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A FÉ EM MARIA - EXPERIÊNCIA DE DEUS E PLENITUDE HUMANA (5/7)

MESSIAS, Teresa, A fé em Maria: experiência de Deus e plenitude humana,
in «Santíssima Trindade, Adoro-Vos Profundamente. Ciclo de Conferências 2010-2011»
Santuário de Fátima, Fátima, junho de 2012, 45-68

4. A maturação da fé em Maria: caminho de profundas alegrias e profundas noites

A profundidade da experiência de abertura e acolhimento da ação do Espírito Santo que Maria vive não a subtrai, contudo, ao processo de crescimento espiritual. A fé é sempre um estar a caminho, é sempre um percurso, uma maturação. A fé nunca é um conforto, nunca é uma vivência completa só de alegrias e de luzes. Maria tem de aprender a crescer na fé. E o crescimento na fé é marcado pela experiência da noite, pela incompreensibilidade do mistério, por um processo de esvaziamento, por ausências de Deus, pelo sofrimento causado pelo mal e pela morte de Cristo.

Maria partilha connosco esta particular pedagogia de Deus que leva cada um por um itinerário desconhecido e a um ritmo de transformação que é específico dos Seus desígnios quase sempre de difícil compreensão nos acontecimentos concretos. Nele se aprende o dom de Deus e a não dominar o dom de Deus. Maria partilha connosco a vivência desta pedagogia de Deus, como partilham todos os santos e todos os místicos. Quanto mais perto de Deus maiores as noites escuras, maiores as provas, as ausências.

Maria vive também como nós, no seu caminho de fé, uma gradual abertura e acolhimento da ação de Deus em si. Partilha connosco a aceitação de um itinerário desconhecido e um ritmo de transformação que ela não domina. Maria não domina a ação apostólica do Filho, não domina os acontecimentos da história. Maria nem sequer domina o que acontece nela. Por isso o seu acolhimento e a sua resposta de fé são um caminho de abertura radical ao desconhecido da ação de Deus em si. Como é desconhecida é para cada um de nós a ação de Deus.

Há momentos em que não percebe o que se passa (cf. Lc 2, 50), há momentos em que a vontade de Deus que parecia clara se torna obscura e impenetrável (Jo 19, 25), há surpresas de fé dolorosas (Lc 2, 33; Mc 3, 31-34). E há momentos em que ela, embora mãe, descobre que tem de ser discípula. E embora tenha nascido antes de Cristo e tenha dado o corpo a Cristo, descobre que Ele é que é o Mestre, o Salvador, aquele de quem ela tem de aprender a conhecer Deus.

No processo de seguimento de fé, Maria teve de aprender ainda mais: que o determinante na participação da missão do Filho não é a proximidade biológica, não é a proximidade física nem geográfica mas a sua proximidade na fé, na adesão e cumprimento da vontade do Pai (cf. Lc 11, 27).

Se a profunda experiência de fé de Maria não a poupa em nada às provações da fé e da sua maturação — como não nos poupará e alegremo-nos por isso, porque é sinal que partilhamos o seu mistério e o de Cristo —, tal experiência adquire, contudo, na Senhora uma profundidade tal que se constitui em raiz inabalável de uma capacidade de confiar na ação salvadora de Deus para além de toda a esperança meramente humana.

Maria teve de aprender, e fê-lo com Jesus, a oferecer e a confiar a Deus o mais difícil. Para os que fazem a experiência do amor o mais difícil não é, tantas vezes, o sofrimento pessoal vivido, físico ou espiritual, mas ver aquele a quem mais se ama assumir a experiência do sofrimento, do abandono e da rejeição sem poder intervir: compadecer-se e sofrer com o amado aquilo que não se pode evitar.

Muitas vezes o mais duro do amor não é o sofrimento pessoal, não são as tragédias que nos acontecem, não são os nossos dramas, talvez nem sequer as nossas doenças. Se calhar o mais dramático da nossa vida oferecida a Deus é sentir que aqueles que mais amamos sofrem. Estão doentes. Estão desesperados. Estão tristes. Estão abandonados. Estão na noite, ausentes de Deus e Deus, aparentemente, ausente deles. Quem já alguma vez amou verdadeiramente percebe que talvez esta seja a experiência do maior sofrimento. E quem perceber isto percebe como é que Deus nos olha. Percebe como é que Deus sofre connosco. Porque o que mais faz sofrer a Deus não é o seu próprio ego. Somos nós. Deus sofre porque nós sofremos. Deus sofre porque é um Deus compassivo. Porque é um Deus que vive para nos dar a Sua vida.

Quem alguma vez fez esta experiência de sofrer compassivamente por quem ama está em condições de começar a compreender algo da compaixão de Deus para connosco e do mistério da salvação realizada por Jesus.

Neste sentido, o momento mais denso da experiência de fé de Maria não é, penso, o mistério da anunciação mas o mistério da sua permanência com Cristo na cruz. E neste drama pascal, como tão bem dizem os documentos da Igreja, em particular alguns dos textos de João Paulo II, que Maria atinge a plenitude da sua densidade de vida participando no mistério pascal de Jesus: tanto no drama do sofrimento como na consolação do Ressuscitado . E importante não separar os dois momentos: a fé é experiência de dor e é indescritível experiência de alegria e amor recebido do outro lado da morte, do lado que é a vida íntima de Deus.