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O ACONTECIMENTO JESUS CRISTO (5/6) 

LOURENÇO, João, O Acontecimento Jesus Cristo
in «Communio», Ano XIX, 2002, n.º 2, 107-121

IV. Dos mistérios ao mistério de Jesus

Partindo dos acontecimentos históricos da vida de Jesus, o Novo Testamento procura acima de tudo oferecer-nos uma compreensão unitária do acontecimento Jesus Cristo, mesmo que para tal nos vejamos confrontados com diferentes perspetivas, modos diversificados ou fórmulas variadas de o apresentarem e lhe conferirem um significado. Aquilo que os autores sagrados nos legaram, antes de mais, foi uma fórmula plural da vivência da mesma fé, que tem por fundamento o mesmo Salvador e que radica na mesma experiência vivencial dos discípulos. Sucede, porém, que embora a fonte seja a mesma, o percurso e sua vivência conheceram formas e fórmulas diversas, muitas delas nascidas no confronto quotidiano com um ambiente hostil e adverso ao exercício da sua confissão. Mais do que devedora da experiência dos Apóstolos, a pluralidade das suas releituras é um sinal da contingência histórico-existencial do próprio Mistério de Jesus, "nascido sujeito à lei" (G1 4,4) e "tomando a condição de servo" (F1 2,7).

Neste contexto, e face às diversas perspetivas de compreensão desses "mistérios" da vida de Jesus, algumas das quais aqui já referidas, impõe-se uma pergunta: Como é que a comunidade passa da leitura dos mistérios da Sua vida para a compreensão do Mistério de Jesus? A caminhada e a conversão da comunidade à compreensão unitária da vida do Mestre foi certamente um processo que se desenvolveu a dois ritmos, um que podemos dizer interno à própria comunidade, e que tem por centro a experiência pascal, e um outro externo que foi certamente motivado pelo confronto contextual dessa mesma comunidade com o judaísmo e com o ambiente do império. Se, por um lado, a fé na missão messiânica de Jesus abre essa comunidade a uma nova descoberta do sentido das profecias do Antigo Testamento, também é verdade que o contexto histórico em que a comunidade vive a leva a olhar a vida do Mestre numa nova dimensão que não se esgota nos momentos da sua vivência temporal, mas antes a ajudam a compreender melhor o sentido escatológico dessa missão.

Sem pretendermos alargar, aqui e agora, a nossa reflexão tomando como referência a literatura judaica contemporânea, que nos oferece inúmeros elementos que nos poderiam ajudar nesse enquadramento, a verdade é que estes não estão ausentes nem são estranhos à vida da comunidade em si, que os conhecia e dos quais se servia no uso que fazia da Escritura para melhor poder entender e apresentar o sentido da vida de Jesus.

É interessante constatar que a comunidade cristã, nos relatos textuais que nos legou no Novo Testamento, não parece muito motivada para reforçar o sentido biográfico dos dados neles referidos. Sem desvalorizar o caráter biográfico dos mistérios narrados, o que os autores sagrados nos legaram, fundamentalmente, foi o Mistério de Jesus na sua totalidade, a sua inserção no plano histórico salvífico, bem como a sua missão messiânica, mostrando como na sua caminhada temporal tudo converge para a Páscoa. Não sendo a vida de Jesus ignorada nem desvalorizada pelos textos que em muitas ocasiões têm um objetivo e um cenário perfeitamente biográfico, fácil é constatar que o sentido que os textos dão aos diferentes momentos da vida de Jesus está muito para além do alcance temporal desses mesmos mistérios. Por vezes, sentimos mesmo que os acontecimentos narrados esgotaram já a sua significação de referência, uma vez que o contexto existencial da comunidade já tinha mudado e que os ambientes agora já nada diziam àqueles que abraçavam a fé. Da narrativa do particular, do trajeto histórico de Jesus ficam-nos apenas os ecos de um acontecimento também ele histórico e temporal cuja significação porém não se esgota, antes apenas se compreende quando é referenciada a uma realidade totalmente outra.