que o caminho do homem para Deus deva passar por Jesus de Nazaré. O Espírito Santo ensina, por outro lado, tudo o que Ele disse (Jo 14,26) e revela a profundidade do seu mistério (ICor 2,10) como Kyrios, o Senhor (ICor 12,3). No seguimento de tradição anterior, a Igreja foi descobrindo, pouco a pouco, que a maneira melhor de se expor à ação do Espírito e ser introduzida no conhecimento interno de seu Senhor é a da meditação e contemplação dos mistérios da sua vida.

Os episódios da vida de Jesus ocorridos no espaço e no tempo ficaram para trás, é verdade, mas são assumidos e transfigurados no poder da sua ressurreição gloriosa. As chagas das mãos e dos pés e a ferida do lado aberto pela lança do soldado são mostrados pelo Ressuscitado a Tomé e aos outros "ao anoitecer daquele dia" (Jo 20,19-20.27) para lhes dizer que a sua história continua presente, agora que venceu a morte e se encontra vivo, na plenitude da existência, junto do Pai. Assim como as chagas da paixão, também os outros mistérios da sua vida terrena aí se encontram cheios de significado na história da salvação. Recordar cada um deles e meditá-los no coração como Maria, a Mãe de Jesus (Lc 2,19.51), para discernir, à luz do Espírito Santo, o conteúdo salvífico do seu significado, para mais o assimilar e viver, é exercício que a tradição conservou com carinho e devoção.

Hoje em dia, a aproximação entre o Jesus da história e o Cristo da fé é dado compreendido a nível da reflexão, embora não seja possível, por agora, resolver todas as questões que o assunto levanta. Ainda que a exegese vá destrinçando o que pertence à história e o que pertence às catequeses primitivas ou a estilos literários do tempo, não se põe em dúvida a dimensão salvífica de toda a vida de Jesus em cada um dos seus passos: "Há tanto tempo que estou convosco e não me ficaste a conhecer, Filipe? Quem me vê, vê o Pai" (Jo 14,9). Também não se põe em dúvida a historicidade de Jesus de Nazaré, mesmo que não seja possível, na evolução da exegese contemporânea, determinar, com rigor científico, a verdade histórica de todos os episódios narrados nos evangelhos. O que nada tira ao testemunho de fé que os evangelistas quiseram transmitir e em nada diminui a possibilidade de meditar e contemplar as narrações que conhecemos, se acreditamos na inspiração dos textos sagrados e, portanto, no seu valor salvífico. Dado na ressurreição, o Espírito Santo que ensina o que Jesus disse e introduz o crente no mistério revelado agora aos santos (Eí 3,5) há de fazer a releitura da sua história como o fez com os discípulos, e levar-nos a encontrar esse valor salvífico do que nos foi transmitido. A contemplação da encarnação, do nascimento ou da infância de Jesus, do seu batismo, da sua palavra e dos seus milagres ou de qualquer episódio da sua vida há de ser ocasião de nova luz que o Espírito comunica. Nessa releitura, interessa ao Espírito Santo aproximar e identificar o cristão com Cristo pela mediação de uma Palavra revelada e de um testemunho de fé transmitido. A santa curiosidade dos homens de fé e o proveito cultural dos homens de ciência despertarão o interesse por esclarecer o que pertence à fé e o que pertence à história factual. O contemplativo que vive a vida de Deus e fixa a atenção nos evangelhos não tem de se sentir defraudado se um dia descobrir que a matéria contemplada pertencia às tradições orais e era narrada nas catequeses primitivas de S. Marcos, de S. Mateus ou de S. Lucas, segundo os desafios que enfrentavam os apóstolos para avivar a fé dos ouvintes e não segundo o rigor histórico dos factos. Ficará, pelo contrário, muito contente por a ciência sagrada o ter ajudado a compreender melhor como é que a revelação chegou até nós e quais as intenções do Espírito Santo ao inspirar os evangelistas.

Mesmo antes da questão sinóptica amplamente estudada desde os fins do séc. XIX, ou já mesmo antes, nem sempre se encontrou, infelizmente, na Igreja, a unidade que deve existir entre os acontecimentos da vida de Jesus narrados nos evangelhos e a teologia dogmática que estuda as verdades reveladas. Os teólogos católicos preocuparam-se muito em compreender a união do Verbo com a natureza humana do homem Jesus de Nazaré e o sentido redentor da sua morte. Mas o resto da sua vida, desde o nascimento até ao Calvário – toda a vida de Jesus – parecia desprovido, nalgumas épocas, de significado salvífico; era matéria apenas para afervorar a piedade cristã, sem grande interesse para esclarecer o mistério da encarnação e o valor soteriológico do seu prolongamento em Nazaré, na Galileia e na Judeia.

Pior do que isso, movidos talvez pelo santo desejo de reformar a Igreja que se deixava corromper pelos critérios do mundo e sob pretexto de se elevarem na contemplação, livre de imagens e de conceitos, alguns homens e mulheres afastaram-se da humanidade de Jesus em certas épocas da história. Em vez de voltarem às fontes do Evangelho e da tradição primitiva, nos intentos reformistas, essas boas intenções deixaram-se levar por gnosticismos que viam no mundo material a causa de todas as corrupções. Consequentemente e pouco a pouco, de forma provavelmente inadvertida, puseram de lado a contemplação do homem Jesus e da sua história na Galileia e na Judeia. Não souberam conjugar a materialidade de uma vida normal com as exigências da perfeição supostamente procurada no espírito e na gnose. Nessa perspetiva, a vida terrestre de Jesus, desviada de uma sã cristologia que leve às últimas consequências a encarnação do Verbo e assuma a sua corporeidade e a sua história de homem igual a nós em tudo exceto no pecado, pode tornar-se suspeita por aparecer misturada com o mundo material cheio de limitações e deficiências. Toda a espiritualidade que assente em gnosticismos e esqueça, pelo menos em parte, a humanidade do Cristo, corporalmente presente no meio dos homens, não pode vingar nem perdurar no tempo, mesmo que outros valores lhe sejam universalmente reconhecidos.