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FÉ E COMPROMISSO NO MUNDO (4/4)

PINHO, J. E Borges de, Fé e compromisso no mundo
in «Communio», 11 (1995), 437-451

IV. Fé e Solidariedade com o Mundo

Não sem relação com os desafios que a opacidade do mundo coloca à identidade cristã e como uma expressão qualificada do que representa para a fé a preocupação pelo mundo emerge, por fim, a dimensão estruturalmente solidária do viver crente, e isso tanto a nível individual como comunitário.

De facto, na sua identidade mais profunda a fé entende-se como existência solidária com o mundo. Desde logo porque o crente partilha as condições de vida dos outros homens e mulheres, a Igreja experimenta com a humanidade as dores de crescimento deste mundo, os cristãos participam das dificuldades e provações que afetam os indivíduos, as famílias, os grupos humanos, as nações. Por outro lado, o cristão vive a sua fé não como uma experiência elitista que o separasse dos outros homens, mas sente que ela é atravessada por questionamentos, interrogações, perplexidades que acompanham igualmente qualquer existência humana na busca de sentido para o seu viver. A capacidade de perceber as dificuldades que os outros experimentam na busca de resposta ao sentido mais profundo das suas vidas pode ser considerada mesmo um barómetro da autenticidade da própria fé. Mas, mais radicalmente ainda, no âmago de si mesma a existência cristã entende-se como "existência representativa". No mistério de gratuidade que a fé sempre significa emerge algo de decisivo na experiência crente: recebemos o dom da fé por outros e a favor de outros, i.e., sentimos que somos portadores de um dom gratuito em vez de outros (que poderiam ter fé, se vivessem noutras circunstâncias, mais ou menos semelhantes às nossas) e compreendemos que a fé nos foi entregue para ser transmitida, testemunhada e praticada a favor de outros. Esse mesmo caráter e dinamismo de "existência representativa" define, aliás, a Igreja: a comunidade de fé, de esperança e de amor no seguimento de Jesus não existe para si mesma, mas para ser sacramento do Reino de Deus no meio dos homens e a favor deles.

Na verdade, e como decorre da própria vida de Jesus, que veio para servir (cf. Mc 10,45), os cristãos e a Igreja encontram e realizam a sua identidade mais autêntica como "existência para os outros" (D. Bonhoeffer). E a credibilidade da comunidade eclesial como portadora de uma mensagem humanamente significativa, a qualidade da realização histórica do seu ser sacramento para o mundo dependem decisivamente da sua capacidade de diaconia, de compromisso até ao fim na busca de resposta às necessidades de mais diversa ordem que afetam os homens, da dimensão de universalidade com que conseguir viver essa diaconia. A Igreja é interpelada a descobrir na proximidade solidária (à luz do modelo paradigmático do samaritano do Evangelho) o indicativo fundamental do seu estar no mundo, do seu serviço, da sua tarefa de anúncio de Deus. Em causa estão a sua presença constante e generosa onde os homens vivem e lutam, a sua capacidade de ajuda ao homem em necessidade, a solidariedade de uma Igreja que se sabe a caminho, o sentir como suas as preocupações da humanidade, o compromisso com os homens (independentemente da sua religião, cor política, raça ou cultura) na busca de solução para as grandes questões que têm a ver com a própria sobrevivência da humanidade.

Consciente do seu caráter representativo e da identidade diacónica que a estrutura, a existência crente é chamada particularmente a desenvolver-se, no emaranhado das tarefas, das dificuldades e dos conflitos quotidianos, como capacidade de despertar solidariedade a partir da fé. Ajudando o homem a libertar-se do seu egoísmo e capacitando-o assim para uma relação mais autêntica com o seu próximo, a experiência da fé apresenta-se como raiz de uma mais profunda, ampla e duradoura solidariedade. Uma solidariedade que não brota de um qualquer imperativo ético humanitário ou que é fruto de um mero esforço voluntarista, mas que radica na própria perceção do Mistério de Deus, um Deus que é comunhão solidária e que não permanece impassível perante a aventura humana. Fé em verdadeira solidariedade com o mundo é, assim, impulso para uma concreta e generosa capacidade de sacrifício, para uma outra disponibilidade de partilhar mesmo aquilo de que nos custa prescindir (e não apenas do "supérfluo"), para uma sensibilidade mais atenta aos problemas reais da comunidade, para uma maior criatividade na descoberta de modelos mais humanos de viver e de novas formas de solidariedade.

Como prova da sua autenticidade, a solidariedade cristã com o mundo não pode deixar de traduzir-se numa particular sensibilidade aos mais pobres e no combate persistente à pobreza que desumaniza e é indigna do homem. A existência de um tão grande número de pessoas que continuam a sofrer condições de vida infra-humanas, de pessoas que vivem na miséria e na opressão, é a mais grave interpelação que se coloca a uma fé que se entende em solidariedade com o mundo e que se sente corresponsável pelo futuro deste mesmo mundo. Não podemos construir a nossa identidade cristã à margem — como se fosse um problema secundário, muito menos que pudéssemos ignorar! — da pobreza e do sofrimento que, em proporções escandalosas, persistem tanto entre nós como noutros países do mundo. A realidade histórica de pessoas que não têm condições para serem pessoas contradiz frontalmente a Boa Nova evangélica, e na forma como os cristãos se comportam para com os que sofrem a injustiça e a opressão está implicada de modo determinante a credibilidade do nosso anúncio de Deus e do seu Evangelho. O amor preferencial pelos pobres — disso não há que duvidar, não obstante as nossas dificuldades e contradições práticas quotidianas — representa uma interpelação nuclear à identidade da fé e uma forma privilegiada de o cristão captar o autêntico rosto de Deus no meio deste mundo. Todos são chamados, pois, a pôr em prática "no estilo de vida pessoal e familiar, no uso dos bens, na participação como cidadãos, na contribuição para as decisões económicas e políticas e no próprio empenhamento no plano nacional e internacional as medidas inspiradas pela solidariedade e pelo amor preferencial para com os pobres" (SRS 47).

A imensidade e a dificuldade da tarefa que aqui se apresenta chama-nos de novo a atenção para o significado da dimensão orante do viver crente como dinamismo essencial de uma existência em verdadeira solidariedade com o mundo. Oração não é alheamento do mundo, refúgio numa esfera ilusória de sentimentos e de expressões religiosas, mas introdução da realidade desse mesmo mundo e assunção de todo o nosso viver na relação mais íntima que o crente estabelece com o Mistério que suporta as nossas vidas. A verdadeira oração cristã nunca acontece à margem das lutas, dos problemas e dos sofrimentos dos homens e das tensões, ambiguidades e contradições deste mundo, pode mesmo dizer-se que a qualidade da oração cristã se mede pela sua capacidade de ter presente as concretas experiências humanas, de acolher com verdade os problemas do mundo e de fazer repercutir na vida quotidiana o que a própria experiência de Deus significa para o enfrentar efetivo desses problemas. Porque — talvez não seja inútil recordá-lo! — oração não é bem o que dizemos a Deus ou o que fazemos como gestos nossos, mas é sobretudo o que na abertura do nosso coração d'Ele recebemos como interpelação e estímulo a uma maior autenticidade de vida. Então, a nossa oração é, primeiro que tudo, disponibilidade para um acolhimento mais fiel do Evangelho, de modo a que o nosso viver seja fermento de um mundo melhor e, por caminhos que só Deus conhece, instrumento que ajude outras pessoas na descoberta do Mistério que interpela cada existência humana e que pode tornar a vida dos homens mais digna deles próprios. A nossa oração é, ao mesmo tempo, reconhecimento dos "pecados do mundo" e apelo à conversão e à salvação deste mundo, na consciência também de que nós, cristãos, tanto nos nossos comportamentos como nas nossas omissões, não somos completamente alheios aos "pecados do mundo". A nossa oração assume, enfim, as múltiplas situações e tarefas da vida e oferece-as como "sacrifícios espirituais" ao Deus que, no seu Mistério, é o sentido último do nosso viver, do nosso caminhar no mundo e deste mundo. Assim, nesta atitude orante o crente redescobre sempre de novo como o seu olhar constante para o céu não o separa desta terra, antes é raiz de um mais intenso e exigente compromisso no mundo.

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