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IGREJA-MUNDO (3/3)

DUQUE, João, Cultura Contemporânea e Cristianismo
UC Editora, Lisboa 2004, 1-6

0.3. Desafios

Ora, o nosso mundo atual está marcado por um conjunto de problemas que, simultaneamente, constituem desafios à conversão e à ação.
 
1. Acusa-se a nossa época de ser uma época individualista. E, em parte, é inegável que assim é. Mas, simultaneamente, assistimos a grandes e aparatosos movimentos de solidariedade, que parecem contradizer esse individualismo. Ora, o que acontece não será tanto uma contradição mas o facto de que o individualismo tornou cada ser humano, isolado em si próprio, presa fácil de todos os mecanismos publicitários e de consumo. Dessa forma, bem montada uma campanha de solidariedade, acaba por produzir efeito em massa nos indivíduos, que se tornam solidários apenas quando a máquina publicitária lhes manda. Se, no dia seguinte, montasse uma campanha de exclusão de um determinado grupo, os indivíduos iriam aderir do mesmo modo.

Ora, a solidariedade cristã é distinta. Trata-se de uma solidariedade concreta, tanto mais autêntica quanto menos moda for, isto é, quanto mais for solidariedade com aqueles que socialmente ninguém acolhe. Para além disso, a solidariedade cristã não se fundamenta em movimentos de massa ou no interesse de cada indivíduo – nem sequer no interesse das sociedades – mas sim na solidariedade concreta e extrema do próprio Cristo, que se entregou por todos, sem interesse próprio e sem aceção de ninguém. Uma solidariedade autenticamente humana – e também autenticamente cristã – terá que reconhecer esse fundamento, para além de cada sujeito humano e para além das próprias sociedades. Só isso nos possibilitará reconhecer e viver a nossa condição comum de criaturas – a nossa solidariedade fundamental. Desse modo, poderíamos converter a solidariedade ambígua ou mesmo o individualismo que marca a sociedade atual.

2. Isso significa, basicamente, aceitar viver segundo a justiça. Não propriamente segundo uma justiça feita de leis mais ou menos corretas, mas a justiça básica e primeira, que é a justiça da verdade. Ou seja, ser justo é reconhecer a verdade das pessoas, das situações, das coisas. E a mais profunda verdade do mundo e da Igreja é que não somos nós os donos dessa verdade, nem da justiça que lhe corresponde. Essa verdade precede-nos a todos e possibilita, assim, que nos encontremos uns com os outros, na referência a essa verdade comum. Correspondendo a essa verdade comum, reconheceremos, mais uma vez solidariamente, que estamos todos marcados pela mesma condição. E ao reconhecer e praticar esse reconhecimento, praticamos a justiça. Nesse sentido se poderá converter um mundo com dificuldades em encontrar referências para perceber e viver a justiça.

3. Mas o processo de conversão da Igreja-mundo não fica apenas por esse reconhecimento solidário da justiça, senão que caminha em direção a uma solidariedade mais profunda: a solidariedade do amor. Ora, o amor é aqui entendido como agapê, isto é, como entrega de nós próprios, pelo e ao outro. Essa entrega vai para além do que, em justiça, nos seria exigido – pelo menos, em justiça humana. Na realidade, essa forma de amor para além do que é necessário e exigido, é uma forma de levar a própria justiça ao seu ponto mais elevado. Reconhecer que, como dom gratuito e não necessário de um Deus-amor, existimos para nos darmos aos e pelos outros, significa reconhecer a mais profunda verdade e justiça da nossa existência. Convertida a Igreja-mundo até este ponto alto da agapê, estaríamos em condições de acolher o dom total do próprio Reino de Deus em plenitude. Para isso caminhamos, como agentes da transformação deste mundo que somos, transformação ou conversão que é operada pelo próprio Espírito de Deus.

É precisamente neste processo dinâmico da permuta Igreja-mundo que se torna essencial repensar o lugar do cristianismo na cultura contemporânea, relativamente a estes e a outros elementos seus. A forma como esse lugar será analisado ou mesmo sonhado, ao longo das páginas que se seguem, constitui uma proposta entre muitas outras possíveis. O mais importante dessa proposta será, assim considero, a vontade de aceitar o desafio da complexa cultura contemporânea, que nos convoca a repensar o papel do cristianismo e que, eventualmente, nos permitirá viver o cristianismo como um desafio à cultura contemporânea. A relação é, pois, de diálogo e de tensão. Só assim será viva e dinâmica.

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