• 230x230 PGS 0116230x230 PGS 0183230x230 PGS 0421
    © Pedro Grandão
  • 230x230 FC 0049230x230 FC 0050230x230 FC 0051
    © Filipe Condado
  • 230x230 PDS 0648230x230 PDS 0650230x230 PDS 0657
    © Pedro Duarte Silva
  • 230x230 CNE 0173230x230 CNE 0225230x230 CNE 0150
    © CNE
  • 230x230 CNE 0104230x230 CNE 0288230x230 CNE 0302
    © CNE
  • 230x230 CNE 0291230x230 CNE 0279230x230 CNE 0181
    © CNE
  • 230x230 CNE 0126230x230 CNE 0212230x230 CNE 0208
    © CNE
LEIGOS, PARA A NOVA EVANGELIZAÇÃO

Cardeal S. Rylko, Presidente do Conselho Pontifício para os Leigos
Cidade do Vaticano


«A Igreja deve dar hoje um grande passo em frente na evangelização, deve entrar numa nova etapa histórica do seu dinamismo missionário». Esta afirmação da Christifidelis laici é ainda completamente atual, e o papel dos leigos católicos neste processo permanece insubstituível. O convite de Cristo: «Ide vós também para a minha vinha» (Mt20, 3-4) deve ser compreendido por um número sempre crescente de fiéis leigos – homens e mulheres – como um apelo claro a assumir a sua parte de responsabilidade na vida e missão da Igreja, isto é na vida e missão de todas as comunidades cristãs) dioceses e paróquias, associações e movimentos eclesiais). De facto, a missão evangelizadora dos leigos transforma já a vida eclesial e isso é um grande sinal de esperança para toda a Igreja.

A vastidão da messe evangélica hoje atribui um caráter de urgência ao mandato missionário do divino Mestre: «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura» (Mt16, 15). Mas hoje infelizmente, mesmo entre os cristãos, enraíza-se e difunde-se uma mentalidade relativista, o que não deixa de provocar uma grande confusão em relação à missão. Alguns exemplos: a propensão para substituir a missão por um diálogo no qual todas as posições são equivalentes; a tendência a reduzir a evangelização a uma simples obra de promoção humana, com a ideia de que basta ajudar os homens a ser mais humanos e mais fiéis à sua própria religião; uma conceção errada do respeito da liberdade do outro que renuncia a toda a tentativa de apelar à conversão necessária. A todos estes e a outros erros doutrinários respondeu primeiro a encíclica Redemptoris Missio (1990), depois a declaração Dominus Iesus (2000) e em seguida a Nota doutrinal sobre alguns aspetos da evangelização (2007) da Congregação para a Doutrina da Fé – documentos que merecem cada um ser objeto de estudo aprofundado. Como mandato explícito do Senhor, a evangelização não é uma atividade secundária, mas a razão do existir da Igreja como sacramento de salvação. A evangelização afirma a Redemptoris Missio, é uma questão de fé, «ela é precisamente a medida da nossa fé em Jesus Cristo e no seu amor por nós». Como diz S. Paulo, «o amor de Cristo nos urge» (2Cor5, 14). Não é supérfluo lembrar que «não pode haver verdadeira evangelização sem o anúncio explícito de Jesus» através da palavra e do testemunho de vida, porque «o homem contemporâneo acredita mais nas testemunhas que nos mestres, mais na experiência que na doutrina, e mais na vida e nos factos que nas teorias». Quem conhece Cristo tem o dever de o anunciar e quem não O conhece tem o direito de receber este anúncio. S. Paulo tinha-o compreendido bem quando escrevia: «Anunciar o Evangelho não é para mim um título de glória; é uma necessidade que me incumbe. Ai de mim se eu não evangelizar! (1Cor9, 16). Um tal zelo missionário devia acompanhar cada batizado.

O futuro Papa Bento XVI, numa conferência realizada no ano 2000, deixou-nos a este propósito preciosas indicações que nos convidam a voltar ao essencial. Falando da evangelização, o Cardeal Ratzinger estabelecia uma premissa fundamental: «O verdadeiro problema do nosso tempo é a «Crise de Deus», a ausência de Deus, camuflada por uma religiosidade vazia. […] Tudo muda se Deus existe ou se Deus não existe. Infelizmente, também nós, cristãos, vivemos muitas vezes como se Deus não existisse (si Deus non daretur). Vivemos segundo o slogan: Deus não existe, e se existe, não temos nada a ver com ele. É por isso que a evangelização deve antes de mais falar de Deus, anunciar o Deus único e verdadeiro: o Criador, o Santificador, o Juiz (cf o Catecismo da Igreja Católica)». E insistia. «Falar de Deus e falar com Deus devem ir sempre em conjunto». Daí o papel insubstituível da oração como berço donde nasce toda a iniciativa missionária verdadeira e autêntica. Depois o tema de Deus concretiza-se com o tema de Jesus Cristo: «É somente em Cristo e por Cristo – afirmava ele – que o tema de Deus se torna realmente concreto: Cristo é o Emanuel, Deus connosco – a concretização do “Eu sou”, a resposta ao Deísmo». A partir desta premissa, o Cardeal Ratzinger formulou três regras de base para guiar o processo da evangelização na Igreja e que vale a pena mencionar aqui. A primeira é a que ela chama regra de expropriação. Nós, cristãos, não somos os donos, mas os humildes servos da grande causa de Deus no mundo. S. Paulo escrevia: «Não nos pregamos a nós mas a Cristo Jesus, o Senhor; nós, nós não somos senão servos, na causa de Jesus» (2Cor4, 5). É por isso que o Cardeal Ratzinger sublinhava com força que «evangelizar não é simplesmente uma forma de falar, mas uma forma de viver: viver a escuta e tornar-se a voz do Pai. “Ele não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido” diz o Senhor a propósito do Espírito Santo (Jo16, 13). […] O Senhor e o Espírito constroem a Igreja, eles comunicam-se na Igreja. O anúncio de Cristo, o anúncio do Reino de Deus supõe a escuta da sua voz na voz da Igreja. «Não falar em seu próprio nome» quer dizer falar dentro da missão da Igreja». A evangelização não é nunca um assunto privado, porque por trás dela se encontra sempre Deus e se encontra sempre a Igreja. O Cardeal Ratzinger dizia ainda: «Nós não podemos ganhar os homens. Nós devemos obtê-los de Deus por meio de Deus. Todos os métodos são vazios sem o fundamento da oração. A palavra do anúncio deve sempre banhar numa vida intensa de oração» Esta certeza é para nós de um grande reconforto e dá-nos a força e a coragem necessárias para enfrentar os desafios lançados pelo mundo à missão da Igreja.

A segunda regra da evangelização é a que decorre da parábola do grão de mostarda «é a mais pequena de todas as sementes; mas uma vez semeado cresce e torna-se a maior de todas as hortaliças» (Mc4, 31-32). «As grandes realidades começam na humildade» sublinhava então o Cardeal Ratzinger. Pelo contrário, Deus tem uma preferência particular por tudo o que é pequeno: o «pequeno resto de Israel», portador de esperança para todo o povo eleito; o «pequeno rebanho» dos discípulos que o Senhor encoraja a não ter medo porque é justamente a ele que o Pai quis dar o seu Reino em herança. (cf. Lc12,13). A parábola do grão de mostarda diz-nos que aquele que anuncia o Evangelho deve ser humilde, não pode exigir obter resultados imediatos – nem qualitativos, nem quantitativos. Porque a lei dos grandes números não é a da Igreja. E porque o patrão da messe é Deus, e é Ele que decide os ritmos, os tempos e as modalidades do crescimento da semente. Esta regra impede-nos de nos deixarmos tomar pelo desencorajamento no nosso élan missionário, sem contudo nos dispensarmos de lhe consagrarmos todos os nossos esforços, como nos lembra o Apóstolo dos gentios, «quem semeia pouco, colherá pouco; quem semeia com abundância colherá abundantemente» (2Cor9, 6)

Enfim, a terceira regra da evangelização é a regra do grão de trigo que morre para dar fruto (cf. Jo12, 24). Na evangelização a lógica da Cruz está sempre presente. O Cardeal Ratzinger dizia: «Jesus não resgatou o mundo com belas palavras, mas pelo seu sofrimento e pela sua morte. A sua Paixão é a fonte inesgotável de vida para o mundo; a Paixão dá força à Sua Palavra». É por isso que o testemunho dos mártires da fé adquire tanta força na obra da evangelização. Tertuliano escrevia com razão: «A cada golpe de foice que vós nos desferis, nós tornamo-nos mais numerosos: o sangue dos cristãos é uma semente eficaz!», frase mais conhecida na versão: «O sangue dos mártires é semente de cristãos». O testemunho da fé selada pelo sangue dos seus numerosos mártires é o grande património espiritual da Igreja e um sinal de esperança luminoso para o futuro. Com o Apóstolo Paulo os cristãos podem dizer: «Somos pressionados de todos os lados, mas não esmagados; perseguidos, mas não esmagados; perplexos, mas não desesperados; perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não aniquilados. Trazemos sempre no nosso corpo os sofrimentos da morte de Jesus, para que também a vida de Jesus seja manifestada na nossa carne mortal» (2Cor4, 8-10).

A extensão das tarefas que a Igreja deve enfrentar no início do terceiro milénio da era cristã arrisca de nos fazer sentir inadaptados e impotentes. A grande causa de Deus e do Evangelho no mundo é constantemente travada e contrariada por forças hostis com as mais variadas origens. Mas as palavras cheias de esperança de Bento XVI ainda nos dão de novo coragem. Na sua homilia sobre os “fracassos na Igreja” aos Bispos suíços em visita ad limina, ele dizia: «Inicialmente, Deus fracassa sempre, ele deixa existir a liberdade do homem e esta diz sempre “não”. Mas a imaginação de Deus, a força criativa do seu amor é maior que o “não” humano. […] Que significa tudo isto para nós? Significa antes de mais uma certeza: Deus não fracassa. Ele “fracassa” continuamente, mas precisamente por isso Ele não fracassa, porque Ele tira dali novas oportunidades de misericórdia maior, e a sua imaginação é inesgotável. Ele não falha, porque encontra sempre novos meios de alcançar os homens e de abrir mais amplamente a sua grande casa. Eis porquê a esperança nunca nos deve abandonar. O Sucessor de Pedro assegura-nos que «hoje também [Deus] encontrará novos caminhos para chamar os homens e Ele quer que nós estejamos ao seu lado como seus mensageiros e servidores».

 pdf