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O LUGAR E A MISSÃO DOS LEIGOS NA IGREJA DE HOJE (1/2)

PINHO, José Eduardo Borges de, O lugar e a missão dos leigos na Igreja de hoje
in «A Acção Católica do presente e do futuro»
Intervenções de D. António Ribeiro, D. José Policarpo, António de Sousa Franco e José Borges de Pinho
Lisboa 1985, 27-47

1. Introdução

Esta reflexão sobre o lugar e a missão dos leigos na Igreja de hoje tem duas partes. Primeiro, procurarei esboçar algumas linhas de força de uma teologia do laicado. Depois, tentarei apontar alguns desafios que se colocam à existência cristã e que me parecem particularmente relevantes para a missão dos leigos na Igreja e no mundo. Antes, porém, torna-se necessário uma observação prévia fundamental.

De facto, ao abordar hoje o lugar e a missão dos leigos na vida da Igreja, tenho consciência de que só o posso fazer sob a marca de uma certa provisoriedade. E, para mim, reconhecer isto — como princípio de descoberta e de interpretação — constitui um dos pressupostos basilares para uma correta abordagem da situação, seus problemas e suas esperanças. Duas simples considerações tornam isto bastante claro.

Por um lado, é sabido que o lugar do laicado não é separável da questão dos modelos de Igreja, isto é, das formas concretas como a Igreja se entende e realiza em cada época e situação. As diferenças que a história da Igreja nos mostra entre o primeiro e o segundo milénio ou, para sermos mais atuais, as diversidades de consciência e de práxis que se observam entre uma Igreja que está num país europeu ocidental e a Igreja que está em Moçambique tornam transparente como é real o condicionamento que brota da inserção da Igreja no histórico concreto e como são limitados o tempo e o espaço das nossas experiências. Não há dúvida, pois, que a consciência que temos dos problemas, as respostas de ação que vamos encontrando, as perspetivas de futuro que conseguimos apontar são condicionadas pelo modelo ou modelos de Igreja que vamos concretizando. E este dado assume tanto maior relevância quanto são evidentes os sinais de estarmos numa fase de transição (também quanto a modelos de Igreja!) e quanto se sabe que o decisivo passa pela práxis que se tem, não pelas simples mudanças de linguagem que se possam operar. Não admitirmos aqui a marca do provisório seria absolutizarmos as nossas realizações atuais, ignorando os impasses de ordem teológica e prática que existem e impedindo os desenvolvimentos necessários.

A esta primeira consideração acrescento uma outra, ainda mais elementar. E óbvio que falar dos leigos não é outra coisa senão falar da vida da Igreja na sua existência real e multifacetada como comunidade crente. E o viver da Igreja, assentando embora em dados fundantes e instituídos uma vez para sempre, é, todavia também, realidade que continuamente se faz e sempre de novo acontece na força do Espírito. A iniciativa salvadora de Deus de que nasce a Igreja torna-se presente na vida de homens e mulheres crentes, que só podem ser fiéis a Jesus na força do seu Espírito e na dinâmica de uma contínua atualização e renovação face aos desafios de cada tempo. Dito de outro modo: à essência da Igreja pertence também a mudança, a novidade, o impulso criador, a descoberta cada vez mais profunda e atuante do Mistério de Deus manifestado em Jesus Cristo e presente hoje pelo seu Espírito. Não admitirmos que há aqui, pois, lugar para o provisório seria fecharmos o nosso coração aos impulsos renovadores e criadores que o poder de Deus suscita na sua Igreja.

Mas — e o que acabo de dizer terá sido já suficientemente explícito— esta consciência do provisório não significa qualquer relativismo. Pelo contrário: trata-se precisamente de afirmar e buscar a verdade nas circunstâncias que tecem o viver humano e crente. À existência crente pertence, de facto, a permanente tensão entre um definitivo que nos vem de Deus e um provisório que afeta todas as nossas realizações, uma tensão que se traduz em exigência de radical fidelidade ao Espírito. Uma fidelidade que — à luz da história da salvação — só pode ser vivida por uma fé verdadeiramente incarnada na história, permanentemente capaz de arriscar o provisório. De resto, estará aqui um dos traços que devem sublinhar a presença e a riqueza laicais na Igreja.

2. Linhas de força de uma teologia do laicado

2.1. A Igreja como Povo de Deus
2.2. Diversidade de carismas, serviços e ministérios
2.3. Existência laical e secularidade
2.4. A radicalidade da vocação cristã

Uma teologia do laicado continua a ter hoje um ponto de referência fundamental no Concílio Vaticano II. Trata-se de algo que, por mais óbvio que seja, é necessário lembrar de vez em quando. Por um lado, basta recordar a última carta pastoral dos nossos bispos para se tomar consciência da distância que permanece entre a doutrina conciliar e a realidade. Por outro, não se pode ignorar a opinião dos que consideram ter o novo Código de Direito Canónico ficado aquém dos impulsos teológicos conciliares e dos desenvolvimentos feitos nalgumas Igrejas locais, precisamente neste domínio da presença e missão dos leigos — homens e mulheres — na Igreja .

Tendo em conta isto, tomar o Vaticano II como ponto de referência fundamental só pode significar, então, a tarefa de dinamizar as suas intenções e praticar o que falta cumprir. Mas tal só pode acontecer também na consciência dos seus limites e na necessidade de superar compromissos inevitáveis há vinte anos. Nesta dupla perspetiva, penso que na visão da Igreja como Povo de Deus, na consciência dos carismas, no modo de relacionamento com a secularidade e, sobretudo, na radicalidade da vocação cristã se encontram linhas de forças fundamentais para uma teologia do laicado.

2.1. A Igreja como Povo de Deus

É sabido que um dos aspetos inovadores da visão conciliar da Igreja — sem dúvida, pelo reassumir de dados e experiências basilares da história da salvação — foi a afirmação da realidade da Igreja como Povo de Deus. E não é exagero dizer que o Concílio operava uma «revolução» face a esquemas teóricos e práticos ainda em vigor ao colocar, na Lumen Gentium, a reflexão sobre o Povo de Deus antes de qualquer referência às diferentes tarefas e funções na Igreja . Ainda hoje, e apesar de a imagem e expressão «Povo de Deus» se ter tornado um lugar-comum na nossa linguagem eclesial, continua a ser tarefa ingente responder aos desafios que esta visão da Igreja contém.

De facto, reconhecer que a Igreja é, primeiro que tudo, Povo de Deus significa que ela é vista, radical e basilarmente, como comunidade, uma comunidade de pessoas constituída não apenas nem sobretudo pela vontade humana, mas decisivamente pela convocação do único Deus em Jesus Cristo e no seu Espírito. Essa convocação — pessoal e comunitária, numa solidariedade de destino que radica em Deus — gera comunhão fraterna na mesma fé, na mesma esperança e no mesmo amor, ela representa um dom e uma vocação comuns a todos os crentes. A Igreja é, então, e não obstante todas as diferentes funções, serviços e ministérios que tem e de que carece, uma igualdade fundamental de pessoas que, pelo batismo, são chamadas a participar no ministério profético, sacerdotal e diaconal de Jesus Cristo, isto é, são chamadas ao seguimento de Jesus como expressão definitiva do amor salvador de Deus para com os homens e o mundo. Povo de Deus em marcha a caminho da plenitude do Reino, a Igreja não está, pois, separada do mundo ou face a ele, ela entende-se como uma comunidade que vive inserida no mundo e para o serviço do mundo, sendo sinal de um diálogo e de um amor que continua a manifestar-se na his-tória. A missão da Igreja de ser esse sinal nos dinamismos e nas convulsões da história diz assim respeito a toda a comunidade e a cada um dos crentes, é responsabilidade a que ninguém pode eximir-se ou da qual possa ser excluído, é tarefa partilhada em «irresponsabilidade por todo um povo que, por dom de Deus, se sabe comprometido no anúncio do Evangelho, experimentado como sentido de vida para si e para os outros homens.

Tudo isto é sabido. Mas a criteriologia que daqui resulta — e isto sem ignorar que a imagem «Povo de Deus» não esgota a eclesiologia nem é imune a abusos ou deformações — está ainda longe de ser verdadeiramente assumida por todos os cristãos. De facto, numa Igreja concebida e realizada como ver-dadeiro Povo de Deus, a unidade está antes da distinção, o comunitário ocupa o lugar primordial na hierarquia dos valores, a Igreja só pode ser concebida corretamente tendo em conta o princípio da totalidade. Então, entende-se que é a única Igreja que na sua totalidade acolhe a Palavra de Deus, confessa e testemunha a sua fé, celebra os dons de Deus, procura servir os homens e o mundo. A esta luz, dicotomias tradicionais — Hierarquia/leigos, Igreja docente/Igreja discente, cristãos na Igreja/cristãos no mundo — têm de ser interrogadas quanto à sua justificação, revistas nas deformações a que deram origem, purificadas para que se salvem os valores que pretendiam afirmar. A partir daqui também se torna claro a contradição que constitui a realidade das nossas paróquias, onde não se experimenta suficientemente que o povo crente seja sujeito da sua fé — pelo fomento da maturidade cristã, pelo sentido da corresponsabilidade, pela partilha de decisões, pelo desenvolvimento de dinamismos comunitários. Da problemática subjacente a esta contradição mostravam-se conscientes os nossos bispos quando na «Nota pastoral sobre a Acção Católica e outras formas organizadas de apostolado laical» escreviam: «A descoberta da vocação e do papel específico dos leigos está relacionada com a necessidade de uma catequese permanente, de uma sólida formação espiritual e do seu empenhamento apostólico. Mas o que mais ajudará os leigos a tomar consciência da sua missão própria será uma pastoral concebida como ação de todos os membros da Igreja» .