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DAR CORPO AO VERBO (1/5)
A PROPÓSITO DO MEMORIAL DO PAPA AOS BISPOS PORTUGUESES

CORREIA, José Frazão, Dar Corpo ao Verbo
in «Brotéria», vol. 166, Braga: fevereiro 2008, 111-125

1. O texto papal como motivo

Tomo como motivo para este texto o discurso de Bento XVI aos Bispos portugueses, na conclusão da Visita ad Limina, a 10 de novembro de 2007.

Com palavras sugestivas, o Papa inicia o seu discurso invocando a encarnação como princípio crítico de verificação da experiência crente. Para cada batizado, entrar e permanecer em Cristo, a «Casa dos seus desejos mais profundos e verdadeiros», significa dar corpo ao Verbo, para que a vida do Verbo que irrompe nele transborde para outros. Por outras palavras, recorda-se que a verdade da fé em Cristo se afere pela forma como a própria vida de Cristo se torna operativa, estruturando a existência. Nesse dar corpo ao Verbo forma-se o Corpo de Cristo que é a Igreja.

Enumerados alguns passos significativos dados pela Igreja portuguesa no espírito do último jubileu, faz-se eco da «confissão mais frequente nos lábios dos cristãos»: a falta de participação na vida comunitária. Ocorre, por isso, empenhar-se em «construir caminhos de comunhão», pelos quais, também aqui, se dê corpo efetivo à eclesiologia do Vaticano II. Recorde-se como na Lumen Gentium a Igreja, deixando de sublinhar a sua unidade monolítica e seus representantes diretos, exprime o seu mistério em termos de comunhão e dinamismo, salientando para isso as suas raízes trinitárias e a sua configuração cristológica (capítulos 1 e 2). No presente discurso, o Papa coloca «o ponto de partida da comunhão» em Jesus Cristo, lugar onde Deus e o ser humano se encontram. E, por isso, o lugar onde verdadeiramente a experiência de fé se dá. De facto, é no «encontro com um acontecimento», Jesus Cristo, que a fé se inicia. Não como uma «decisão ética ou uma grande ideia». Compreende-se, pois, que Bento XVI recorde que a Igreja «não deve viver para si mesma» nem discutir «sobre qual dos membros da comunidade seja o primeiro», uma vez que a missão de todo o corpo é aquela de indicar o seu Senhor, para que o encontro efetivo com Ele possa acontecer.

Ora, é à luz da convicção de que a Igreja nasce e se constitui como espaço humano de encontro efetivo com e em Cristo - «a Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano» (LG 1) – que se deve analisar a «maré crescente de cristãos não praticantes» nas dioceses portuguesas. Curiosamente, a Igreja é convidada, não a procurar fora os possíveis motivos para a existência crescente de «cristãos não praticantes», mas a verificar dentro – como quem se dispõe e se expõe a pôr-se em causa pelo exame da consciência crente e das práticas crentes – até que ponto a sua vida interna promove e conduz à experiência de encontro com Jesus Cristo que, sendo significativa, dá forma à existência.

Motivado por este texto, enuncio alguns pontos que me parecem poder contribuir para o «exame» mais profundo a que o Papa convida a Igreja em Portugal. A reflexão que proponho, de forma ainda bastante crua, procurará dar curso ao acento que Bento XVI põe na encarnação e na experiência, humanamente significativa, do encontro com Cristo. Procurarei sublinhar o facto de que, hoje, levar a sério a dinâmica da encarnação significará afrontar a crise profunda que toca a ligação entre a fé e os «lugares» da vida humana elementar. De facto, reafirmar a centralidade do encontro com Cristo não poderá não considerar o corpo humano concreto no qual esse encontro há de dar-se. Em segundo lugar, procurarei indicar como é próprio da fé cristã elevar e contestar os lugares do humano. Não de fora nem de cima, mas assumindo radicalmente toda a sua densidade e complexidade. Seguidamente, apontarei para a forma e a força do contacto de Jesus com a nossa realidade e o estilo dos seus encontros. Para que nessa forma, força e estilo se possa reaprender, em Igreja, a tocar e a sentir o mundo como Deus o toca e sente em Jesus e a promover encontros no Espírito como o Senhor o deseja.