• 230x230 FC 0009230x230 FC 0073230x230 FC 0061
    © Filipe Condado
  • 230x230 PGS 0126230x230 PGS 0771230x230 PGS 0056
    © Pedro Grandão
  • 230x230 FC 0068230x230 FC 0076230x230 FC 0064
    © Filipe Condado
  • 230x230 FC 0066230x230 FC 0002230x230 FC 0007
    © Filipe Condado
  • 230x230 PGS 1267230x230 PGS 0957230x230 PGS 0460
    © Pedro Grandão
  • 230x230 FC 0080230x230 FC 0081230x230 FC 0079
    © Filipe Condado
  • 230x230 FC 0031230x230 FC 0082230x230 FC 0078
    © Filipe Condado
  • 230x230 CNE 0017230x230 CNE 0140230x230 CNE 0145
    © CNE
  • 230x230 CNE 0045230x230 CNE 0049230x230 CNE 0016
    © CNE
  • 230x230 PGS 1265230x230 PGS 0815230x230 PGS 1266
    © Pedro Grandão
DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA (1/2)

RODRIGUES, António dos Reis, A Dignidade da Pessoa Humana e os Seus Direitos
Pesquisa sobre os direitos fundamentais do homem, Princípia: 2008, 10-15.

Fixar o olhar em Jesus

Ao iniciar o presente livro, que tenta modestamente captar no Novo Testamento, onde se regista o pensamento de Jesus Cristo acerca daquilo que mais tarde se desenvolveria e se chamaria a doutrina social da Igreja, não declarada sob a forma sistemática, mas consoante as circunstâncias com que Jesus e os seus Apóstolos eram instados a apresentá-la, fixemos o olhar no próprio Jesus, a Quem devemos um dos mais necessários e atuais aspetos da sua mensagem sobre o homem vivendo em sociedade. São Paulo escreve: «Ele [o Pai], que nem sequer poupou o seu próprio Filho, mas O entregou por todos nós, como não havia de nos oferecer tudo juntamente com Ele?» . E São João: «É nisto que está o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele mesmo que nos amou» .

O amor de Deus é a mais íntima intervenção d'Ele em toda a sua obra. Se foi por amor que tudo foi criado, é por amor que igualmente o homem foi criado. «Deus é amor», diz, noutro lado, São João , e toda a vida do homem não tem o mínimo sentido se não for inteiramente a expressão do amor de Deus. Até o pecado não é senão a prática de um ato que, antes de ser praticado, pensávamos falsamente que, de uma forma ou de outra, seria o do amor ou de alguma aparência que o imitasse. De tal modo que «todo aquele que quer ser amigo do mundo torna-se inimigo de Deus», afirmação que São Paulo diria de outra forma, solicitando que não nos acomodemos ao mundo, mas, pelo contrário, nos deixemos transformar, pela aquisição de uma nova mentalidade, para podermos discernir qual é a vontade do próprio Deus acerca do que somos e valemos .

E Ele, Deus, mais do que nós próprios, conhece o que verdadeiramente somos. Como diz o quarto Evangelho, Jesus «não precisava que ninguém O elucidasse acerca das pessoas, pois sabia o que havia dentro delas» . Jesus, Deus feito homem, lia dentro de nós mesmos e sabia a maravilhosa grandeza de cada homem.

Ninguém o sabe, ou melhor, ninguém o saberia, a não ser Aquele que nos criou e sempre nos amou, «levando o seu amor até ao fim». Mas Jesus deu a sua vida por nós, de tal maneira que a nossa salvação, tal como a nossa dignidade, já agora na vida terrena como na eternidade, se deve à sua morte na cruz e, ao terceiro dia, à sua ressurreição. São Paulo diz que «fomos comprados a pronto pagamento» . E, na verdade, o fomos. O preço que valemos foi o derramamento do seu sangue, de que todos beneficiamos e, dizendo todos, queremos significar cada homem, cada mulher, cada criança, porque o amor de Deus não conhece limites. Todos, sem exceção, estavam presentes no coração de Cristo, ainda os que O condenavam ou conduziam ao Calvário.

Esta é a feliz notícia que nos chega das Sagradas Letras: «Tal a mensagem que ouvimos de Jesus», anota São João, «e vos anunciamos: Deus é luz e n'Ele não há nenhuma espécie de trevas. Se dissermos que estamos em comunhão com Ele e andamos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Mas, se andarmos na luz, como Ele se encontra na luz, estamos em comunhão com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, purifica-nos de todo o pecado». Se, pois, estamos em comunhão com Jesus, estamos em comunhão uns com os outros. Os gregos tinham como verdade suprema a legenda «Conhece-te a ti mesmo», esculpida no Templo dos Delfos. Muito mais sucede com os cristãos. Para se conhecerem a si mesmos, precisam de conhecer anteriormente o mistério de Cristo e o valor pessoal dos homens, o qual foi afirmado e pago pela sua morte, tão cruel. No entanto, já os Apóstolos tinham entendido que, em Cristo, todos os homens eram iguais em dignidade, e por isso eram pessoas, como bastante mais tarde se veio a fixar. São Pedro, por exemplo, afirma: «Vós sabeis que não é permitido a um judeu ter contacto estrangeiro, ou vir a sua casa. Mas Deus mostrou-me que não se deve chamar profano ou impuro a homem algum. Era já o primeiro reconhecimento entre os fiéis de que todos os homens eram dignos de respeito, pois havia neles uma natureza, não apenas semelhante, mas igual.

O Evangelho de São Mateus, no capítulo 23, afirmara-o já numa forma de grande solenidade: «Quanto a vós», diz Jesus a um fariseu, «não vos deixeis tratar por "mestre", pois um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos. E na terra, a ninguém chameis "Pai", porque um só é o vosso "Pai": Aquele que está nos Céus» . Temos, neste passo, duas afirmações preciosas: que Deus é o nosso Pai, de Quem os homens, todos os homens, merecem a graça de ser filhos; e que os homens, todos os homens, são irmãos. Não há pobres nem ricos, nem gente culta ou ignorante. Em vez de os distinguirmos, utilizando meros critérios mundanos, somos obrigados a considerá-los todos igualmente irmãos nossos, membros portanto de uma só família, que é a nossa e a deles. «É que em Deus não existe aceção de pessoas.»