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DAR CORPO AO VERBO (2/5)
A PROPÓSITO DO MEMORIAL DO PAPA AOS BISPOS PORTUGUESES

CORREIA, José Frazão, Dar Corpo ao Verbo
in «Brotéria», vol. 166, Braga: fevereiro 2008, 111-125

2. Ascensão e declínio de um mundo

O meu avô mudava de botas para ir à Missa. Calçava as pretas, só para os Domingos e Festas de Guarda. Atravessando o adro, tirava o chapéu. E assim, com botas limpas e cabeça nua, podia entrar na Igreja da freguesia. Era simples o ritual. Mas, como ritual que era, configurava e condensava um mundo de formas e de representações bem ordenado. No alto, Deus omnipotente. Dele emanava o sentido majestoso do sagrado. A Ele se submetiam todas as coisas porque todas as coisas vinham d'Ele. Só a Ele se podia dirigir para obter o que de outro modo seria impossível: cura, proteção, redenção. Não diretamente, mas por intercessão da Virgem e dos santos. E pela mediação dos sacerdotes. E assim, nesta fé, se dava sentido a sacrifícios e agruras e se chegava a bendizer a vida mortificada. Porque não caía folha que Deus não permitisse.

Este mundo antigo nascera, espiritual e intelectualmente, no já longínquo mas extraordinário e poderoso encontro entre a revelação cristã e o helenismo mediterrânico. Depois, com o decorrer do tempo e as vicissitudes históricas, o cristianismo assumiu visibilidade espacial. Com monumentos, liturgias, calendário, formas de arte e de vida determinou as coordenadas do quotidiano e, com códigos morais, estabeleceu uma conduta comum. Entrando nas estruturas sociais, políticas e culturais tornou-se religião civil. Determinando o tempo e configurando o espaço, afirmou-se como cristandade. Viveu da representação hierárquica e sacramental da verdade, do bem, da unidade. Elevou o espírito sobre o corpo e os sentidos, o eterno sobre o temporal, a vontade e a ascese sobre as emoções, a unidade sobre as opiniões, o hierárquico sobre o democrático. E assim se viu e determinou como sociedade perfeita de um mundo superiormente estabelecido.

A afirmação progressiva da época moderna vem contestar e contrastar aquele mundo. Não sem o contributo decisivo do próprio património cristão: dignidade do homem e da mulher, bondade do corpo, encarnação do espírito, poder e dever compreender e construir o mundo, poder e dever responder pela vida própria e alheia, esperança que o melhor ainda está para vir. Mas não foi fácil aceitar e integrar a emancipação da razão face à religião. Nem a contestação da verdade universal. Nem a crise das representações religiosas e civis do poder legítimo. Nem a reivindicação das liberdades individuais. Ninguém assiste impassível ao desfazer-se do chão que sustém os próprios passos nem ao apagamento do céu que lhes serve de guia. Já Nietzsche, que de Deus decretou a morte e que um mundo novo profetizou, o sabia bem. Mas aquele mundo antigo, resistindo até ao meu avô, no Ocidente, chegou ao seu ocaso. Irremediavelmente. O mundo que hoje nos é dado a viver é, sem dúvida, um mundo pós-cristão. Na praça de possibilidades técnicas e científicas, de ideias, organizações e ofertas espirituais, o cristianismo parece ter perdido força e originalidade. Aparece cada vez mais como realidade do passado, esfumada no tempo. Situado aquém ou além das formas e práticas que configuram o mundo contemporâneo, se ainda for evocado, é como lembrança de um tempo ido, citação de uma passagem.