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A FÉ EM MARIA - EXPERIÊNCIA DE DEUS E PLENITUDE HUMANA (3/7)

MESSIAS, Teresa, A fé em Maria: experiência de Deus e plenitude humana,
in «Santíssima Trindade, Adoro-Vos Profundamente. Ciclo de Conferências 2010-2011»
Santuário de Fátima, Fátima, junho de 2012, 45-68
 
2. Uma herança Judaica

Maria nasce e vive judia. Enquanto judia recebe e está imersa na fé de Israel. Ela partilha a experiência de fé, a tradição de fé (os ritos, as escrituras, a compreensão, os rituais, os símbolos, etc.) do povo judaico. Uma fé baseada, por um lado, na sua condição humana partilhada com todos nós de abertura estrutural a Deus e de capacidade recetiva embora singularmente aberta e dócil à ação do Criador, do Deus de Israel e ao seu amor .

Esta fé brota do acolhimento de uma forte experiência de Deus feita pelo povo judeu ao longo de séculos, com altos e baixos, povo a quem Deus se foi revelando por acontecimentos, pessoas, experiências, como Criador, amante e redentor. Maria percebeu na sua vida a existência de um Deus que é amor. Um Deus que elege. Um Deus que escolhe o Povo (e o torna eleito) com um amor de predileção. A sua fé assenta na consciência de ser amada como todo o povo de Israel assenta a sua fé na consciência de ser amado e de ter um Criador com quem vive uma Aliança de amor.

Esta é a experiência que Maria toca — ser predileta, ser predestinada, ser escolhida, ser alguém com quem Deus conta — por¬que assim vivia todo o Povo de Israel. Uma mulher que se sente predileta para fazer Deus fecundo. Um Deus que estabelece com o povo uma relação de amor, uma aliança que o marca, santifica e separa (consagra) para Si. Deus marca o Povo de Israel. O Povo sabe que Deus o marca: com o rito da circuncisão, com as leis que deve cumprir, com a palavra que deve escutar e agir . E um Deus que se distingue sobretudo pela misericórdia. Um Deus que se apresenta, na rica imagética e simbólica veterotestamentária, como Esposo de Sião, o Construtor e Reconstrutor de Israel, aquele que vela e guarda.

Mas sobretudo o Deus de Israel é Aquele que se distingue pela sua misericórdia. Maria conhece um Deus da misericórdia e aqui assenta a sua fé. Um Deus que manifesta compaixão e dor pelas desventuras e sofrimentos do Seu Povo, que se revela grande e poderoso ao ponto de perdoar as suas infidelidades e amar apesar de não ser correspondido.

O Deus de Israel e o Deus de Maria é Aquele que age de tal modo no íntimo de cada crente que promete uma transformação do coração e a dádiva de um coração novo, derramando nele o Seu Espírito, retirando o coração de pedra e para em seu lugar colocar um coração de carne (cf. Ez 36, 26-27). E um Deus que se compromete suscitar um Messias salvador, não impondo-o ao povo mas suscitando-o de entre o povo. Neste contexto o casamento e sobretudo a maternidade eram vividos como uma bênção de Deus e particular sinal de participação na esperança messiânica.

Contudo, a experiência de fé de Israel (e certamente também a de Maria) está marcada também pela dor. Não é uma fé ingénua, feita só de alegrias. É uma fé atravessada pela provação, pelo sofrimento, pelas perseguições e pelo mistério do pecado e da violência, pelas ausências de Deus, pelo imperativo de uma adesão à vontade de Deus sem que seja possível compreender exatamente o que Deus está fazendo ou o caminho por onde conduz os seus eleitos. É uma fé marcada por caminhos incertos, por histórias de guerras, por êxodos, por destruições. E no entanto Israel percebe — e Maria com ele — que a fidelidade de Deus permanece em tudo isso e que a sua vontade salvadora permanece nesta opacidade da fé como uma luz que guia e convoca.

A fé de Israel no Senhor inaugura um novo modo de relação com os outros e com o mundo que coloca o eleito num certo nível de solidão. A fidelidade ao dom de Deus e à sua vontade salvadora é dramática porque tem de perder tantas vezes até o que lhe é mais querido — mesmo aquilo que foi recebido de Deus (cf. Gn 22, 1-18) — para poder receber Deus. A fé implica deixar cada vez mais aquilo que não é Deus para poder receber Deus.