• 230x230 PDS 1054230x230 PDS 1059230x230 PDS 1066
    © Pedro Duarte Silva
  • 230x230 PGS 0068230x230 PGS 0554230x230 PGS 0384
    © Pedro Grandão
  • 230x230 PGS 0197230x230 PGS 0266230x230 PGS 0245
    © Pedro Grandão
  • 230x230 PGS 0757230x230 PGS 0653230x230 PGS 0707
    © Pedro Grandão
  • 230x230 PGS 1039230x230 PGS 0911230x230 PGS 0944
    © Pedro Grandão
  • 230x230 PGS 0098230x230 PGS 0044230x230 PGS 0243
    © Pedro Grandão
  • 230x230 PGS 0053230x230 PGS 0067230x230 PGS 0376
    © Pedro Grandão
  • 230x230 PGS 0142230x230 PGS 0549230x230 PGS 0383
    © Pedro Grandão
FÉ E COMPROMISSO NO MUNDO (3/4)

PINHO, J. E Borges de, Fé e compromisso no mundo
in «Communio», 11 (1995), 437-451

IV. Fé e Opacidade do Mundo

Sabe-se bem que — e o cristão sente isso quotidianamente — viver a fé como compromisso no mundo não significa descobrir, de imediato e nas múltiplas tarefas que cada um tem de enfrentar, o rosto de Deus, os sinais do seu amor Criador e Salvador, a presença viva e atuante do seu Espírito. A existência cristã como modo de viver no meio do mundo aparece também estruturalmente marcada pela experiência duma certa "opacidade" (não transparência a Deus) deste mesmo mundo.

Isso acontece desde logo pelo facto de que a existência cristã é sempre vivida num mundo que permanece "mundano", com as suas leis próprias, não automaticamente abertas e dóceis a critérios evangélicos. Se é verdade que o cristão entende essa autonomia como expressão do amor criador de Deus que liberta o mundo para o deixar ser mundo, se o cristão sabe que a "consagração" (cf. LG 34) do mundo pelo fermento do Evangelho e pelo agir crente de acordo com critérios evangélicos não significa a eliminação da legítima autonomia das realidades terrestres (cf. GS 36,41 e 56; AA 7) (antes é a potencialização deste mundo em ordem a que reencontre o seu sentido mais profundo à luz do plano de Deus), é preciso também não esquecer — de certa forma como reverso da medalha — que a "mundaneidade" do mundo se nos manifesta histórica e concretamente como realidade plurifacetada, atravessada por uma ambivalência que não é possível superar sem mais, marcada por uma tensão que não pode ser acolhida na fé senão de uma forma dialética (estar no mundo sem ser do mundo!), mergulhada na inevitável distância que existe entre os projetos humanos com as suas possibilidades e seus riscos e o horizonte do Reino de Deus e suas promessas. A relação cristã com o mundo nunca pode acontecer, pois, numa atitude ingénua e despreocupadamente otimista, como se tudo, mais tarde ou mais cedo, tivesse necessariamente de acabar em bem; antes, o acolhimento crente do mundo que o liberta para o seu "ser mundo" é atravessado pela experiência de uma "estranheza" estrutural que encontra a sua expressão simbólico-existencial mais visível na cruz. Uma estranheza estrutural à fé na sua relação com o mundo que adquire contornos ainda mais definidos, complexos e percetíveis quando se toma consciência do mal e do pecado que atravessam o nosso quotidiano, carregando com particular densidade esta opacidade do mundo. A perceção que temos deste mundo, tal qual ela emerge na própria experiência do dia a dia, é a de uma realidade frequentemente opaca aos sinais da presença de Deus: são as tragédias naturais ou causadas pelo homem, é o viver de muitas pessoas sob o impulso de perspetivas de indiferença ou até de contradição aos critérios evangélicos, é o cíclico voltar das situações e estruturas de mal quando algumas condições pareciam ter melhorado, é a concreta incapacidade de corresponder a longo prazo a exigências elementares de justiça e de fraternidade entre os homens. Assim, no seu viver no mundo e como algo constitutivo a esse mesmo viver, o crente faz também de diversos modos a experiência de um certo "silêncio" de Deus; ele tem frequentemente a sensação de que Deus está ausente do nosso mundo, tanto naquilo que tece o quotidiano das opções dos homens como no que respeita às estruturas ("estruturas de pecado") que suportam e modelam a vida em sociedade.

Neste contexto e nesta consciência, compromisso no mundo e preocupação pelo mundo significam, antes de mais, uma interpelação à esperança cristã como verdade a proclamar e prática a viver. Não há para o crente outra saída senão o caminho humilde de procurar sempre de novo aprofundar e tentar dizer as razões da esperança que temos em nós (lPd 3,15). E na sua fé animada pela esperança o cristão sabe que, apesar de tudo, este mundo está atravessado pela força redentora do amor de Cristo que se manifesta como novidade recriadora e impulso decisivo para um outro modo de viver. Essa esperança assenta na certeza de que Deus está presente e ativo no hoje da história, de que este mundo em que vivemos e que amamos não está abandonado a um destino cego, de que, apesar de tudo, o coração dos homens vai sendo tocado, no mais íntimo de si mesmos, pelo Espírito de Deus, de que em Jesus, na sua vida, morte e ressurreição, foi posto neste mundo e nesta história um princípio de transformação e de novidade radicais que, precisamente porque enraizado no poder de Deus e no seu amor indefetível, é esperança irreversível de um futuro diferente para este mundo. A esperança que aqui se exprime não pode deixar de ser, em muitas circunstâncias, uma esperança "crucificada" — uma esperança que não ignora a persistência do mal, que é chamada a sofrer com a lentidão das mudanças, que não compreende o porquê da (aparente) vitória da injustiça —, mas é uma esperança que torna possível a ultrapassagem do desânimo, que dá força para encontrar novos caminhos, que impulsiona o sempre recomeçar de novo, que possibilita também a paciência para saber esperar pelo tempo da colheita em que o trigo será finalmente separado do joio. Em muitas ocasiões, a existência cristã inserida na realidade concreta deste mundo não tem outro caminho senão aguentar realisticamente e sem ilusões as contradições que surgem, mas mesmo nessas circunstâncias sabe que pode confiar em Deus e seu poder renovador e que, por isso mesmo, não são vãos os nossos esforços de mudança, por mais humildes e insignificantes que eles sejam. E em atitude profundamente crente, simultaneamente contemplativa e ativa, o cristão tomará consciência mais viva de que o "silêncio" de Deus que emerge na opacidade deste mundo só pode ser quebrado no compromisso de uma vida que vai fazendo o que está nas suas mãos para eliminar as contradições que o quotidiano apresenta à realidade de Deus e seu amor para com os homens, à dignidade de cada pessoa humana e de todos os homens.

Compromisso no mundo e preocupação pelo mundo é, assim, redescoberta do que significa o testemunho cristão, das exigências da sua autenticidade, dos critérios evangélicos que o têm de nortear, das condições em que ele pode verdadeiramente aparecer como crível, da dimensão comunitária que o suporta como pressuposto indispensável de fidelidade, de autenticidade e de eficácia. Nesta ordem de ideias e por exemplo, o testemunho cristão não pode ignorar a condição de secularidade de um mundo que é capaz de construir-se sem Deus (mesmo que isso represente, no fim de contas e na conhecida afirmação de Henri de Lubac, um construir-se contra o próprio homem!), não pode, consequentemente, ser entendido em termos de conquista (ou reconquista) de um poder social, não pode ignorar que a verdadeira força persuasiva não está na amplitude ou no poder dos meios de que dispõe mas na transparência evangélica que consegue transmitir no seu agir. E neste contexto de credibilidade do anúncio de Deus nas circunstâncias de opacidade do mundo — uma credibilidade que não se mede pelo curto prazo, mas que, prudente e humildemente, sabe também deixar a verdadeira prova de autenticidade à história de fé do futuro! — ressalta de modo particular a importância nuclear que têm os critérios de autêntica humanidade na forma como os cristãos vivem e testemunham a sua fé. A experiência cristã como testemunho da humanidade do homem que o Reino de Deus oferece, possibilita e exige não pode prescindir da pretensão e da tarefa de aparecer como a configuração de um "ser humano" realizado, de traduzir o que significa para a humanidade do homem a fé em Deus, de ser um testemunho cristão que, ao dar sinais convincentes de valores autenticamente humanos, consiga ser verdadeiramente interpelativo das pessoas na sua busca de sentido último e mais pleno para o seu viver. É por isso que os cristãos têm de denotar uma sensibilidade particular a aspetos tão simples (mas, às vezes, tão difíceis face aos critérios e hábitos vigentes na sociedade!) como a competência e a seriedade profissionais, a honestidade e a simplicidade de vida, o amor à verdade em todas as circunstâncias, o sentido de fidelidade à palavra dada, o respeito elementar pelo outro em todas e quaisquer circunstâncias, o sentido da justiça, a capacidade de solidariedade e de sacrifício a favor de outros. Uma transparência de verdadeira humanidade que tem de ter correspondência na defesa intransigente do Humano, na defesa da dignidade da pessoa humana, precisamente porque ela brota do amor criador de Deus e sua justiça. Os cristãos não podem deixar de estar na primeira linha da defesa de todos os direitos humanos, e a fé há de ser raiz de uma sensibilidade mais profunda perante as violações desses direitos.

Ressalta aqui como, face à opacidade do mundo e como condição básica da própria fidelidade, o testemunho cristão terá de redescobrir a sua mais profunda originalidade, a sua força interpelativa, a sua capacidade crente de saber "ver o mundo com os olhos de Deus". Está aqui em causa — também em ordem ao contributo específico que o cristão é chamado a dar para a transformação do mundo — a qualidade profética que dimana do agir cristão. Uma qualidade profética que passará, como forma indispensável de compromisso crente no mundo, pela coragem da denúncia de situações indignas do homem e, eventualmente até, por formas inequívocas de contestação daquilo que na realidade concreta se apresenta como desumano e contrário ao Evangelho. A indispensável "não adequação" ao tempo (na "contemporaneidade" com o tempo!) que carateriza a fé, coloca o viver crente não só em contradição com todo um ambiente coletivo que tende a proceder "como se Deus não existisse", mas, mais ainda, obriga a fé a contestar tudo aquilo que, em última análise, nega tanto a divindade de Deus como a humanidade do homem. Sempre na história da Igreja tem havido testemunhas desse indeclinável humano-divino que a fé transporta consigo, e na Evangelium vitae lembra-se mesmo — numa referência específica a possíveis situações de confronto com legislações injustas, que interpelam a que se assuma uma atitude de objeção de consciência — que há circunstâncias em que "as opções que se impõe tomar são dolorosas e podem requerer o sacrifício de posições profissionais consolidadas ou as legítimas perspetivas de promoção na carreira" (74). Mas não basta denunciar, é necessário apresentar propostas alternativas que deixem transparecer a humanização que brota do Evangelho, é preciso também apresentar caminhos de construção positiva, respostas inovadoras que mostrem como é possível, na prática, realizar a justiça, fazer crescer a liberdade, desenvolver a solidariedade. A questão fulcral da mudança qualitativa dos modos de viver e das estruturas deste mundo passa decisivamente pelo agir de pessoas que, na sua própria esfera de ação, consigam traduzir em modelos alternativos, coerentes e práticos, modos mais humanos de viver a partir do Evangelho.

Isto torna visível como, mais do que nunca, se trata no compromisso cristão no mundo de conjugar de forma existencial percetível "mística" e "política". O cristão pressente assim no mais profundo da sua identidade que contemplação e ação (mesmo que possam ser vividas em formas e com intensidades vocacionais diferentes) não são realidades divergentes ou que possam estar ausentes de qualquer exis-tência crente (o modo de contemplar ou de agir é que podem ser diversos). E percebe como não é possível dar sinais autênticos de Deus se não houver um enraizamento profundo de toda a sua existência naquilo que verdadeiramente a identifica, no Mistério que a funda. A qualidade e a força do compromisso cristão no mundo estarão sempre, pois, intimamente dependentes do acolhimento crente do Mistério de Deus e da profundidade de uma relação permanente com Ele, ou seja, da vitalidade e maturidade da própria vivência da fé.