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ENCRUZILHADA: CRISTIANISMO E CULTURA ATUAL (3/6)

DUQUE, João, Cultura Contemporânea e Cristianismo
UC Editora, Lisboa 2004, 113-135

Virtualização mediática

Em realidade, os mass media prosseguem a construção de um mundo artificial, virtual, iniciado pelo sistema do consumo. Mundo que não apenas anula a referência à realidade, por imersão dos sujeitos na virtualidade, mas age ainda de forma mais profunda. Em verdade, o mundo construído pelos mass media anula, mesmo, a própria distinção entre real e aparência ou virtualidade, a ponto de tudo parecer real. Ou melhor, porque se anula a capacidade de distinguir entre real e virtual, tudo é real, porque a realidade é a própria aparência. Ou seja, apenas é real o que (a)parece. O ser, tendo em tempos de materialismo e de capitalismo dado lugar ao ter, dá agora lugar ao parecer. Só o que parece é real, e é tão real como o que parece ser. Do «penso, logo existo» cartesiano, passou-se a uma espécie de «sou visto, logo existo».

Nessa lógica da realidade transformada em aparência mediática ou da aparência mediática transformada em única realidade na que vive a maioria dos nossos contemporâneos, instaura-se aquilo a que Lipovetsky chama a «indiferença pura». Nas suas palavras não propriamente irónicas, mas perfeitamente realistas para o mundo assim construído, “a declaração de um ministro não vale mais que o folhetim; passa-se sem hierarquia da política às «variedades», sendo a audiência determinada pela qualidade do divertimento”. E a audiência transformou-se em único critério de verdade, absolutamente indiscutível. “A nossa sociedade não conhece o privilégio, as codificações definitivas, o centro, nada para além de estimulações e de opções equivalentes em cadeia. Daqui resulta a indiferença pós-moderna, indiferença por excesso, não por defeito, por hiper-solicitação, não por privação”. E continua Lipovetsky: mesmo “o regionalismo, a ecologia, o «retorno do sagrado», todos esses movimentos, longe de se encontrarem em rutura com ela, limitam-se a rematar a lógica da indiferença... Pode-se assim ser simultaneamente cosmopolita e regionalista, racionalista no trabalho e discípulo intermitente de certo guru oriental, viver numa época permissiva e respeitar, escolhendo-as à lista, as prescrições religiosas” . Tudo é possível, porque é indiferente que seja isto ou o seu contrário, já que tudo é indiferente porque nada é verdadeiramente real e com consequências reais. O mundo transformou-se num grande jogo de computador, que vale pelo divertimento que proporciona o facto de se ganharem ou perderem pontos, mas cujas ações não têm efeitos reais, nem sobre os agentes nem sobre os pacientes.

Mas, virtualizada a realidade e as relações com o mundo e com os outros a esse ponto extremo, como cada vez vai acontecendo mais, a cultura dos mass media corre o risco de anular a própria possibilidade e realidade da comunicação, em função da qual terá nascido. Segundo a perspicaz análise de Eduardo Lourenço, “o fluxo das imagens que nos cerca, nos invade ou nos é proposto tem uma lógica interna que, seriamente falando, não pertence à esfera da comunicação – aquela que pressupõe pelo menos dois polos, dois sujeitos com a propriedade da reflexibilidade ou da reversibilidade inerente à troca comunicativa, quer dizer, ao diálogo, ao diálogo realmente humano – mas a uma esfera autónoma, em que a mensagem inscrita na imagem não tem outro destinatário além do próprio emissor dela, no sentido técnico, mas também conceptual. O destinatário aparente do fluxo comunicativo que tem como suporte a imagem, com o estatuto que adquiriu enquanto imagem televisiva, é o público, o público na sua máxima universalidade e diversidade, mas o destinatário ideal é o próprio sistema televisivo. A televisão trabalha para a televisão” .

Cria-se, assim, um circuito fechado sobre si mesmo, como que um redemoinho que vai engolindo progressivamente os telespetadores, inserindo-os num mundo virtual que a própria televisão vai criando. As atuais visões do mundo são, no essencial, «tele-visões». Visões essas que, por pretenderem ser totalizantes, transformam a realidade numa espécie de «nova criação», cujo deus é o próprio mecanismo anónimo televisivo – não é por acaso que o aparelho de televisão assumiu, em nossa casa, o lugar cultual cimeiro, substituto de todos os nichos ou crucifixos. Se um «antropólogo» de Marte nos visitasse, diria que aí estava o nosso deus – e o pior é que talvez tivesse razão.

Parece ser necessário, já em nome do ser humano e do seu equilíbrio e não apenas «em nome de Deus», inventar uma espécie de «ontologia do real», a qual defenda que, apesar de todas as interpretações do mundo segundo as quais este se nos torna acessível, existe um mundo diferente de nós e que não conseguimos reduzir completamente às categorias mais ou menos virtuais e imaginárias do nosso intelecto subjetivo – nem qualquer sistema virtualizante o consegue fazer. A realidade é mais complexa do que podemos pensar, saber e mesmo ver – muito mais, ainda, do que podemos tele-ver. Será urgente, pois, recuperar ou mesmo criar uma cultura do real e da profundidade do real – para além do virtual e da superficialidade da poluição informativa.

De facto, a omni-presença da tele-visão acaba por provocar a omni-ausência do mundo – sobretudo a total ausência do outro que me é próximo. Dá-se, em certo sentido, uma anulação do outro, por não se permitir que o seu olhar me atinja. Assim se elimina aquilo que é, segundo a análise do conhecido filósofo alemão Bernhard Waldenfels, a verdadeira condição de possibilidade de comunicação humana – o olhar e a voz do outro, que me interpelam a uma resposta, antes de todos os esquemas racionais, culturais e sistémico-consumistas . No mundo mediático não há olhar nem voz, já que toda a imagem e todo o som produzidos são em realidade produtos eletrónicos ou digitais, que acabam por se nos tornar presentes apenas enquanto tais, tornando ausentes os seus presumíveis autores. Em realidade, na televisão ninguém se mostra nem ninguém fala – é a própria televisão que a si mesma se mostra e por si mesma e de si mesma fala.

A isso corresponde, como não poderia deixar de ser, uma total ausência de escuta e de contemplação, por parte de um espetador que, sendo apenas tele-espetador, se torna mero elemento do mundo tele-visionado – e nunca um parceiro de escuta e de visão. O que equivale a dizer: com a tele-visão elimina-se a comunicação enquanto diálogo entre seres humanos reais e concretos. Porque o diálogo implica presença, relação, silêncio.

Não admira que Eduardo Lourenço, em tom algo profético, diga que o que parece urgente “é descobrir um refúgio, em suma, defender o «direito a não ser informado». Ou, com maior dose de provocação, o direito ao silêncio. Dir-se-á que é um «desiderato» fácil de atingir. Basta calar a rádio ou apagar o televisor. Possível como gesto individual ou utopia às avessas, esse cenário tem menor verosimilhança que o de imaginar deter as cataratas do Niágara ou de Iguassu” .