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ENCRUZILHADA: CRISTIANISMO E CULTURA ATUAL (6/6)

DUQUE, João, Cultura Contemporânea e Cristianismo
UC Editora, Lisboa 2004, 113-135

Epílogo: do ídolo ao ícone

No cerne da problematicidade da cultura atual está, sem dúvida, a metamorfose da contemplação na visão, a que corresponde um metamorfose da realidade contemplada no espetáculo da própria imagem, que vive em função da sua própria visão, numa projeção de si mesma ad infinitum. Por isso se fala, já, da instauração generalizada do homo videns, com tudo o que isso implica.

Ora, a visão definida apenas pelo espetáculo de si mesma e da sua imagem, pode ser identificada com o conceito de idolatria. Por seu turno, a contemplação da realidade na sua alteridade aproxima-se da orientação icónica para o real. Proponho pois que pensemos a atual cultura mediático-consumista à luz dos conceitos de ídolo e de ícone , por inspiração nas excelentes reflexões de Jean-Luc Marion e aprofundando, assim, as raízes filosófico-teológicas da proposta pastoral anteriormente apresentada.

Segundo o filósofo (e teólogo) francês, o que carateriza o ídolo é o seu caráter especular. De facto, o problema do ídolo não é propriamente a pretensão de ser Deus, de enganar alguém ou de, por isso, ocupar o lugar da transcendência que não lhe cabe, mas precisamente a anulação de toda a referência ao transcendente, enquanto algo exterior a si mesmo e ao ser humano que o vê. Funcionando como um espelho invisível, o ídolo limita-se a refletir aquele que para ele olha, devolvendo-lhe o olhar e, por isso, encerrando o processo de visão num vai-vem sem saída, sem referência a nenhum real exterior, mas apenas centrado na relação sujeito-ídolo (que acaba por ser relação sujeito-sujeito). O objeto da visão torna-se, assim, mero reflexo e refletor daquele que vê. A relação ao mundo passa a ser uma relação especular ou mesmo espetacular – isto é, de fascinação pelo espelho invisível, que funciona como primeiro e último visível. O processo do espetáculo constrói, assim, um mundo virtual, que em realidade é o mundo isolado do sujeito, tornando-se, por isso, num mundo idolátrico. O sujeito passa a viver nesse mundo, sem janela para o exterior.

O mundo do consumo e o mundo mediático funcionam do mesmo modo. Em realidade, apenas refletem o olhar ou o desejo de cada indivíduo, reenviando-lho e não lhe permitindo que assuma às janelas do seu ser, para contemplar o mundo exterior e o outro que nele vive. No fundo, a idolatria destes sistemas é ainda pior que a do espelho, já que, em verdade, não é o olhar nem o desejo do sujeito que nele se reflete, senão o desejo do sistema, que envia a sua imagem como se fosse o reflexo do consumidor ou do espetador, mas em realidade não o sendo. Ou seja, o mundo idolátrico do consumo e dos mass media nem sequer é o mundo fechado de cada sujeito, mas o mundo fechado do sistema que nele engole o sujeito, parecendo refleti-lo. O espelho ganha vida e cria as suas próprias imagens, nas quais o espetador pensa ver-se refletido.

O oposto do ídolo é o ícone. Este, diferentemente do espelho, é transparente como uma janela, de tal modo que a sua contemplação, em vez de reenviar o olhar para o sujeito que lhe é origem, transporta esse olhar para o exterior, quer do sujeito, quer do próprio ícone. Marion prefere utilizar a imagem do prisma, que não se limita a deixar passar o olhar, para além de si mesmo, mas que na transfiguração multifacetada do olhar e das cores, torna visível o invisível da realidade, a profundidade do seu sentido que nenhum espelho e nenhuma janela deixa ver. Em realidade, o ícone não marca o processo do olhar do ser humano para além de si mesmo ou do visível, mas uma inversão do olhar, de tal modo que o olhar que marca a nossa experiência do mundo não é o nosso olhar sobre o mundo e sobre o outro, mas o olhar do outro que nos fita e, nesse mesmo olhar, nos convoca a uma resposta responsável. Em realidade, na relação icónica ao real, enquanto relação contrária à relação espe(ta)cular, não somos nós que «vemos» o real, através dos nossos esquemas de visão ou das imagens que o mediatizam, mas é o próprio real, sobretudo o real do outro ser humano, que nos atinge e, desse modo, nos constitui naquilo que somos e conhecemos.

Se o espetáculo é igual ao ídolo e se vivemos os mass media como “espetáculo planetário permanente” , então vivemos global e permanentemente na idolatria – o que deveria dar que pensar, a quem se preocupa com a pastoral cristã na cultura atual. Reflexão essa que não se limita a questões sociais ou culturais, mas que se enraíza em profundas razões teológicas, que se prendem com o mistério originário do próprio Deus trino. É o que nos lembra Christoph Theolbald: “...A Igreja, no seio da sociedade e da história, oferece à experiência trinitária de Deus uma certa visibilidade, para não dizer uma publicidade. Esta corre o risco, contudo, de se deformar em espetáculo do mistério da santidade messiânica, cuja discreção é a verdadeira fonte do seu reinado paradoxal” . Se a «visibilização» e «publicitação» do próprio mistério do Deus trino constitui, precisamente, a missão da Igreja e deve marcar, por isso, toda a vivência cultural do cristianismo, o perigo da «espetacularização» deverá, por isso, marcar também a constante atenção dessa atividade eclesial, sem o que se tornaria infiel à sua missão.

Tal como veio sendo referido, a relação entre arte e cristianismo pode constituir um impulso importantíssimo na abordagem da cultura contemporânea e no trabalho da sua transfiguração contínua. Por isso e para terminar, analisarei mais de perto essa relação, vista enquanto relação entre fé e arte.

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