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MARIA E LUIGI BELTRAME QUATTROCCHI: PRIMEIRO CASAL BEATIFICADO
Dirce Serafim

Introdução

No vigésimo aniversário da Exortação Apostólica Familiaris Consortio, João Paulo II apresenta a toda a Igreja um casal como modelo de santidade para os leigos contemporâneos. No dia 21 de outubro de 2001, numa celebração em que participavam três filhos do casal—dois sacerdotes e uma filha leiga consagrada à vida familiar—o Papa declarava: “Escutando a Palavra de Deus e o testemunho dos Santos, os beatos esposos viveram uma vida ordinária de uma forma extraordinária. Entre as alegrias e as preocupações de uma família normal, souberam concretizar uma existência extraordinariamente rica de espiritualidade.”

O Prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, Cardeal José Saraiva Martins, considerou que os esposos “fizeram de sua família uma verdadeira igreja doméstica aberta à vida, à oração, ao testemunho do Evangelho, ao apostolado social e à solidariedade para com os pobres, à amizade (…) e seu extraordinário testemunho não podia permanecer escondido.” Confirmando a importância da sua beatificação, o Papa sublinhou que “uma autêntica família, fundada no matrimónio, é em si mesma uma boa notícia para o mundo.”

História de Vida

Quem foram os cônjuges Beltrame Quattrocchi?

Luigi nasce a 12 de janeiro de 1880 em Catânia. Aos 9 anos vai viver com os tios maternos que não tinham filhos e se radicam em Roma, onde Luigi estuda Direito e fará uma brilhante carreira como advogado.

Maria Corsini nasce em Florença a 24 de junho de 1884 e, por motivos laborais, os pais acabam por ir viver para Roma.
É em Roma que Luigi e Maria se conhecem. Educados cristãmente, casam no dia 25 de novembro de 1905, na Basílica de Santa Maria Maior, onde regularmente participavam na celebração da Eucaristia.

“O matrimónio, para Luigi e Maria, torna-se o lugar de aprendizagem de um caminho comum de crescimento espiritual, canalizando para a educação dos filhos os dons humanos e espirituais de uma vida de fé vivida de forma autêntica.”

Em 1906 nasce o primeiro filho, Filippo. Seguir-se-ão Stefania (1908) e Cesare (1909). Com o casal vivem também os pais e os avós de Maria. Em 1913, a família atravessa um período doloroso: o anúncio feliz de uma quarta maternidade é perturbado pelo prognóstico de uma gravidez de risco. Aconselhados a fazer uma interrupção de gravidez, os esposos, de comum acordo, optam por prosseguir a gravidez, entregando o futuro à Providência divina. O drama virá a ter um final feliz no dia 6 de abril: nasce Enrichetta, uma criança saudável, e a mãe sobrevive. Será a única a permanecer junto dos pais, já que os dois irmãos optaram pelo sacerdócio e a irmã Stefania escolheu ingressar num mosteiro beneditino adotando o nome de Irmã Cecilia. Na data da beatificação dos pais, Cecília já havia falecido, Filippo era Monsenhor Tarcísio na diocese de Roma e Cesare o monge trapista P. Paolino.

Em 1917, o casal adere à ordem terceira franciscana, dedicando-se seriamente a uma vida de serviço e apostolado. Luigi coopera com a Associação de Escuteiros Católicos, com o Movimento para um Mundo Melhor, com a Agência ORBIS. Maria é catequista, conselheira nacional da Ação Católica, voluntária da Cruz Vermelha, organiza Cursos de Preparação para o Matrimónio, publica vários artigos em revistas católicas, desenvolvendo o que ela designa por “apostolado da pena”. Apoiam economicamente alguns jovens que pretendem seguir a vida religiosa. Frequentemente, a sua casa é um porto de abrigo para casais em crise, maternidades rejeitadas, vocações extraviadas.

No entanto, a família é central na vida de ambos. Mesmo os filhos consagrados continuam a beneficiar da presença do pai que semanalmente enfrenta viagens cansativas para poder estar junto dos filhos, aconselhando, acompanhando. A mãe desenvolve também uma verdadeira direção espiritual que pode ser comprovada pelas numerosas cartas trocadas com os filhos. Os pais e avós de Maria receberam os cuidados da família até aos momentos finais de suas vidas.

Em novembro de 1951, por ocasião de uma visita de Madre Cecília a Roma, o pai promove uma reunião de toda a família, o que viria a acontecer no dia 5 desse mês. Seria a despedida para Luigi. No dia 9 de novembro, não sobrevive a um enfarte.

Maria sobreviverá ainda catorze anos. A fé e a oração ajudá-la-ão a enfrentar a enorme perda. Retoma a escrita. Um dos seus escritos, com o título “O enredo e a trama: Radiografia de um matrimónio”, será precisamente uma reevocação de meio século de vida em comum do casal, “continuamente entrelaçada com Deus, até à eternidade.” No dia 25 de agosto de 1965, após a oração do Angelus, Maria, apoiada no braço da filha Enrichetta, regressa a casa onde morre suavemente, cumprindo a última etapa de um itinerário verdadeiramente inspirador para todas as mulheres que abraçam o caminho do matrimónio cristão. A vida do casal Beltrame Quattrocchi foi verdadeiro sacramento do amor conjugal, selado por um compromisso fiel quotidianamente provado, “espelho da casa de Nazaré que é escola do Evangelho” , aberto à colaboração no mistério da vida, modelo para os filhos, para a família e para todos os que fizeram parte do seu percurso vivido como uma resposta ao chamamento que o Senhor faz a todos: Sede Santos!

Espiritualidade

Para além de testemunhos vários, os numerosos escritos de Maria e de Luigi atestam que eles foram autênticos precursores do pensamento do Vaticano II sobre a família: “Os esposos cristãos são cooperadores da graça e testemunhas da fé um para o outro, para os filhos e demais familiares. Eles são os primeiros que anunciam aos filhos a fé e os educam. Formam-nos, pela palavra e pelo exemplo, para a vida cristã e apostólica. Ajudam-nos com prudência a escolher a sua vocação e fomentam com todo o cuidado a vocação de consagração porventura neles descoberta.”

Num artigo denominado “Família e Vocações” , Maria iniciava assim a sua reflexão sobre as vocações dos filhos: “O Espírito de Deus sopra onde quer”, mas “a educação religiosa e espiritual deve sempre formar a (sua) alma, habituá-los a conhecer Deus, o seu amor, a sua vontade, a vida e a palavra de Jesus, Verbo do Pai.” E acrescentava: “Nada podemos nem devemos fazer, nem pró nem contra (…), mas será útil procurar ter um jardim cultivado e protegido, onde Jesus possa comprazer-se e colher as suas flores (…) tudo isso através de uma alegre piedade, discreta, inteligente, que não entristeça, não estreite a alma e o coração, antes tudo dilate e oriente para a verdadeira luz.”

Consciente da gratuidade da chamada, recomenda, no entanto: “Mantenhamo-los puros: isto é necessário; façamo-los generosos, desejosos de Deus e das almas. Jesus pousará mais facilmente sobre eles o seu olhar divino e dir-lhes-á o seu Segue-me!”

Alguns extratos de cartas aos filhos, durante a sua formação, manifestam o cuidado maternal e paternal. Ao dizer “deixou-me uma angústia no coração o não ver em ti aquela santa alegria” aconselhando em seguida a “conhecer e estudar a causa do mal-estar e o meio de tratá-lo” ou ao recomendar “deves pôr os teus superiores ao corrente da tua debilidade física”, “obedece de boa vontade”, “ama a tua regra”, “ama o estudo como meio de conhecer Deus”, “não vos preocupeis com os defeitos que vedes à vossa volta” falam sem dúvida os pais, preocupados em zelar pela saúde dos filhos, pela sua boa conduta, de acordo com uma educação segundo os mandamentos cristãos.

Porém, há outros escritos verdadeiramente reveladores de uma espiritualidade profunda, enraizada na Palavra e na Tradição, atravessada pela beleza e simplicidade franciscana, mas meditada e personalizada: “No século XX, a humanidade progrediu no conhecimento de Deus (…) e não é o conhecimento das leis naturais que é prejudicial, mas a má aplicação que se faz da ciência, prescindindo de Deus (…). A natureza, a ciência, a razão, o intelecto, a fé, tudo deve contribuir para a Sua glória e tudo deve difundir luz e amor; pois Ele é alfa e ómega, o Princípio e o Fim, o nosso verdadeiro Absoluto.” “No equilíbrio da graça e da natureza, nós reaproximamo-nos o mais possível à beleza originária do primeiro homem, pois Deus, ao criá-lo, insuflou-lhe o seu espírito fazendo-o à sua imagem e semelhança.” Ao aproximar-se a ordenação dos filhos, Maria reflete: “Dia após dia aproximais-vos do cume (…) do qual Jesus, o Sacerdote por excelência, reafirmou muitas vezes na sua vida o que se dizia sobre o misterioso Melquisedeque: sem pai, sem mãe, sem genealogia. Como são admiráveis estes contrastes e como a alma ao aprofundá-los se sente mais perto de Deus, e olhando-se àquela luz, rejubila na sua pequenez e na grandeza do seu Senhor.” E acrescentava:

“Quando fizeram a profissão solene, eu era, diria, quase o Sacerdote que tornava válido o vosso ato; era eu, que os oferecia ao Senhor, fazendo sobre o altar o sacrifício. Era, em suma, Abraão imolando o seu Isaac… Mas na ordenação, eu compreendi que não era nada. Que Deus era o dono e vos havia escolhido. “Não fostes vós que me elegestes, fui eu que vos escolhi” (…) E nesse momento senti que era uma graça de predileção que me perturba ainda mais.“

Estas preciosas reflexões, onde brilha uma consciência criatural, uma confiança em Deus, um desejo de o louvar, de o anunciar com a própria vida, não podem deixar de nos estimular a viver o quotidiano como missão atribuída por Cristo para ajudar a construir o caminho que desemboca na Vida Verdadeira, tornando assim realidade a exortação aos fiéis leigos a “testemunhar e lembrar, a seu modo (…) o sentido que têm as coisas terrenas e temporais no desígnio salvífico de Deus”.


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