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MARIA - A MÃE 

Coimbra: Edições Tenacitas, novembro de 2005, 271-281

Maria, por seu lado, guardava todas estas lembranças e meditava-as no seu coração.
Lucas 2, 19


[…] “Estes são a minha mãe e os meus irmãos”, “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que escutam a palavra de Deus e a põem em prática” , disse o meu filho.

A mim também me competia cumprir a palavra e atravessar a entrada estreita.

Eu via o meu filho a avançar como uma ovelha por entre lobos, estava ciente das armadilhas que os escribas e os fariseus lhe armavam e ali estive, destroçada e serena, no dia em que a sua hora se cumpriu.

Mas tudo isto faz parte de outra história, da história que é pertença de todos, a da vida pública do meu filho Jesus. […]

Das pessoas que tinham afeição pelo meu filho e que vieram ver-me naqueles três anos, recordo uma em particular.

O silêncio e a solidão da minha casa foram certa tarde perturbados pelo trote de alguns cavalos. Fui à porta ver o que estava a passar-se. Deparei com um soldado romano que vinha acompanhado de alguns criados. O soldado apeou-se do cavalo branco e a sua lustrosa armadura, inusitada no ambiente rural da nossa humilde terra, refulgiu no meio do receio e da surpresa. O soldado baixou a cabeça e perguntou-me:

- Tu é que és a Maria, a mãe do Jesus de Nazaré?

- Sim, sou eu.

- Eu chamo-me Marco; sou o centurião de Cafarnanum e sou amigo dos judeus, pois mandei construir lá uma sinagoga. Vim ver-te para te contar uma pequena história. Um dia um criado por quem tenho grande estima ficou muito doente. Como já tinha ouvido falar do Jesus, pedi a alguns notáveis da cidade que fossem falar ao mestre em meu benefício. Quando vi o Jesus a aproximar-se de minha casa mandei alguns criados dizerem-lhe que não era preciso incomodar-se, que eu não me sentia digno de o receber em minha casa, que nem sequer me sentia digno de me aproximar dele, e que da mesma maneira que eu tenho pessoas sob as minhas ordens, bastava que ele o ordenasse, que o meu criado ficaria curado.

O centurião tirou o elmo. Era um homem alto, de cabelo curto, como era hábito entre os romanos, e grisalho, olhos de criança grande e queixada poderosa. Cravou em mim os olhos claros e ansiosos e disse:

- O Jesus disse que curou o meu criado só com a minha fé. Nunca me atrevi a ir ter com ele para que me esclarecesse. Foi por isso que vim ver-te, que és mãe dele. Diz-me: Que força misteriosa curou o meu criado? É que o teu filho está agora a ser muito criticado pelos fariseus, que estão a comprometê-lo perante Pilatos. Tu, que o tiveste dentro de ti, deves saber o que é que ele queria dizer.

Então, com infinita doçura, olhando-o nos olhos, contei-lhe o segredo, o meu segredo, o único segredo, aquele que cresceu no silêncio e me sustentou a vida inteira, o segredo que fui aprendendo com o Jesus desde a manhã ditosa em que o anjo me visitou.

- Meu filho – disse eu ao centurião –, não foi o Jesus que curou o teu criado, a tua fé é que o salvou. Foi por isso que ele disse que nunca encontrou semelhante fé em todo o Israel. Por isso ele nunca disse “salvei-te”, mas “a tua fé salvou-te”. Esta é a fé que move montanhas e que devolve a luz aos cegos e a esperança aos pobres. Eu sei isto desde criança e por isso me abri para a luz que tinha dentro de mim e aceitei como uma serva a sua vontade, a palavra infinita dita desde sempre. Não há força mais poderosa nem maior salvação do que as da fé.

Então o centurião ajoelhou-se e beijou o meu manto. Não voltei a vê-lo durante muito tempo. Só nos reencontrámos quando finalmente chegou o dia em que a hora do meu filho se cumpriu e o terrível meio-dia se converteu em noite negra. Quando o meu filho agonizava na cruz e gritou: “Tenho sede!”, voltei-me e vi uma cara conhecida, a de um romano que molhou uma esponja em vinagre e a levou na ponta de uma lança aos lábios secos e gretados do Jesus, para o aliviar, ainda que ninguém pudesse então aliviar a sede radical do Jesus – pois esse romano era o centurião de Cafarnaum –. No mesmo instante o meu filho exclamou que tudo estava concluído, deixou cair a cabeça e entregou a alma.

Foi então, no meio de um mar de lágrimas, com a espada cravada no meu seio, quando a luz do Jesus explodiu e se pôs ao alcance de todos, que o gerei realmente. A partir daquele momento, para além de uma mulher e da mãe de Jesus, passei a ser a mãe, sem mais, a vossa mãe, a mãe de todos.

Muitas coisas aconteceram depois dignas de ser relatadas, mas aqui só acrescentarei que voltei para Nazaré, para a minha pequena casa, e percorri todos os seus caminhos, sentei-me em todas as pedras conhecidas e acariciei a velha mobília. Voltei ao poço e à malhada; voltei a abrir a arca, a cozer pão e a fiar; voltei à bem-cheirosa carpintaria do José, voltei aos campos de sementeira e à ceifa; voltei aos cenários das nossas paisagens e às horas das minhas alegrias e das minhas lágrimas. Porque o meu filho, é certo, iluminou-nos e salvou-nos a todos com a sua vida e as suas palavras. Mas para mim o melhor continua e há de continuar a ser o perfume concentrado daquelas vivas doces recordações, as palavras caladas, que guardo com infinita ternura e que todos os dias medito no meu coração.

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