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FÉ E COMPROMISSO NO MUNDO (2/4)

PINHO, J. E Borges de, Fé e compromisso no mundo
in «Communio», 11 (1995), 437-451

II. Fé e Transformação Humana do Mundo

À luz do que se acaba de referir é claro que a vivência da fé não pode deixar de traduzir-se numa preocupação constante pela construção de um mundo cada vez mais humano. Mais ainda, é convicção crente que os cristãos e a Igreja são chamados a dar, à luz e na força do Evangelho, um contributo específico e imprescindível para a humanização deste mundo: "Com a mensagem evangélica, a Igreja oferece uma força libertadora e criadora de desenvolvimento, exatamente porque leva à conversão do coração e da mentalidade, faz reconhecer a dignidade de cada pessoa, predispõe à solidariedade, ao compromisso e ao serviço dos irmãos, insere o homem no projeto de Deus, que é a construção do Reino de paz e de justiça, já a partir desta vida." Nesse contributo para a humanização deste mundo a fé descobre a forma concreta de dar espaço e servir de instrumento à realização do projeto de Deus para o homem, um projeto que visa a plenitude do humano na comunhão definitiva com o próprio Deus, mas que por isso mesmo não elimina, antes assume o que o agir humano na fidelidade à criação vai podendo realizar de bom e de positivo. De facto, a história da salvação não pode ser entendida como algo que se realiza "ao lado" ou "por cima" da história do mundo, mas é a história deste mundo animada e transformada, apesar de e no meio de todas as opacidades, ameaças e convulsões, pela presença e ação de Deus. A esta luz e neste horizonte de sentido, o nosso esforço em ordem à realização de um ser humano mais pleno e à transformação das estruturas da sociedade de acordo com a dignidade do homem à luz de Deus não são elementos acidentais ou secundários, alheios ao anúncio do Reino de Deus, mas formas de visibilização da soberania de Deus acolhida na liberdade humana. Um texto notável da Gaudium et spes, observando embora que o progresso terreno se deve cuidadosamente distinguir do Reino de Cristo, anota, todavia e ao mesmo tempo, que esse progresso, na medida em que pode contribuir para a melhor organização da sociedade humana, interessa muito ao Reino de Deus, e acrescenta: "Todos estes bens da dignidade humana, da comunhão fraterna e da liberdade, fruto da natureza e do nosso trabalho, depois de os termos difundido na terra, no Espírito do Senhor e segundo o seu mandamento, voltaremos de novo a encontrá-los, mas então purificados de qualquer mancha, iluminados e transfigurados, quando Cristo entregar ao Pai o reino eterno e universal: 'reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de amor e de paz'. Sobre a terra, o reino já está misteriosamente presente; quando o Senhor vier, atingirá a perfeição." (39)

O viver cristão no mundo não pode, pois, fugir ao empenhamento nas circunstâncias históricas, não pode prescindir da tentativa permanente de dar configuração concreta às exigências do Evangelho na realidade histórica. Nunca se deve esquecer, é certo e como está implícito no texto acabado de referir, que a fé é estruturalmente animada por um horizonte escatológico que não lhe permite nunca identificar as realizações sociais, culturais, políticas, por melhores que elas sejam ou pareçam ser, com o cumprimento das promessas do Reino. Pelo contrário, o horizonte do Reino de Deus é a grande força impulsionadora que anima — como esperança a realizar, como perturbação das situações estabelecidas, como crítica das deficientes realizações humanas, como estímulo de novidade criativa — o agir cristão neste mundo. Mas a existência crente terá inevitavelmente de tentar traduzir os valores do Reino no provisório, limitado e ambíguo das mediações históricas, mantendo-se consciente da inevitável tensão que aqui está envolvida: estamos sempre diante de realizações relativas, mas necessárias enquanto caminhos históricos de transformação deste mundo. Para o crente, trata-se assim de ser capaz de correr o risco da sua liberdade nos limites das situações concretas e de se comprometer com configurações provisórias da construção deste mundo, sabendo que não é possível afirmar valores à margem dos condicionalismos históricos em que eles transparecem (com as dimensões do tempo, do lugar, do não-necessário, do não-calculável, do sujeito à mudança, da mediação cultural relativa, da particularização ideológica, da mistura com deficiências e pecados, etc.). À fé verdadeiramente comprometida no mundo — e nem sempre se percebe bem isso em termos de fomento da maturidade dos crentes, de encorajamento eclesial às opções concretas de pessoas e de grupos, de respeito pela inalienável liberdade de consciência das pessoas — pertence o necessário risco histórico que é indispensável correr.

A consciência do lugar que ocupa na identidade e maturidade da fé este empenhamento no mundo — mediante os compromissos profissionais, cívicos, sociopolíticos — envolve a necessidade premente de que cada cristão descubra, nas mais diversas situações em que é chamado a viver, as suas possibilidades reais e a sua correspondente tarefa no que respeita à responsabilidade pública inerente à fé. A fé não pode ser pensada sem essa dimensão pública, e cada cristão tem de encontrar o modo como se concretiza a responsabilidade social e política que decorre da sua vivência crente, e isto como elemento integrante — não acidental ou eventual — da sua própria descoberta vocacional como ser cristão na Igreja e no mundo (no que ressalta, aliás, também a dimensão missionária da existência cristã e da própria comunidade eclesial no seu conjunto!). Cada cristão tem de se convencer, pois, de que, para além de todas as tarefas internas eclesiais que se sinta ou possa ser chamado a realizar, há uma tarefa pública a desempenhar com outros homens e mulheres, e isso como expressão concreta, irrecusável, da sua vocação humana e cristã. Na capacidade de assumir com profunda consciência humana e cristã o lugar concreto da sua existência e de procurar aí — porventura em situações-fronteira ou de particular dificuldade — ser o mais possível fiel ao Evangelho, deixando transparecer a realidade viva de Deus como significativa para os homens, está — mais do que no exercício de serviços internos eclesiais ou mesmo de ministérios laicais — um sinal de autêntica maturidade cristã.

Tomar isto verdadeiramente a sério exigirá, obviamente, que a comunidade cristã corrija algumas mentalidades e modos de proceder, pedirá sobretudo que a vida da comunidade cristã — desde a catequese de crianças e de jovens às opções pastorais concretas que se fazem — seja cada vez mais um espaço onde se apure e se desenvolva o sentido da responsabilidade pública da fé. O que, evidentemente também, pressupõe que se cresça, em termos de convicção mas sobretudo quanto à capacidade de atitudes coerentes, na consciência de que a responsabilidade pública da fé não é algo que diz respeito apenas ao indivíduo, mas envolve a comunidade cristã no seu conjunto. De facto, cabe igualmente à comunidade cristã — como grandeza pública que é — tomar consciência do significado da sua presença concreta no meio, evitando a ilusão de uma falsa neutralidade e realizando aqueles gestos coletivos que os valores do Evangelho e a dignidade fundamental do homem exijam. Será obviamente um agir diferente — nos objetivos, nos critérios, no estilo, nos métodos — de uma qualquer força social ou política. Mas é uma presença indispensável como testemunho de Evangelho: desse modo a comunidade cristã expressa a sua preocupação pelos problemas do meio em que se insere e mostra o que a fé significa para o enfrentar desses mesmos problemas.