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IGREJA-MUNDO (1/3)

DUQUE, João, Cultura Contemporânea e Cristianismo
UC Editora, Lisboa 2004, 1-6

Pensar a relação entre a cultura contemporânea e o cristianismo é, sem dúvida, uma forma de repensar a tradicional questão da relação entre Igreja e Mundo, tal como ela é – ou pode ser – vivida na atualidade. Ora, o que possa ser dito ou pensado sobre o papel do cristão no mundo, quer naquele que constitui a nossa realidade presente, quer mesmo naquele que poderá ser o do nosso futuro próximo, está profundamente marcado pela memória que a todos nos constitui como cristãos em Igreja – sobretudo, pela memória da forma como o nosso modo de ser cristãos em Igreja foi ganhando contornos, ao longo de vinte séculos de cristianismo. Teremos, pois, que partir de um esboço dessa memória, para podermos colocar, da forma mais adequada possível, a questão da atual relação entre o cristianismo e as vivências culturais dos seres humanos.
 
0.1. Memória

Relativamente ao percurso que, ao longo da história do cristianismo, foi conhecendo o relacionamento entre Igreja e mundo, assim como a respetiva forma de o pensar, proponho uma divisão esquemática em quatro fases principais: de tensão, de identificação, de rutura e de procura. Tratando-se, sem dúvida, de um esquema muito geral sobre fases da história, pressupõe que a história, como tal, tenha sido bem mais complexa e, por isso, que não seja redutível a este esquema assim tão simples. De qualquer modo, parece-me que esse esquema poderá corresponder, pelo menos, a algumas tendências dominantes em algumas fases dessa mesma história.

1. Assim, uma primeira fase de relacionamento dos cristãos com o mundo (prefiro falar de cristãos e não de cristianismo ou Igreja, pois nesta fase a instituição eclesial ainda não era tão fortemente visível do ponto de vista social, como virá a ser mais tarde), que é a fase dos primeiros dois ou três séculos depois de Cristo, é uma fase marcada pela tensão. Nessa época, o mundo significava, em certa medida, o grupo dos que não eram cristãos e que, muitas vezes, se opunham ao próprio cristianismo, como oficialmente o fez o império romano.

Mais do que isso, o mundo era visto, muitas vezes e de forma claramente apocalíptica, como inimigo direto da mensagem cristã, a ser transformado ou mesmo destruído, para dar origem a um mundo novo. Os cristãos, por seu turno, no interior da comunidade minoritária, começavam a viver o mundo novo, que iria substituir o mundo existente – um mundo de fraternidade e comunhão, construído a partir da salvação Pascal em Jesus Cristo e para Ele orientado. Esperava-se, em geral, a vinda breve de Cristo, para instaurar esse novo mundo em tudo e em todos, superando assim o mundo conhecido.
Contudo, já nessa fase e com o passar do anos e o aumento do número dos cristãos, mesmo no interior das camadas sociais dominantes e intelectuais, foi-se iniciando uma forma diferente de encarar o mundo. A pouco e pouco, esse não foi visto de forma tão negativa, mas assumido como o espaço e local onde os cristãos atuam, precisamente anunciando e pondo em prática o Evangelho e a libertação nele contida. Assim, a Epístola a Diogneto, texto cristão do séc. II, já falava dos cristãos como “alma do mundo” (VI, 1-10) e não apenas como grupo dos que se opunham radicalmente ao mundo. Vivendo como os outros, salvo naquilo que contraria o Evangelho, esses cristãos distinguiam-se dos outros por viver todas as realidades orientando-as para Deus. E a sua intenção básica era que todos os outros habitantes do mundo viessem a viver do mesmo modo.

2. Ora, uma oportunidade para que essa forma de vida se tornasse geral pareceu ter surgido com a paz de Constantino e com o reconhecimento do cristianismo como religião oficial do império romano. Dessa forma, o mundo agora já não estava fora da Igreja, mas identificava-se com a Igreja – ainda por cima, o império romano era, mais ou menos, o mundo conhecido de então.

Nesta segunda fase, a Igreja ganha em visibilidade, até pelo número de cristãos que a constituíam. Mais do que isso, ela identifica-se com um projeto de simbiose entre o político e o religioso, que não permite falar de Igreja e mundo, como duas grandezas diferentes, mas em que a Igreja se tornou mundo e o mundo Igreja.

A queda do império romano e as invasões bárbaras não impediram essa identificação. E pode dizer-se, de forma muito geral, que toda a Idade Média, a famosa época da «cristandade», esteve marcada por essa mesma identificação. Parecia, assim, ter chegado aquilo que esperavam os primeiros cristãos: o mundo novo, em que todos viviam segundo o Evangelho. Só que, na realidade, sabemos bem que essa esperança saiu bastante frustrada e que se revelou, em grande parte, como mera utopia. Em verdade, a identificação entre Igreja e mundo levou a que a Igreja se fosse assumindo como detentora de um poder absoluto, quer diretamente temporal, quer dominando e influenciando os príncipes temporais. Ora, como todo o exercício de poder não está livre de ambiguidades, também a Igreja de cristandade conheceu muitas, que juntaram as mais maravilhosas realizações espirituais da Idade Média com grandes atrocidades, em nome de Deus e levadas a cabo pela própria Igreja.

3. Essa situação conduziu – talvez inevitavelmente – a uma rutura, iniciada na época dita da modernidade e impulsionada pelos espíritos europeus mais sedentos de emancipação. Emancipação, sobretudo, da tutela de uma Igreja que pretendia controlar todos os domínios da vida humana; mas, por inerência, emancipação do próprio Deus, concebido muitas vezes à imagem dessa Igreja autoritária.

A rutura levou, como seria de esperar, a que o mundo se afirmasse como realidade diferente e independente da Igreja – em muitos casos, como realidade mesmo oposta à Igreja. Se, na Igreja antiga, essa tensão e mesmo oposição nascia de uma crítica e protesto da Igreja contra o mundo, agora é o mundo que critica e protesta contra a Igreja. Parecia tornar-se impensável uma autêntica vivência do mundo que permitisse algum espaço à Igreja.

Frente a esta radical reação, a Igreja reagiu, por seu turno, de forma não menos radical: precisamente condenando o mundo em bloco, que a condenava a ela também em bloco. A modernidade pode ser vista, de um modo muito geral – já que, em si, é mais complexa – como essa fase de mútua condenação e mesmo conflito entre mundo e Igreja. E assim se viveu, até ao início deste século, salvo honrosas importantes exceções.

4. O nosso século conheceu, contudo, uma profunda alteração de atitudes. Primeiro iniciado por alguns teólogos, o movimento de renovação e revisão da relação da Igreja com o mundo atingiu o seu reconhecimento oficial, por toda a Igreja católica, com o Concílio do Vaticano II. Aí, o mundo deixa de ser visto apenas como inimigo a condenar, mas passa a ser assumido como parceiro de diálogo da Igreja e como alvo da própria Evangelização. O mundo é concebido, mesmo, como o lugar de constante atualização do Reino de Deus, a caminho do Reino pleno. É missão da Igreja, precisamente, trabalhar nesse mundo e transformá-lo, isto é, convertê-lo, convertendo-se simultaneamente.

Assumido de forma positiva, o diálogo com o mundo, contudo, continua a levantar questões, mesmo em relação à sua pertinência, significado e forma de realização. Estamos, pois, após superada (pelo menos em parte) a forma de rutura própria da fase moderna, numa fase pós-moderna, mais marcada pela procura de modelos teóricos e práticos de realizar o antigo e sempre novo relacionamento Igreja-Mundo. É nesse contexto de procura que se enquadram as páginas que se seguem. Mas, antes de analisar problemas e explorar caminhos possíveis, conviria lançar os pressupostos de enquadramento da reflexão posterior, ou seja, pensar a própria relação em causa.