• 230x230 PGS 0930230x230 PGS 1087230x230 PGS 1247
    © Pedro  Grandão
  • 230x230 PGS 1262230x230 PGS 1242230x230 PGS 1254
    © Pedro  Grandão
  • 230x230 FC 0001230x230 FC 0014230x230 FC 0016
    © Filipe Condado
  • 230x230 PGS 1248230x230 PGS 1256230x230 PGS 1250
    © Pedro  Grandão
  • 230x230 PGS 1251230x230 PGS 1253230x230 PGS 1255
    © Pedro  Grandão
  • 230x230 PGS 1244230x230 PGS 1240230x230 PGS 1257
    © Pedro  Grandão
  • 230x230 JAC 0029230x230 JAC 0031230x230 JAC 0027
    © João Amaro Correia
A FÉ EM MARIA - EXPERIÊNCIA DE DEUS E PLENITUDE HUMANA (4/7)

MESSIAS, Teresa, A fé em Maria: experiência de Deus e plenitude humana,
in «Santíssima Trindade, Adoro-Vos Profundamente. Ciclo de Conferências 2010-2011»
Santuário de Fátima, Fátima, junho de 2012, 45-68
 
3. Um momento fundamental da fé de Maria: o anúncio da maternidade

Maria vive a sua fé nesta atitude de abertura interior confiante e orante à presença de Deus em si mesma, no mundo e na credibilidade dada às promessas de Deus que Ela espera até àquele momento paradigmático da sua vida, que todos conhecemos, o momento da Anunciação que Lucas imortaliza no capítulo primeiro do seu evangelho. Mulher do seu tempo, Maria frequenta a Sinagoga onde se encontravam no mesmo espaço homens e mulheres para rezar . Ela escuta e memoriza a Palavra de Deus, guarda-a no coração, cumpre os mandamentos da Lei, guarda o Sábado e vai também em peregrinação ao Templo de Jerusalém três vezes por ano.

Vive num tempo e numa cultura — o Médio Oriente — onde a mulher é considerada inferior ao homem . Apesar disso, Maria aprende a louvar a Deus por a sua vida ser uma expressão da vontade de Deus: "As raparigas judaicas desta época começavam o seu dia por abençoar Deus recitando-lhe ao levantar esta bênção: 'Bendito és tu, Senhor, que me criaste segundo a tua vontade'" . Maria aprende que a sua vida é um louvor à vontade de Deus, é uma existência que deve ser agradecida e, portanto, aberta.

É nesta atitude de fé que a Senhora é surpreendida pelo anúncio da maternidade de Cristo.

A narrativa da anunciação da maternidade divina permite uma contemplação da atitude de fé de Maria. A palavra que lhe é dirigida é um convite à alegria e uma declaração do seu perfil crente: "Alegra-te, Agraciada (ou Cheia de Graça) [Xai=re, kexaritwme/ nh], o Senhor está contigo" (Lc 1, 28)].

O valor expressivo normal de xai=re na frase inicial de um encontro é o de uma saudação usual, o que se for traduzido assim, não mostra o significado original deste imperativo . Olhando ao contexto do uso do verbo em Lucas, onde não se utiliza como saudação mas sempre como a ação de alegrar-se, deve ser entendido enquanto exortação à alegria. No convite à alegria, Maria aparece agora como a personificação da "Filha de Sião" , sinal de que as promessas do Senhor a Israel estão a cumprir-se nela. É isso que o anjo quer dizer: "alegra-te porque tu estás cheia de alegria; porque a alegria que tens é a própria vida de Deus". Maria é uma mulher cheia da alegria que é a própria vida de Deus, a que é chamada a alegrar-se, a viver essa alegria profunda no mesmo mistério em que a sua humanidade faz uma experiência profunda de Deus. Para a correta determinação do sentido do imperativo "alegra-te" não podemos separá-lo dos outros componentes da frase em que está inserido.

"Agraciada" ou "Cheia de Graça" [Kexaritwme/nh] vem precisar o conteúdo da primeira palavra. A sua análise torna-se imprescindível para determinar o seu sentido e significado no texto. A tradição bizantina, no Oriente, e a tradição medieval, no Ocidente, viram em kexaritwme/nh a indicação da perfeita santidade de Maria . Trata-se de um particípio perfeito passivo de um verbo "factitivo" ou causativo: xarito/w. Este verbo ocorre rarissimamente . O seu particípio passivo, aqui usado como título dado a Maria, só é retomado uma única vez no NT, em Ef 1, 6 . Quer isto dizer que este particípio, usado por Lucas para traçar o perfil singular da graça recebida por Maria antes do nascimento de Jesus e em ordem à Sua missão, só volta a aparecer no NT usado por S. Paulo para referir o derramamento da graça de Jesus sobre todos os cristãos na adesão ao Seu mistério pascal.

Há duas dimensões ou sentidos presentes no verbo usado para expressar a ação divina que afeta a condição de Maria e leva o escritor a designá-la como "Agraciada ou Cheia e Graça": 1) a ação benévola de Deus; 2) o estado gracioso do homem criado mediante tal ação de Deus. O título dado a Maria expressa então a transformação interior da sua humanidade operada pela graça de Deus. E, como o verbo usado é passivo, pode-se observar na expressão "cheia de graça" a constatação ou revelação de uma graça já realizada por Deus no seu íntimo bem antes do momento da anunciação . Deus agracia-a porque está agindo nela e ela está agraciada porque absolutamente transformada pela graça de Deus. O anjo declara, no fundo, que a sua vida já está transformada desde as origens.

Este pormenor terá a sua importância na compreensão da relação entre ação de Deus em Maria e a imaculada conceção da Senhora. Maria traz em si, é ela mesma, a presença humana totalmente cheia de e transparente à ação de Deus, alguém em quem Deus já agiu e age, mesmo antes do anúncio e do convite a dar o Seu consentimento para a Encarnação do Verbo.

A declaração "o Senhor está contigo" é ao mesmo tempo uma convocação para a ação. "Na Bíblia, esta fórmula é retomada nos relatos da vocação: o Senhor está com alguém para agir. A expressão significa: o Senhor convoca-te para o seu serviço, para realizar o que ele quer fazer contigo" . Nesta fórmula Deus está com alguém para fazer dessa pessoa um mediador, uma fonte de bênção e de graça. Portanto o que o Anjo quer dizer é: "Maria alegra-te porque tu, transformada por Deus desde sempre, tens diante de ti a possibilidade de confiar uma missão que Deus te confia".

É interessante constatar que Ela mesma parece ignorar a sua condição. Fico sempre surpreendida com a perturbação de Maria. A julgar pelo modo como o texto está construído fica a impressão de que Maria não acredita que essa seja a sua condição. No entanto, é. Maria é a Agraciada.

Contudo, o centro de todo o mistério reside num duplo elemento: a afirmação da condição de Virgem (feita por Maria) e a confirmação por parte do anjo de que é justamente neste estado, apesar de toda a impossibilidade humana, que o Espírito Santo agirá nela para que ela possa gerar Jesus, o Salvador. A resposta de fé de Maria, esclarece o texto, será uma ação conjunta de Deus n'Ela e dela em Deus, uma sinergia ou comunhão de desejos e liberdades. No centro da fé de Maria está uma experiência de adesão obediente mas inteiramente livre à da comunhão com Deus, em níveis não conhecidos ou limitados pela sensibilidade. A ação de consentimento e oferecimento da sua própria pessoa torna Maria o lugar onde Deus habita a humanidade gerando o Corpo de Cristo. A experiência de fé de Maria está assim marcada pela simultaneidade da presença ativa do Espírito Santo nela e pelo seu abandono ao desconhecido.

O centro da passagem de Lucas está nesta possibilidade que Deus dá a Maria de, sem coação, sem obrigação, optar livremente por Deus. Optar por entregar, por abrir — agora consciente e determinadamente — a sua humanidade a Deus. Esta é a grande experiência de fé de Maria, simultaneamente uma experiência es¬piritual muito profunda e uma comunhão de liberdades entre a humanidade e Deus.

Na experiência de maternidade na fé que torna Maria protagonista, juntamente com Cristo, da história cristã, há uma adesão obediente mas livre. Há a possibilidade de uma sensibilidade interior que é humana, embora totalmente tocada por Deus. Mas é uma sensibilidade que não diminui a colaboração humana . Este é o momento em que Maria faz a experiência modelar da Igreja. A experiência modelar de que a nossa humanidade é também, doravante, a humanidade do Cristo. Não há separação: é nossa e é de Cristo.

Esta experiência da fé de Maria e do seu poder gerador de Cristo, presente no texto da Anunciação, não se limita a ser válida e modelar apenas para as mulheres. A simultaneidade da virgindade e do consentimento livre é o sinal de que o amor de Deus tem tal poder e profundidade de ação na interioridade humana que capacita todo o crente que o aceita e lhe responde em liberdade e pode gerar, sem o concurso de outra ação criatural, o corpo de Cristo. Nesse sentido, a fé de Maria na anunciação prefigura a fecundidade que toda Igreja é chamada a viver no acolhimento da ação de Deus em si na adesão à Sua vontade transformadora. Esta virgindade mariana tem profundas implicações cristológicas.

A primeira das repercussões cristológicas da maternidade de Maria, reconhecida pela Igreja, é a da sua maternidade divina. A profundidade da ação do Espírito Santo em Maria e da comunhão da Senhora com Deus realizada no mistério da maternidade está na base da definição do dogma da Maternidade Divina pelo Concílio de Éfeso em 431. Maria é Aquela que dá à luz Deus (Theotókos). Ela não dá à luz apenas o homem Jesus, a humanidade de Jesus mas, porque Jesus é Deus e homem, é Deus quem é dado à luz do mundo por Maria. Esta afirmação de fé não tem o seu centro na pessoa de Maria mas em Cristo. A experiência de fé de Maria, profundamente humana, materna e intensamente espiritual, está orientada e centrada em Jesus, na Sua missão salvífica, naquela fé que Ele, enquanto filho, também aprendeu e viveu e da qual é "autor e consumador" (Heb 12, 2). A fé de Maria não tem sentido nem pode ser compreendida na sua profundidade se for desvinculada da fé de Jesus e da fé da Igreja.

A Anunciação é um momento de profunda experiência de Deus. Mas é mais. É também uma profunda experiência de realização humana. Se houve momentos na vida de Maria nos quais penso que a Senhora terá experimentado a plenitude de realização humana este, a experiência da maternidade, foi certamente um deles: sentir que o dom de Deus faz em si maravilhas. Ela di-lo-á mais tarde quando visita Isabel (cf. Lc 1, 49).