A FÉ EM MARIA- EXPERIÊNCIA DE DEUS E PLENITUDE HUMANA (6/7)

MESSIAS, Teresa, A fé em Maria: experiência de Deus e plenitude humana,
in «Santíssima Trindade, Adoro-Vos Profundamente. Ciclo de Conferências 2010-2011»
Santuário de Fátima, Fátima, junho de 2012, 45-68
 
5. Maria no Mistério da Cruz

S. João oferece-nos em Jo 19, 25-27 um quadro teológico que permite abrir uma janela contemplativa para a experiência espiritual de Maria no Calvário e para a nova experiência de maternidade que aí lhe é declarada. No quadro geral de desolação, de desconcerto da paixão, estes versículos de João deixam transparecer uma consolação e uma obra criadora do amor do Pai a decorrer na profundidade maior da interioridade de cada um dos três: Jesus, Maria e João.

Existem várias possibilidades de leitura exegética deste pequeno mas denso excerto. Uma primeira possibilidade resiste em considerá-lo o testamento de Jesus como fizeram vários Padres da Igreja (S. João Crisóstomo, Santo Agostinho, Cirilo de Alexandria). Desde esta posição este momento seria apenas o testemunho de um filho amoroso que, na hora de morrer, entrega a mãe ao cuidado de outro em quem confia.

Uma segunda possibilidade consiste em ler o excerto como um esquema de revelação . Este esquema é construído a partir de três elementos ou fases: "a) um enviado de Deus vê um personagem; b) dirige-se a ele dizendo "Eis" {ide); c) o profeta termina com afirmações que revelam um aspeto da pessoa que ele vem ver".

Se aplicarmos este segundo esquema de leitura, a Cruz é o lugar ou acontecimento da revelação suprema. Maria torna-se a "mulher" universal, já não é apenas a mãe de Jesus mas aquela que participa na obra geradora da nova criação, obra que Deus realiza em Cristo. Afirma Frédéric Manns:

"Maria é a mãe dos filhos de Deus dispersos: estes últimos são reunidos por Jesus no Tempo da nova Aliança. A presença da mãe de Jesus sob a cruz não é ocasional. A cena da cruz leva ao seu fim o código genético. Quando o discípulo amado é apresentado a Maria como seu filho, ela recebe uma compensação não só pelo Filho que volta para o Pai mas também pelos irmãos que não acreditaram. Ela faz parte de uma comunidade de crentes. A exaltação de Jesus na cruz significa a criação da família de Deus.

A Cruz torna-se assim a revelação suprema: é o Filho que criou a mãe. Jesus, revelador do Pai, propõe ao discípulo entrar na Aliança. Maria é a imagem da Igreja-Mãe que acolhe os seus filhos e os faz entrar na nova aliança. [...] Aceitar Maria é aceitar a vontade de Jesus. [...] A cena da despedida de Jesus a sua mãe constitui o apogeu das obras de Jesus pelos seus e manifestação suprema do seu amor salvífico. A obra por excelência é a Cruz e a ressurreição de Jesus."

É Jesus quem revela a Maria uma maternidade que Ela desconhece. De algum modo a nova maternidade profunda é a operada por Cristo na Sua entrega ao Pai da qual tanto Maria como o discípulo participam e que os coloca numa nova relação: a relação no Cristo Pascal. É ali que João recebe Maria, numa experiência de revelação de que a sua experiência com Cristo o abre a ele, discípulo, a uma nova experiência de comunidade. Abre-o à experiência da maternidade da Igreja. Este momento da cruz torna-se, assim, uma revelação superior, uma experiência de fé mais profunda por parte de Maria. A Senhora descobre neste momento que é o Filho que a cria como Mãe. Não é ela que dá o dom da sua Maternidade a Cristo, é Cristo que lhe dá uma maternidade. Os papéis invertem-se. Maria descobre então que é neste desamparo, na treva da cruz que se esconde a mais profunda das luzes, a luz pascal. Jesus revela a Maria uma dimensão de si mesma que lhe é desconhecida e isto, apesar do trágico do momento, é o início da luz da Páscoa.

A terceira possibilidade de interpretação do texto de Jo 19, 25-27 consiste em lê-lo à luz das fórmulas de aliança. As fórmulas de reciprocidade "eis o teu filho"/"eis a tua mãe" são assim consideradas uma mútua adoção que brota da nova filiação realizada em Cristo, na qual se cumpre a plenitude da nova aliança realizada pela Cruz, onde se gera uma nova humanidade e uma nova maternidade. Neste caso o texto de João pode ser entendido como uma celebração de aliança. Neste caso Maria e João são unidos numa aliança em Cristo, numa espécie de matrimónio, matrimónio no amor, isto é, uma união de amor, é uma adoção mútua das duas pessoas: um adota (aceita) o outro. E adotam-se um ao outro em Cristo, por vontade de Cristo. É esta aliança com Cristo que funda uma nova relação na Igreja, uma nova possibilidade de relação. Neste momento da cruz a fé de Maria é também a fé da Igreja. Maria aparece como o tipo ou imagem da Igreja e João como o tipo ou modelo de todo o discípulo na sua mútua relação com o Senhor e com a comunidade . A fecundidade espiritual que a Ressurreição traz a pleno cumprimento tem aqui, no doloroso acontecimento da Cruz e na provação da fé de Maria e de João, a sua génese e a sua revelação.

Também neste momento a fé de Maria continua a ser uma profunda experiência espiritual e uma profunda experiência (certamente dramática) de realização humana. Maria descobre que nem a morte pode limitar o poder de Deus para realizar a pessoa humana. Maria conhece neste mistério que aquilo que era a fecundidade biológica maternal da Anunciação tem uma amplitude infinita. Torna-se uma maternidade escatológica e universal.