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IGREJA-MUNDO (2/3)

DUQUE, João, Cultura Contemporânea e Cristianismo
UC Editora, Lisboa 2004, 1-6

 
0.2. Conjugação

Antes de mais, haveria que começar por definir e delimitar, do ponto de vista real e mesmo visível, a Igreja e o mundo. De facto, tratar-se-á de dois espaços diferentes, constituídos por dois grupos diferentes e bem definidos de sujeitos humanos?

Pensemos no nosso contexto cultural concreto. É certo que a Igreja possui um aparato externo identificável, com um código de direito específico e com «corpos gerentes» próprios, que permite distingui-la, perfeitamente, de um partido político, de um governo, de um clube de futebol, etc. Mas será a Igreja, na sua profundidade, identificável totalmente com esse aparato visível, de tal forma que se possa assim delimitar claramente o que é e o que não é Igreja? Não levaria isso a ter que dizer que os cristãos que constituem um governo, ou um partido, ou um clube, enquanto membros desses grupos, não são Igreja? Ou então, ao inverso, que enquanto Igreja não são membros plenos desses grupos? E que, por isso, a sua identidade e mesmo a sua atuação teria que ser dupla (ou múltipla), conforme essa dupla (múltipla) pertença?

Mas não nos levaria isso, de novo, a uma dicotomia entre Igreja e mundo, agora mais encoberta? Não seria isso uma espécie de transposição da dicotomia entre profano e sagrado, que faria de nós membros de um contexto meramente sagrado e religioso (a Igreja) e, por outro lado e independentemente, membros de um contexto absolutamente profano (o mundo civil)?

Ora, esta conceção dicotómica, mesmo que tendo superado atitudes de conflito entre as duas partes, não é menos problemática que o próprio conflito. De facto, já não há conflito aberto, podendo o entendimento mútuo até ser harmoniosamente feliz. Mas instaura-se um clima de indiferença mútua, que não é melhor que o próprio conflito. Mais do que isso, essa dicotomia é, de certo modo, «esquizofrénica», pois não corresponde à unidade pessoal de cada cristão, nem à realidade social que vivemos.

De facto, pelo menos no nosso contexto cultural, a maioria dos cidadãos são cristãos. Ora, uma clara e precisa distinção entre Igreja e mundo coloca essa maioria em situação quase esquizofrénica. Não são os cidadãos constituintes do nosso mundo, os mesmos que constituem a nossa Igreja? Como podemos, então, exigir-lhes que sejam dois, sendo eles um só?

O modelo da Epístola a Diogneto pode ser útil, nesta procura de uma forma mais correta de pensar o relacionamento Igreja-mundo. Se os cristãos são a alma do mundo, não deixam de ser mundo, por serem cristãos – nem deixam de ser cristãos, por serem mundo. Constituindo alma e corpo dimensões de uma mesma realidade una, que é a pessoa, também na sociedade a mesma realidade é a alma e o mundo. Sendo alma do mundo, os cristãos são mundo, dando ao mundo o seu profundo sentido e orientando-o para esse sentido. Ou seja, a Igreja é mundo.

E o mundo, pelo menos em contexto de maioria cristã, é essencialmente Igreja. Claro que há no mundo pessoas que não são explicitamente cristãos e, por isso, não são Igreja no sentido estrito ou visível. Independentemente de eles poderem ou não ser considerados cristãos, do ponto de vista implícito, pelo menos serão a parte do mundo a ser ainda transfigurada. Mas a Igreja é o mundo já transfigurado pelo Evangelho.

Claro que a Igreja está transfigurada pelo Evangelho enquanto orientação, não na totalidade, pois está também marcada pela ambiguidade daqueles que a constituem. Daí que, tal como o mundo, precisa de ser ela própria transfigurada, de se deixar converter. Também nisto não difere radicalmente do mundo, como se fosse um grupo de perfeitos, diferentes e isolados de todos os outros.

Ou seja, enquanto habitantes da Igreja-Mundo, somos todos responsáveis por tornar atuante a transfiguração dessa Igreja-Mundo – transfiguração que não é produto nosso, mas ação do Espírito, enquanto atualização do próprio Mistério Pascal. Ao converter-se a Igreja, converte-se o mundo, e vice-versa.