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O ACONTECIMENTO JESUS CRISTO (3/6) 

LOURENÇO, João, O Acontecimento Jesus Cristo
in «Communio», Ano XIX, 2002, n.º 2, 107-121

II. A vida de Jesus e os sentidos da Escritura

Já antes aludimos à importância que a Escritura, entendida no seu todo como Antigo Testamento e Tradição, especialmente os textos proféticos e os Salmos, desempenha no processo de releitura da vida de Jesus por parte da comunidade dos Seus discípulos. A primeira questão que se coloca é precisamente a de saber ou compreender o porquê destes textos e não de outros. Creio que, acima de tudo, há aqui duas ordens de razões que se complementam. Por um lado, a necessidade que se foi acentuando de uma progressiva e clara separação, por vezes mesmo de confronto em relação ao judaísmo (Jo 9,22; 12,42; 16,20), o que justifica só por si o pouco uso que é dado aos textos da Torah (do Pentateuco). Por outro lado, a formação de uma identidade específica acerca da vida do Mestre que se foi consolidando na liturgia, na partilha fraterna e na oração, através da leitura e da meditação dos textos do Saltério.

No entanto, para além destas referências de tipo global em relação ao Antigo Testamento, o que mais importa é constatar a forma convicta como a comunidade das primeiras gerações cristãs se empenhou na redescoberta do sentido da Escritura para a aplicar a Jesus e, ao mesmo tempo, foi capaz de fazer uma leitura da vida de Jesus à luz dessa mesma Escritura. Tem sido posto em evidência o esforço da comunidade na redescoberta do sentido da vida do Mestre a partir dos textos veterotestamentários, esquecendo-nos, muitas vezes, que este processo tem também ele um duplo significado. Também as Escrituras do Antigo Testamento ganham um novo sentido e são agora lidas e relidas à luz de um novo acontecimento: o evento Jesus Cristo.

Desta forma, podemos falar do duplo sentido da Escritura. A evolução do sentido literal para o sentido pleno não foi feita sem regresso, uma vez que é à luz do mistério pascal de Jesus e, por conseguinte, da Sua vida enquanto tal, que retrospetivamente se perspetiva agora também o sentido pleno que a Escritura assume. Podemos dizer que, se o Antigo Testamento é o instrumento base que serve de código de leitura da vida de Jesus, o inverso também é verdadeiro. Podemos dizer que, para a comunidade apostólica, o Antigo Testamento carece de sentido em si; esse sentido é-lhe dado, como que a posteriori, pela vida de Jesus.