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    © Mário Linhares
INTRODUÇÃO
Dirce Serafim

Criado à imagem e semelhança de Deus, o homem tem dentro de si a marca do Absoluto que o leva a um movimento permanente de busca. É verdade que a sede de infinito o leva também a interrogar-se “porque não sou Deus?” e a tentação de se deter em si próprio pode ofuscar o apelo a uma superação dos seus limites, impedindo-o de seguir em direção a uma luz maior que o envolve, mas se distingue dele. “A miséria do homem consiste em buscar algo inferior a Deus, substituindo-o com aparências ilusórias” . Caminho seguro para prosseguir, consciente dos limites e anelante pelo que o transcende, é fixar o olhar e o coração nas pessoas que nos precederam nessa busca e se tornaram sinais luminosos a apontar a fonte de toda a luz e calor. São os santos de todos os tempos, reconhecidos pela comunidade como verdadeiras caixas de ressonância dos critérios facilitadores do acesso ao Deus que quis entrar na nossa história, manifestar-se n’Aquele que levou a humanidade à perfeição do divino:Jesus Cristo. Só os critérios do Deus evangélico são garantia segura de plenitude, de bem-aventurança, do Amor sem sombra, puro de coração, sequioso de justiça, misericordioso, humilde e fiel mesmo em tempo de menor clareza ou de densas trevas.

Há matizes diversos nos itinerários de santidade, tantos quantas as pessoas que os percorreram, pois são as pessoas com seus traços próprios, modulados pelo espaço e pelo tempo, pelo contexto em que se inserem, que respondem ao chamamento, quais intérpretes de uma mesma música que vai soando diversamente em instrumentos musicais diferentes e segundo a orquestra de que fazem parte.

Assim, os tipos de santidade de séculos passados eram sobretudo caracterizados por um estilo de vida ascética que buscava o deserto ou o claustro para se afastar do mundo. Nos tempos atuais, “o espírito de santidade, sempre idêntico a si próprio porque é obra do Espírito Santo no homem, reentra no mundo, na carne viva da humanidade, na opacidade da vida quotidiana vulgarmente chamada profana.” Continuam a ser importantes os testemunhos de todos os que constituem o Povo de Deus, mas a atualização do cristianismo no momento histórico requer modelos com um esplendor porventura menos visível, porque vivida entre a multidão da cidade, mas de identificação mais fácil, porque mais próxima.

Sobretudo depois da Idade Moderna, a secularização torna menos naturais as referências religiosas e a racionalidade nem sempre se dispõe a olhar para além de si mesma. Reconhece-se por isso, a importância de modelos que clarifiquem a importância de religar profano e sagrado, ciência e religião, de ser no mundo fermento do Reino.

Em 1987, por ocasião da celebração dos vinte anos do Concílio Vaticano II, João Paulo II fazia uma exortação aos trabalhadores da imensa vinha do Senhor (Mt 20, 1-2) particularmente endereçada aos leigos, lembrando o convite do Concílio a que se associem à missão salvadora de Jesus . A comunhão e a missão na Igreja exigem que todos escutem o chamamento de Cristo. Ninguém pode dizer que não foi contratado, pois o proprietário insiste no convite. “Ide vós também para a minha vinha” (Mt 20, 6-7). Como todos os outros membros da Igreja (Papa, Bispos, todos os clérigos e religiosos), os fiéis leigos são ramos da verdadeira videira que é Cristo (Jo 15, 1-5). Batizados num só Espírito, pedras vivas do edifício que tem como pedra angular o próprio Cristo, os leigos são também convidados a consagrar a Deus o próprio mundo , a fazer brilhar a novidade e a força do Evangelho na sua vida quotidiana, familiar e social , a servirem, na caridade e na justiça, o próprio Jesus presente em todos os seus irmãos, sobretudo nos mais pequeninos (Mt 25, 40) . É no meio em que se inserem, que os leigos “são chamados por Deus para que aí, exercendo o seu próprio ofício, inspirados pelo espírito evangélico, concorram para a santificação do mundo a partir de dentro, como o fermento” . Dar fruto é uma experiência essencial da vida cristã e eclesial (Jo 15, 16). É importante, pois, que todos, cada um segundo os dons recebidos, cooperem na missão comum de evangelizar o mundo.

Apresentar alguns testemunhos de diferentes idades, estados, inserção social ou profissional que a Igreja considera modelos capazes de unir fé e vida e de atingir a raiz da cultura de qualquer tempo com a força do Evangelho é tarefa que nos parece verdadeiro apostolado laical.