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OS MISTÉRIOS DA VIDA DE JESUS NAS ESCOLAS DE ESPIRITUALIDADE  (2/5) 

MELO, Luís Rocha e, Os mistérios da vida de Jesus nas escolas de espiritualidade
in «Communio», Ano XIX, 2002, n.º 2, 122-137

I. A imitação de Cristo

Contra um misticismo nominalista que centrava a atenção em especulações complicadas sobre a união com Deus, na Europa do séc. XIII, levanta-se uma corrente espiritual, predominantemente afetiva e bem conhecida, designada por Devotio Moderna, que pretendia a reforma da Igreja e respondia melhor do que outras à crise e às necessidades dos cristãos. "Para que te serve disputar sobre os mistérios da Santíssima Trindade – diz a Imitação de Cristo – se te falta a humildade e, assim, desagradas à mesma Santíssima Trindade? De facto, não são os sublimes discursos que fazem o homem santo e justo; é uma vida virtuosa que torna o homem agradável a Deus. Prefiro sentir a compunção a saber defini-la." Gerardo Groote e Tomás de Kempis são nomes que ficaram na história desta época. Pretendiam, como outros que os precederam, uma verdadeira reforma da espiritualidade e dos costumes na Igreja, mas pela via certa: a da Imitação de Cristo, na sua humanidade. "Quem me segue não anda nas trevas." (Jo 8,12) É assim que Jesus Cristo nos exorta a imitarmos a sua vida e costumes... O nosso empenho principal deve, pois, consistir em meditar a vida de Jesus Cristo." Atribuída a Tomás de Kempis, a obra que dá por esse nome teve tanta importância na vida dos crentes que foi livro de cabeceira de muita gente, desde os princípios do séc. XV até aos nossos dias. É um livro medieval. Nasceu como reação contra a "mística das essências" do norte da Europa e contra o laxismo da Igreja, o que explica o seu anti-intelectualismo, a sua insistência na fuga do mundo e a sua tónica constante sobre a conversão e a penitência. Nesse contexto é que deve ser lido. O ponto de partida, no entanto, que centra todo o seu discurso teológico é este: a verdadeira vida espiritual desenrola-se através da imitação de Cristo; meditando a sua sagrada humanidade, o cristão chegará à contemplação da sua divindade e à união com Deus. Para nós evidente nos dias de hoje, a grande maravilha deste livro é que propõe claramente um regresso à encarnação de Cristo, incompreensivelmente esquecida numa Igreja corrompida e também nas suas anteriores tentativas de reforma. Nesse regresso, Jesus Cristo, o Verbo feito carne, é meditado e contemplado nos mistérios da sua vida terrestre; a essa contemplação há de seguir-se a interiorização do seu Espírito.

Nascida em clima da Devotio Moderna, a Imitação é um tratado amplo de vida espiritual cristã. Não fala apenas dos mistérios da vida de Cristo. Enquanto manual de espiritualidade, debruça-se com insistência sobre o modo de ser cristão que tem sempre, no entanto, como pano de fundo, a vida de Jesus. Insiste, por exemplo, no lado interior da vida espiritual, no conhecimento próprio, na humildade e na contrição, na mortificação das tendências desordenadas, etc.; em tudo isso nada se distingue de tantos outros compêndios de espiritualidade cristã. O que a tornou famosa dentro da época, e depois, foi a sólida fundamentação em Cristo de todo o seu discurso espiritual. Pouco a pouco foi posta de lado, já antes do concílio Vaticano II mas sobretudo a seguir a ele, pois a cristologia e a antropologia em que se baseia já não condizem com as da Igreja contemporânea.

Podendo ainda ser referência no universo espiritual, enquanto caminho e seguimento de Cristo, devemos ter em conta, além disso, que a sua tendência, predominantemente afetiva e até mesmo anti-intelectual, pode ter distanciado a espiritualidade da teologia.