• 230x230 PDS 1054230x230 PDS 1059230x230 PDS 1066
    © Pedro Duarte Silva
  • 230x230 PGS 0068230x230 PGS 0554230x230 PGS 0384
    © Pedro Grandão
  • 230x230 PGS 0197230x230 PGS 0266230x230 PGS 0245
    © Pedro Grandão
  • 230x230 PGS 0757230x230 PGS 0653230x230 PGS 0707
    © Pedro Grandão
  • 230x230 PGS 1039230x230 PGS 0911230x230 PGS 0944
    © Pedro Grandão
  • 230x230 PGS 0098230x230 PGS 0044230x230 PGS 0243
    © Pedro Grandão
  • 230x230 PGS 0053230x230 PGS 0067230x230 PGS 0376
    © Pedro Grandão
  • 230x230 PGS 0142230x230 PGS 0549230x230 PGS 0383
    © Pedro Grandão
ENCRUZILHADA: CRISTIANISMO E CULTURA ATUAL (4/6)

DUQUE, João, Cultura Contemporânea e Cristianismo
UC Editora, Lisboa 2004, 113-135

À escuta do silêncio

De facto, o silêncio tornou-se algo proscrito, na nossa cultura mediática. Um analista perspicaz como David le Breton considera que, na atualidade mediatizada, “o pecado... é ficar calado... Mais do que o ruído, o silêncio é o inimigo reconhecido do homo communicans” . Só que isso levanta a questão da autenticidade desse homo communicans, isto é, falta saber se ainda é homo e se verdadeiramente é communicans, enquanto homo loquens, ou se é meramente produtor de ruídos. Porque o homo loquens, sem a escuta do silêncio daquilo que não pode ser dito e que é talvez o mais importante, acaba por nada dizer de humano, chegando mesmo a colocar em risco a sua humanidade. Diz o mesmo Le Breton: “O imperativo de dizer «tudo» dissolve-se na ficção de que tudo foi dito, mesmo se deixar sem voz aqueles que teriam coisas diferentes a dizer, ou teriam escolhido um discurso diferente. Dizer não é suficiente, nunca é suficiente, se o outro não tiver tempo para ouvir, para assimilar, para responder” . A atual cultura do palavreado ou do ruído constante não permite «escutar a outra parte», mesmo quando ela se cala e fala através do seu silêncio. É um interdito a que assistimos diariamente e de forma típica nos debates televisivos ou mesmo em muitas reportagens. Tudo porque o silêncio é proibido.

Segundo a interessante observação de Le Breton, “o único silêncio que a utopia da comunicação conhece é o silêncio da avaria, da falha da máquina, da paragem da transmissão. É mais o cessar da tecnicidade do que o aparecimento de uma interioridade” . A cultura televisiva eliminou, portanto, a possibilidade do «tempo morto», cujo silêncio era também oportunidade de surgir algo novo, criativo, seja ao nível da reflexão, seja ao nível da relação inter-pessoal, seja ao nível do lúdico e do artístico. A criança que tinha que inventar modos de ocupar esse tempo, criando jogos e relações, deixou de ter esse trabalho, já que a televisão o faz por ela, evitando que possua um só segundo do tal «tempo morto». Mas porque é preciso encher todos os segundos, deixa de ter interesse o conteúdo desse preenchimento. O único imperativo categórico que parece ainda restar é que o tempo seja ocupado – com sons e com imagens que, no seu aglomerado mais ou menos arbitrário, sem preocupações de conteúdo, passam a encher o tempo mais ou menos como o lixo enche o caixote.

Atingimos, assim, a poluição do tempo, como poluição do silêncio, pelo ruído infinito de uma televisão ligada, cuja avaria cria um vazio na vida que nada parece poder já preencher. E como será com os adultos de amanhã, crianças de hoje que crescem sob a ditatorial proibição do silêncio? Serão capazes de ouvir algo? E mesmo que ouçam, ainda conseguirão escutar? E chegarão a ter suficiente tempo e suficiente silêncio para pensar e imaginar ou inventar formas novas de cultura, que tornem o nosso mundo mais humano? Ou limitar-se-ão a reagir, como a um jogo de computador, a tudo aquilo que uma cultura já preenchida lhes imporá a cada segundo?

Aliás e por mais paradoxal que pareça, com o desaparecimento do silêncio vai desaparecendo também a linguagem. De facto, porque o preenchimento do silêncio se dá de forma unilateral, de um meio técnico para um ser humano, o meio técnico rouba ao ser humano a possibilidade de dizer. E, sem uso prático da linguagem, esta vai definhando. Há mesmo quem fale de uma «perda da cultura da linguagem». Com a agravante de, sem silêncio para poder pensar o que se diz, não se chegar a ganhar capacidade de formular o que se pensa. E, quem não é capaz de dizer o que pensa, acabará muito provavelmente por deixar mesmo de pensar e de dizer, depois de ter deixado de pensar o que diz.

Talvez seja necessário desenvolver uma alternativa a esta «ontologia do ruído constante», isto é, a esta visão do mundo e do ser como constante e puro dizer, mesmo que nada se diga, já que o conteúdo não importa, nem importa que seja eu a dizer, já que o que conta é que algo seja dito por alguém, ou melhor, por algo; ou então, como constante e puro sonorizar, já que também nada importa o conteúdo dos sons, desde que ocupem o incómodo e provocante vazio do silêncio.

Mas qualquer alternativa teria que ser tão fundamental como o é a ontologia do ruído – teria que ser uma «ontologia da escuta ou da atenção». Ou seja: tratar-se-ia de uma conceção do real e do ser com base no seu acolhimento e reconhecimento como constante dom: o nosso ser como dom do outro; eu e o outro como dom de um dador originário; toda a realidade como doada para ser acolhida, no silêncio de quem escuta a sua verdade profunda. A escuta é, pois, condição necessária de conhecimento e de reconhecimento – do mundo, do outro e de si mesmo.

No contexto que aqui nos ocupa, é sobretudo importante salientar a capacidade de escuta do silêncio do outro como condição básica do seu reconhecimento, na sua alteridade e na sua diferença em relação a nós. O que cada um é está para além ou é mais do que aquilo que ele expressamente diz. O que já é verdade mesmo para quem nunca se cala e tem todos os púlpitos do mundo para espalhar a sua retórica infinda – mesmo esse é mais do que o que diz e só a capacidade de escutar o seu parco silêncio possibilita reconhecê-lo naquilo que é (o que raramente fazem os parceiros de um debate, por exemplo, que pensam «vencer» pela quantidade de tempo que ocuparem o microfone).

Mas isto é ainda muito mais verdade em relação aos que não falam, ou porque não têm dom de palavra ou porque não têm acesso aos meios de divulgação, ou porque o que dizem é demasiado incómodo (outros diriam, sem interesse noticioso). O caso mais extremo é o das vítimas inocentes, cuja inocência fica no total desconhecimento, porque ninguém a diz – e, por isso, ninguém a escuta, uma vez que ninguém está habituado a escutar o seu silêncio. A escuta é, pois, mais do que passividade negativa, um ato de reconhecimento e acolhimento do outro, sobretudo no seu silêncio mais eloquente.

Tudo isto terá, necessariamente, profundas repercussões para a ação do cristianismo que, segundo as palavras – mesmo se mais otimistas, na circunstância – da Gaudium et Spes, não “ignora quanto recebeu da história e evolução do género humano” (nº 44), já que é precisamente em função do ser humano, como Criatura de Deus, que ele existe.