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ENCRUZILHADA: CRISTIANISMO E CULTURA ATUAL (5/6)

DUQUE, João, Cultura Contemporânea e Cristianismo
UC Editora, Lisboa 2004, 113-135

Cristianismo e permuta real-simbólica

A minha proposta para repensar um modelo – entre outros possíveis – de presença do cristianismo no contexto da cultura contemporânea vai, pois, no sentido diverso da habitual perspetiva de «adaptação» cultural ao mundo em que vivemos. Não discuto que o anúncio do Evangelho não é para outro mundo senão o nosso, que assume diferentes fisionomias conforme as épocas e os lugares. Contesto, isso sim, uma atitude teológica e pastoral que se limite a pensar que basta compreender os mecanismos de funcionamento do sistema que é cada cultura, ou dos seus subsistemas, para depois desenvolver estratégias de lançamento ou publicitação do Evangelho no interior desses sistemas, com a finalidade de aumentar as audiências e as correspondentes aderências. O efeito será, sem dúvida, de criar atenção dos sujeitos dessa cultura pela mensagem a que chamamos Evangelho, na medida em que essa mensagem vai ao encontro dos desejos e gostos ou interesses desses sujeitos.

O problema é que, segundo esse modo de funcionamento, nunca nos será possível colocar em questão o próprio sistema de cada cultura ou os sistemas sociais vigentes – apenas conseguimos dominar as suas respetivas técnicas. E, o que é teológica e pastoralmente mais sério, chegamos a um ponto em que já não saberemos se ainda será o Evangelho aquilo que anunciamos, ou apenas o eco, colorido com estilo ou atmosfera mais ou menos evangélicos, dos desejos e gostos dos nossos contemporâneos. Mas serão todos os seus desejos evangelicamente aceitáveis? E será o estilo de uma cultura o critério primeiro e último de toda a evangelização?

Frente a estas questões e a possíveis perigos correspondentes, penso ser importante assumir um desafio mais profundo e humanamente mais importante para a teologia e a pastoral. Trata-se, em última instância, de a Igreja se assumir como companheira do ser humano e das suas culturas, mas sobretudo enquanto companheira preocupada, por imperativo evangélico, com a mais autêntica humanidade do ser humano e da cultura. Em realidade, toda a teologia e toda a Igreja não podem demitir-se da sua responsabilidade pela Humanidade, da qual fazem parte e para a qual existem, em atitude de vigilância constante para que o ser humano não perca de vista a sua mais profunda e autêntica vocação.

A Igreja não pode limitar-se a pensar, na sua teologia e na sua pastoral, apenas em si mesma como instituição, esgotando todas as suas energias na eventual «propaganda» para conquista de membros e na organização cada vez mais elaborada, pormenorizada e eficaz das suas estruturas. E a Teologia não pode transformar-se em mera tecnologia publicitária, especializada em markting de ideias e atitudes religiosas. Deverá, antes de mais, questionar-se sobre o porquê e para quê das próprias estruturas eclesiais e depois, sobretudo, questionar-se sobre o próprio mundo, sobre a cultura em que se insere e sobre a validade humana e teológica dessa mesma cultura.

É nesse sentido que considero ser urgente não nos limitarmos à frequente atitude de nos sentirmos constantemente «rebocados» pela nossa cultura, à qual temos sempre que nos adaptar, mas avançar para um trabalho corajoso, por vezes imediatamente inglório – como sempre foi a intervenção dos profetas – mas muitas vezes pioneiro, de leitura crítica da nossa cultura, sabendo ver nela os elementos positivos e negativos e anunciando o Evangelho como alternativa a muitos dos seus becos sem saída. E isso não propriamente em nome de qualquer ideologia religiosa, mas em nome da própria dignidade do ser humano, sobretudo em defesa daqueles que são constantemente vitimados ou marginalizados pelos sistemas culturais.

Concretamente, na análise anteriormente feita centrei-me mais em alguns aspetos altamente problemáticos da cultura atual. É preciso, pois, assumir coragem profética de propor a Boa Nova evangélica como alternativa a esses modelos. Mas é preciso que essa proposta não seja mera visão ideal – o que já é muito importante, num mundo vazio de valores humanos fundamentais – mas que consiga inventar formas culturais novas e adequadas, mesmo institucionalmente apoiadas, para constituir alternativa ao «mediatismo consumista» de uma cultura que cada vez mais vai engolindo, alegre e entusiasticamente, a própria humanidade do ser humano, que fascinadamente se deixa absorver.

Ora, um dos elementos centrais do anúncio do Evangelho no mundo atual poderá passar pela recuperação ou mesmo invenção nova daquilo a que poderíamos chamar o homo symbolicus. De facto, o homo virtual, marcado pela tele-visão, torna-se monolítico, para além de fictício. Por isso, vai deixando de ser homo symbolicus, isto é, marcado pela permuta simbólica compreendida como relação total, real de si mesmo com o outro e com o mundo. Passa a ser um homem reduzido a facetas isoladas e virtualizadas, enquanto elemento de permuta consumista. O problema já não é apenas o da anulação do homo sapiens (embora esse já seja um problema suficientemente grave, mas ainda muito centrado na preocupação racionalista pelo saber) ; o problema está sobretudo na anulação da capacidade simbólica (corporal-espiritual) do ser humano, que passa a ser mero conjunto de signos funcionais, num sistema de permuta consumista, totalmente virtual e artificial (isto é, inumano).

Por isso, a construção do homo symbolicus terá que passar pela construção de uma «cultura táctil» e de uma «cultura da escuta», que implica o silêncio – para além da tele-visão e da profusão da palavra como obrigação de comunicar sem comunicação. A «cultura táctil» corresponde àquela forma de vida que dá primazia à relação «corpo a corpo», isto é, à relação com o rosto do outro que se encontra frente a mim, numa proximidade que diretamente me interpela.

Trata-se, por isso, de uma relação que leva em conta a pessoa do outro na sua totalidade simbólica, também e essencialmente corporal, e não apenas a partir de um sistema de signos consumistas que lhe atribuam – ou retirem – qualquer valor. Só o respeito pelo rosto nu do outro concreto – sem atributos de consumo, sem máscaras de aparência mediática e mesmo sem ocultações retóricas – é que permite acolher o outro naquilo que ele é, isto é, como pessoa humana, nem mais nem menos. E só uma solidariedade que tenha em conta o outro por aquilo que ele é, enquanto pessoa humana concreta, enquanto vizinho ou «próximo», é que pode ser considerada uma solidariedade evangélica, ou melhor, aquilo a que Eduardo Lourenço chama a “versão evangélica de todas as solidariedades, aquela que a parábola do Samaritano ilustrou de uma vez para sempre” . Trata-se, pois, de uma relação de solidariedade e respeito pelo outro concreto, muito além ou aquém da mediatização tele-visiva, que tudo digitaliza em «bits», todos iguais uns aos outros. E trata-se de uma solidariedade que exercita a escuta atenta do rosto mudo daquele que, frente a mim ou ao meu lado, não tem voz social para ocupar tempo mediático, mas fala no seu silêncio de sofredor. Em suma, é uma solidariedade que «não dá nas vistas», porque não existe para parecer – apenas para ser o que é.

Falar de cristianismo no contexto da cultura atual terá, pois e entre outros aspetos aqui não referidos, que passar por um confronto sério com a cultura da virtualização consumista mediática. Por um lado, teremos que estar conscientes que cada vez mais as pessoas se aproximarão da Igreja de forma consumista, como quem se abastece no mercado, consoante as necessidades subjetivas do momento. E não faltam opções pastorais de estilo consumista – só falta saber se são pastorais.

Mas a proposta alternativa terá que ir para além daqueles que frequentam os espaços já «ocupados» pala Igreja institucional tradicional. A problemática em questão é global e afeta todo o ser humano, não apenas os cristãos praticantes. E afeta o ser humano enquanto humano, não apenas enquanto cristão. Ou seja, a atitude consumista não desvirtua apenas o cristão, na sua identidade, mas desvirtua todo o ser humano na sua identidade de humano. Por isso, a intervenção alternativa da Igreja não se poderá limitar aos «de dentro» – mesmo que, já aí, seja de central importância – mas terá que marcar presença ativa, despreconceituada e corajosa no mundo real e quotidiano partilhado por todos os nossos concidadãos.

A denúncia do sistema que cria o homo consumens é, portanto, tarefa de todo o ser humano que se assume como tal, na sua responsabilidade pelos outros, e é tarefa de todas as instituições que se consideram, em sentido geral, humanistas. A proposta do Evangelho, nesse sentido e em todo o seu radicalismo, é uma das mais válidas, que precisa de ser claramente assumida como tal, sobretudo por aqueles que a ela estão ligados e que têm como missão existencial anunciá-la.

A arte é um possível modelo desta presença real-simbólica, corporal-material e significante, sem se tornar em mero simulacro de sinais vazios de realidade. Mesmo quando a arte usa, atualmente, também meios multimediáticos de virtualização, fá-lo no contexto de uma obra que se nos apresenta sempre como obra real, instauradora de um mundo real, mesmo que muitas vezes seja de um real utópico. Fica, assim, longe da virtualização consumista própria do mundo mediático como tal.

De um modo especial a arte contemporânea acentua, mesmo, a dimensão performativa, isto é, de ação e acontecimento envolvente do corpo, como alternativa artística a uma realidade toda ela «esteticizada» segundo o modelo do simulacro virtual e imaginário. No mesmo sentido, o império da visão, típico de uma estética renascentista e moderna (com base na perspetiva ou no «ponto de vista») e que entretanto abandonou o campo restrito da arte para se absolutizar em todas as esferas da sociedade, transformando toda a realidade em espaço visual, começou a ser superado pela própria arte, sobretudo por aquela que recorre a novas tecnologias, na medida em que esta acentua cada vez mais a orientação e articulação da experiência táctil.

Por outro lado, o rigor da arte em todas as suas manifestações e estilos obriga-nos a assumir a verdade da realidade, nua e crua, sem subterfúgios fáceis nem embelezamentos ilusórios. Por isso, a arte pode constituir natural aliado da evangelização. Mas porque todas as artes também são utilizáveis – e frequentemente utilizadas – pelo mecanismo do consumo, transformando as obras em meros objetos de consumo ou promotores desse consumo, é preciso aliar-se à arte segundo um critério trans-consumista, pelo qual lutam explicitamente muitos artistas contemporâneos.

Mas, modelos de presença real-simbólica são-no também os sacramentos, que podem neste sentido ser concebidos segundo o modelo da obra de arte. A Eucaristia é, entre todos os sacramentos, o exemplo mais claro de uma referência relacional com caraterísticas simultaneamente reais e simbólicas, numa imprescindível referência ao corpo . E, por ser ação real, é sempre uma ação com e para o próximo – não (ou não apenas nem sobretudo) com e para o distante, meramente televisionado. A proximidade corporal que marca toda a ação eucarística, sendo proximidade de uma distância originária que não podemos abarcar mas que nos é mais próxima e íntima do que nós somos a nós mesmos, constituiu profunda transformação da cultura da distância, tornada apenas virtualmente próxima através de um aparelho que finge tornar o mundo presente, mas o afasta cada vez mais.

Em realidade, a distância tele-visionada é uma distância falsa ou apenas aparente, porque em realidade acaba por se apoderar do realmente outro, quer das pessoas quer da natureza e das culturas. Apodera-se dele, transformando-o em imagem e tornando-o, assim virtualizado, propriedade de cada um, que dele pode dispor à vontade, sentado num cómodo sofá e ao sabor dos botões de um comando eletrónico. Mas a verdadeira distância do outro real que nos está próximo, que está diante de nós, é a distância de um ser inabarcável, digno de respeito na sua diferença em relação a mim. E é essa distância que só podemos experimentar na sempre incómoda presença corporal do outro diferente de nós e dos nossos esquemas intelectuais e existenciais. A Eucaristia, conjunto de símbolos sensoriais que marcam a distância do próximo e a proximidade do distante, é modelo de relação, contra todos os racionalismos, idealismos e virtualizações.

Nisto, quer a arte quer os sacramentos correspondem a um elemento central da identidade cristã que é precisamente a Incarnação. Para melhor poder entender o papel desse elemento identificante na problemática que nos ocupa, poderá ajudar-nos uma leitura inspirada na que o filósofo alemão Odo Marquard faz da história ocidental, à luz do princípio de «ficção». Segundo esse subtil analista, a história do ocidente é a história da progressiva transformação das suas realidades básicas em ficções. Esse processo dá-se para compensar o problema da aniquilação escatológica do mundo. Ou seja, dado o mal que existe no mundo, com saliência para o pecado, este mundo é «condenado» escatologicamente por Deus. Durante um largo período, considerou-se ser o próprio Deus que o salva dessa condenação, redimindo o mundo em Jesus Cristo. Mas a modernidade não pôde aceitar mais essa redenção, pois não parecia compaginável com as capacidades e mesmo com a liberdade e autonomia humanas; por isso, escolheu outra via: a de tornar fictício o próprio Deus, já que era ele o originário juiz do mundo (daí resultou a famosa «morte de Deus»). Pensou-se desse modo que, anulado o juiz, seria anulada a condenação do mundo.

Mas o resultado não foi propriamente satisfatório, já que o mundo sem Deus – sem o Deus condenador e sem o Deus salvador – também não parecia ser muito agradável. A responsabilidade de solucionar o problema ficou, contudo, entregue apenas ao ser humano, já que a hipótese «Deus» estava fora de hipótese. Incapaz de resolver o problema do mal, do sofrimento e da culpa, o ser humano foi também alvo do mesmo processo de ficção. Passou a ser mero fantoche no interior de sistemas sociais, ou mero boneco de impulsos subconscientes, produto de traumas educacionais, etc. Sendo assim, deixou de haver alguém verdadeiramente culpado de seja o que for que haja de mal na nossa realidade. E deixou de haver, pela mesma razão, alguém livremente responsável por transformar essa mesma realidade (deu-se, assim, a «morte do Homem», enquanto «morte do sujeito» moderno, responsável por tudo).

Mas a realidade continuou a existir e o mal e o sofrimento também, com manifestações cada vez mais gritantes – ou pelo menos tão graves como anteriormente. Restava apenas uma solução: tornar a própria realidade, o próprio mundo, com o seu lado negativo, em mera ficção. E assistimos à transformação consumista e mediática da realidade real – também com o seu lado duro e inaceitável – em realidade virtual (constatamos aquilo a que poderia chamar-se a «morte da realidade»). Esta «virtualidade», por seu turno, não permite que sejam vistos os aspetos incómodos da realidade, reduzindo assim a capacidade de visão do próprio homo videns. Ou seja, somos salvos da condenação eterna de nós mesmos e do mundo, porque nós mesmos já não somos e o nosso mundo deixou de ser mundo e passou a ser uma ilusão que dele constantemente construímos – ou nos constroem, para consumirmos.

Ora estaríamos, assim, precisamente nas antípodas de uma teologia cristã da Incarnação, segundo a qual o ser humano e o seu mundo foram assumidos e bem-ditos por Deus, tal como são e na sua mais profunda vocação. Por isso, a realidade não foi assumida sob ilusório esquecimento ou embelezamento da sua face negativa, o pecado, que em si reúne toda a negatividade do real. Essa face foi também assumida por Deus – na luta contra ela, é verdade, mas sem a ela ilusoriamente fugir. O referido filósofo alemão defende que à arte compete, atualmente, reconduzir-nos à experiência do mundo real, provocando a des-ilusão do meramente fictício, através de uma mostragem daquilo que no mundo fictício não é visto – ou daquilo que não é escutado, como o silêncio dos sem-voz; provocando a contemplação do nunca visto e a escuta do inaudito.

Penso que se possa exigir algo semelhante de uma evangelização atual, que se pretenda realmente em nome do Evangelho e do Deus incarnado em Jesus Cristo, que não é outro senão o “Deus criador que não se comporta negativamente mas positivamente em relação ao mundo: não como seu aniquilador, mas como seu afirmador” , para retomar palavras claras do próprio filósofo.

A evangelização na e da cultura atual terá que passar, entre outros aspetos, pela tomada de consciência destes elementos problemáticos da nossa cultura atual e de uma transfiguração dos mesmos, no sentido de algo a que nenhuma evangelização pode renunciar, sem desvirtuar o evangelho: ser anúncio de salvação, «corpo a corpo», isto é, para o ser humano real, considerado na sua globalidade e enquanto pessoa concreta e insubstituível – não anúncio mediático de uma doutrina virtualizada publicitariamente a um ser simulado à distância, que parece, mais do que é.