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MARIA, UMA MULHER JUDIA

MANNS, Fréderic, Maria, uma mulher judia: feliz és tu que acreditaste!
Lisboa: Universidade Católica Editora, 2006, 15-26

«Para que um livro sobre a Virgem Santa me agrade e me faça bem, é necessário que eu veja a sua vida real, não a sua vida imaginada. E eu estou certa que a sua vida real devia ser muito simples… Ela vivia da fé como nós».
Santa Teresa de Lisieux, Últimas Conversas


A BELEZA DUMA MÃE É INDESCRITÍVEL. Ela nasce do amor como a luz surge do sol. Para celebrar a beleza de Maria, não é necessário recorrer ao romantismo nem à piedade sentimental. Basta situar Maria no verdadeiro contexto, o da Galileia do 1º século. Nada de fantástico ou esmagador na vida desta jovem da Nazaré. […]

Um retrato realista de Maria, mulher judia, não pode alhear-se do estudo do seu contexto religioso, político e social. Longe de ser uma figura mítica ou distante, Maria, torna-se então próxima da condição humana.

Todas as manhãs, de igual modo que todas as raparigas de Israel, Maria começava o seu dia por abençoar Deus recitando-lhe ao levantar esta berekah: «Bendito és tu Senhor que me criaste segundo a tua vontade». […]

Como toda a mulher judia, Maria tinha o direito e portanto todo o tempo disponível durante o dia para se dirigir à sinagoga para escutar a palavra de Deus. […]

Jesus aceita a missão e Maria é a educadora dos seus primeiros passos. Como a mãe de Salomão tinha coroado o seu filho no dia dos seus esponsais (Ct 3, 11), Maria mantém-se ao lado de Jesus que inaugura os sinais de presença do Reino de Deus. […]

No meio de um mundo pagão, Maria professa com todo Israel a fé no Deus único «que fez o céu e a terra». Ela adorava-o não só como força criadora, mas também como o Misericordioso intervindo pessoalmente no curso da história para escolher um povo. Ela sabia que o seu povo, como o Servo do profeta Isaías, tinha recebido a missão de levar o nome de Deus aos confins da terra.

Para conservar a memória dos acontecimentos da salvação, Maria vinha em peregrinação ao templo de Jerusalém, três vezes por ano. […]

O verdadeiro lugar da oração judia permanecia no lar doméstico. Todos os sábados, José e Jesus, vestidos com os seus mantos de oração, o tallit, dirigiam-se à sinagoga, enquanto Maria preparava a mesa da festa. De facto, a mulher judia tinha o privilégio, no início da liturgia de sábado, sexta-feira à tarde, de acender a vela recitando uma bênção.

Enquanto José e Jesus faziam em casa a sua profissão de fé recitando o Shema Israel e a oração do Shemoné Esré, Maria escutava em silêncio. Ninguém a impedia de juntar-se à oração deles e de a memorizar. Bastava que ela dissesse «Ámen» no fim da oração para que esta oração fosse considerada como sua. Jesus, que tinha aprendido de cor o qaddish, a oração que se declamava nos funerais dum membro da aldeia, devia repetir a fórmula diante de Maria, como recitava as suas lições antes de ir para a escola de Séforis. Jesus trazia os filactérios, os tephilim, e não barbeava os pelos das suas têmporas, como o exige a Bíblia. Maria conhecia o significado destes preconceitos. A sua sensibilidade e a sua inteligência abriam-se, no lar de Nazaré, à visão do mundo, toda voltada para a vinda do Reino de Deus. […]

Embora o quadro de vida em que se desenrolava a vida da Sagrada Família fosse o de uma modesta aldeola rural – de Nazaré, pode sair alguma coisa de bom? –, o horizonte de Maria não tardou em ultrapassar Nazaré, depois a Galileia. Séforis, a capital da província estava apenas a alguns quilómetros da aldeia da sua infância. Aí, provavelmente José trabalhava na reconstrução da cidade. Aí, Maria devia dirigir-se de vez em quando ao mercado para vender os produtos do seu jardim. Aí, Jesus entrou em contacto com uma cidade romana, com o seu teatro, as suas vilas e os seus bancos. […]

A vida quotidiana de Maria enraizada na Galileia exalava simplicidade. A sua fé alimentava-se da memória desta terra da Encarnação. Ao lado de Jerusalém, a Galileia fazia fraca figura. Ela aparecia como uma terra marginal, duvidosa e aberta às influências pagãs. Ela era uma verdadeira encruzilhada de nações. Ora foi lá, debaixo dum céu livre e puro, que se levantou uma grande luz.

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