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A FÉ EM MARIA - EXPERIÊNCIA DE DEUS E PLENITUDE HUMANA (2/7)

MESSIAS, Teresa, A fé em Maria: experiência de Deus e plenitude humana,
in «Santíssima Trindade, Adoro-Vos Profundamente. Ciclo de Conferências 2010-2011»
Santuário de Fátima, Fátima, junho de 2012, 45-68
 
1. A fé como abertura humana radical ao outro e ao Mistério

Apesar da palavra "fé" (fides, pístis) ser imensamente usada na terminologia da comunidade cristã, da sua comunicação oral e produção escrita, nem sempre é facilmente compreendida. "Fé" remete para uma noção ampla e complexa. O que é, afinal, a fé? Este vocábulo diz respeito a uma realidade que começa por ser humana. Num primeiro nível de significação refere-se a uma dimensão da existência humana, diz respeito a uma abertura e uma estrutura existencial humana, presente em todo o homem e mulher. Faz radicalmente parte da nossa constituição criatural porque somos criados à imagem e à semelhança de Deus e estamos abertos a uma relação com Deus. Num segundo nível, a fé está vinculada à iniciativa e à ação de Deus. Brota como resultado de um ato de amor que Deus nos dirige e é uma resposta livre, consciente a esta ação amorosa.

Gostaria de começar por abordar a experiência de fé em Maria partindo da sua dimensão humana, colocando-a ao nosso nível. Julgo que é neste nível de proximidade que ela deve estar porque é por aqui que ela começou por estar. Maria partilha connosco a sua humanidade e o seu Filho. Para além de tudo o que n'Ela é graça singular (e que a comunidade cristã não ignora nem pode ignorar) há também n'Ela uma graça que a aproxima de nós. Na Igreja não ignoramos a singularidade de Maria. Mas devemos salientar muito mais a proximidade que a torna particularmente capaz de nos iluminar, motivar e abraçar na nossa própria experiência de fé, neste nosso tempo particular da história.

Opto conscientemente por aproximar Maria da nossa experiência pessoal de fé, da experiência de fé que faz todo e qualquer cristão e, ainda mais amplamente, de todo e qualquer homem ou mulher porque entendo que esta aproximação vai ao encontro da Sua missão maternal, à sua missão eclesial de intercessora e segue a própria metodologia do amor: Deus que é amor (cf. 1 Jo 4, 16) faz-Se próximo, não reivindica privilégios, faz-Se servo, toma a nossa forma (cf. Fil 2, 5-8) .

Ao esboçar a importância da figura de Maria e do seu ato de fé gostava de apoiar este quadro ou leitura da Senhora na proximidade e realismo enraizados nos dados bíblicos, necessidade que foi sentida e afirmada por Santa Teresa de Lisieux em agosto de 1897, menos de um mês antes de morrer:

"Para que um sermão sobre a Santíssima Virgem me dê gosto e proveito, é necessário que eu veja a sua vida real, não a sua vida imaginada; e tenho a certeza de que a sua vida real devia ser extremamente simples. Apresentam-na inacessível; deviam mostrá-la imitável, fazer sobressair as suas virtudes, dizer que vivia da fé como nós, apresentar provas disso pelo Evangelho onde lemos "eles não entenderam o que lhes disse". [...] Sabemos muito bem que a Santíssima Virgem é a Rainha do Céu e da terra, mas ela é mais mãe do que rainha, e não se deve dizer, por causa dos seus privilégios, que ela eclipsa a glória dos santos todos [...]. Meu Deus! Que estranho! Uma Mãe que faz desaparecer a glória dos Filhos! Eu, por mim, penso absolutamente o contrário; acredito que ela engrandecerá muito o esplendor dos eleitos.

Está certo falar dos seus privilégios, mas não se deve dizer apenas isso e se, num sermão, somos obrigados do princípio ao fim a exclamar "Ali! Ali!", já chega! Quem sabe se alguma alma não irá sentir até um certo afastamento em relação a uma criatura de tal maneira superior, e não pensará: 'Se é assim, mais vale ir brilhar conforme se puder em qualquer outro cantinho!' O que a Santíssima Virgem tem a mais do que nós, é que [...] estava isenta do pecado original."

A fé de Maria foi simples. A fé começa por ser uma experiência criatural. Mas a fé cristã — logo, a fé de Maria — tem a sua raiz antropológica no dinamismo da interioridade humana ou consciência, na estrutura existencial e ontológica que o ser humano reconhece em si, caraterizada por uma abertura dialógica, intra e intersubjetiva, isto é, por um diálogo que é relação a si próprio e, simultaneamente, a tudo o que é e está fora de si, isto é, aos outros, ao mundo e ao mistério do ser. E um dinamismo básico que é simultaneamente muito profundo e denso, um dinamismo de autotranscendência que todos temos. É afetivo e cognoscitivo, isto é, da ordem do sentir e da ordem do saber/saborear. E um saber sentindo, é um sentir que conhece, é uma inteligência sentida. E o que nos orienta para a busca do sentido último da vida e da nossa existência pessoal .

A fé humana básica — que é fé de Maria e a nossa — é uma capacidade de receção e perceção de nós mesmos, das outras pessoas, do que nos rodeia e do mistério do Ser. Esta capacidade de receção abre-nos a Deus mesmo quando não o sabemos. Deus perpassa pela nossa vida mesmo quando não temos disso consciência.

A fé básica é, simultaneamente, capacidade de dom (de entrega de si mesmo ou dádiva), de oferecimento profundo, de adesão relacional. À medida que uma vida humana é gerada — e é sempre gerada em abertura intersubjetiva, sempre fruto da relação interpessoal — nasce e cresce, cresce igualmente esta capacidade de abertura que permite desenvolver, de modo sentido e sabido, uma confiança básica em nós mesmos (a Psicologia chama-lhe hoje "autoestima" radical ou básica), nos que nos rodeiam, na vida como lugar de acolhimento e realização da nossa identidade profunda e misteriosa. A fé é uma abertura que tem a marca da confiança, da capacidade de confiar. É através desta abertura aos outros e a Deus que cresce uma possibilidade de confiar na bondade, de estarmos sensíveis ao bem, ao amor, a quem nos quer bem. É a bondade que faz os outros credíveis. É a bondade que desenvolve a capacidade de crer. Em quê/quem é que nós cremos? Na bondade, na con¬fiança . Por isso esta credibilidade básica, a confiança de Maria, é acima de tudo a sua primeira experiência de fé. Como também, de alguma maneira, é a nossa primeira experiência de fé.

Desenvolve-se assim a atitude crente, experiência afetiva e sábia de algo/alguém que é valioso, a quem podemos confiar a nossa vida porque não vai contra ela mas antes a ajuda a crescer, algo que é, por isso, credível. A fé ou credibilidade básica dirige-se a nós mesmos, aos outros, ao Mistério da vida que trazemos em nós. Funda-se na abertura a uma profunda, afetiva, sábia bondade, de um amor que sustenta a vida. Quanto maior é a experiência inicial de ser-se amado tal como se é, de ser-se estimado, de ser-se valioso tanto mais aumenta esta fé ou atitude crente fundamental.

Quando lidamos com pessoas reparamos que aquelas que têm na sua infância uma maior experiência de amor são, regra geral, as mais capazes de relação, mais sensíveis à relação, mais capazes de confiar, de ver o bem dos outros, as pessoas mais capazes de ter fé nos outros, de ter fé (confiança) em si. As experiências de fé e de credibilidade passam por este tecido humano de abertura intersubjetiva.

Considerada desde a dimensão antropológica, a capacidade de abertura e confiança fundamental enraíza-se na experiência da bondade, do desejo infinito e transcendente. É de sentido duplo, é dialógica: é receção e dom, é afeto/sentimento/desejo, é saber básico assente na experiência intersubjetiva e não um conhecimento científico demonstrável com os parâmetros das ciências positivas. E uma experiência dinâmica, sempre em movimento de transcendência/imanência, sujeita a evolução, a impasses, a crises. A capacidade fundamental de crer nunca desaparece.

As experiências de fé e de credibilidade não se inventam nem se produzem meramente a partir da vontade humana: acontecem como dom porque aquilo que desde outra pessoa ou desde o Mistério do Ser suscita a resposta de confiança básica é o amor que cuida, realiza, desenvolve, estima e protege é da ordem do dom.

Contudo esta fé requer fidelidade, esforço, empenho e decisão para crescer e amadurecer. Nesta fé humana básica enraíza-se toda a fé religiosa e, concretamente no caso de Maria, a fé no Deus Israel, como acolhimento e resposta à Sua iniciativa. A fé religiosa nasce como resultado de uma epifania de Outro, de Deus, do Sagrado. Resulta da afetação interna da sua identidade, da experiência de ter-se sido "tocado(a)" (por símbolos, palavras, gestos, experiências profundas da consciência, etc.), de haver entrado em comunicação com uma realidade outra que se manifesta e se comunica livremente à interioridade humana no seu núcleo mais profundo. Uma manifestação do Outro que gera credibilidade, confiança, fé, porque é uma experiência que liberta, guarda e protege a vida humana dando-lhe sentido e significado, valor e horizonte, realizando-a e expandindo-a, revelando-lhe seu próprio mistério.

A vontade de Deus acolhida e obedecida desde a fé não destrói a condição humana nem a frustra. Na tradição cristã essa vontade revela-Se como o Outro amante que abre a vida humana a novos níveis de profundidade, fecundidade e sentido, permitindo uma participação gradualmente consciente no mistério radical de amor que é a sua origem e destino. A atitude de fé inerente à vida e inerente ao mistério é uma confiança sem outras certezas senão aquelas que o próprio Mistério de Deus vai dando e revelando de si enquanto dador de Vida. É um processo de comunicação de Deus que ocorre na interioridade humana e na história, nas circunstâncias quotidianas e culturais onde cada um de nós vive e através das quais o Senhor se faz presente, toca e motiva à relação consigo.