• 230x230 PDS 1054230x230 PDS 1059230x230 PDS 1066
    © Pedro Duarte Silva
  • 230x230 PGS 0068230x230 PGS 0554230x230 PGS 0384
    © Pedro Grandão
  • 230x230 PGS 0197230x230 PGS 0266230x230 PGS 0245
    © Pedro Grandão
  • 230x230 PGS 0757230x230 PGS 0653230x230 PGS 0707
    © Pedro Grandão
  • 230x230 PGS 1039230x230 PGS 0911230x230 PGS 0944
    © Pedro Grandão
  • 230x230 PGS 0098230x230 PGS 0044230x230 PGS 0243
    © Pedro Grandão
  • 230x230 PGS 0053230x230 PGS 0067230x230 PGS 0376
    © Pedro Grandão
  • 230x230 PGS 0142230x230 PGS 0549230x230 PGS 0383
    © Pedro Grandão
DAR CORPO AO VERBO (3/5)
A PROPÓSITO DO MEMORIAL DO PAPA AOS BISPOS PORTUGUESES

CORREIA, José Frazão, Dar Corpo ao Verbo
in «Brotéria», vol. 166, Braga: fevereiro 2008, 111-125

3. A fratura entre a fé cristã e a vida humana elementar

A sensibilidade mais ou menos partilhada e que hoje preside à avaliação espontânea de situações e acontecimentos faz prevalecer a vida concreta e imediata sobre as ideias, as emoções sobre o intelecto, a transgressão sobre a transcendência. O momento feliz e intenso, aqui e agora, sobressai claramente sobre a eternidade, tal como a pluralidade sobre a unidade, ou o sentimento sobre a vontade. Potenciar novas experiências prevalece sobre a moral ascética e proibitiva. A abertura ao possível e a vertigem do instante sobressaem sobre a iniciação exigente à escuta de uma possível verdade do ser e da existência.

Nesta nova paisagem contemporânea, o sinal maior da crise parece-me exprimir-se na fratura entre a fé cristã e os lugares e ritmos da existência humana quotidiana e elementar. Trata-se de um rasgão aberto no tecido de que é feita a vida concreta e que separa dramaticamente trabalho e oração, gestos quotidianos e rito sagrado, vida sensível e participação na vida do espírito, dizer e tornar operativo, palavra Deus e ressonância afetiva e efetiva de um apelo absoluto. Saber e poder articular as duas margens pelo meio das quais passa o caudal da existência, sempre mais apressada, sempre mais líquida, sempre mais instável e, talvez, também, sempre mais insatisfeita, deixou de ser sabedoria comum e elementar. Para o meu avô, no bem e no mal, as formas de mediação e os seus legítimos representantes eram claros. Para a minha geração já são profundamente problemáticos.

Face à mudança radical, a vida efetivamente vivida deixou de encontrar na fé cristã a força e a forma de uma existência que valha a pena. Por outro lado, a fé sente a dificuldade crescente em ter voz no capítulo para dar razões da sua esperança, com sensibilidade e sensatez, nos lugares em que a vida acontece, nas relações que tece, nas práticas comunitárias que gera. É como se a verdade que professa tivesse deixado de ser pertinente e relevante, vitalizante e operativa. Entre as palavras e gestos do quotidiano e as formas e lugares do transcendente, instalou-se um abismo que, como terra desconhecida e desabitada, passou a ser bem de uso e abuso nas mãos de todo o tipo de charlatães e aprendizes de feiticeiro que, obviamente, não dispensam dividendos contabilísticos.

Com demasiada facilidade, com razão ou sem ela, a fé cristã é identificada, e infelizmente não apenas por quem se diz descrente, a um fundo ideológico ou a uma devoção irrelevante. Compreendida e identificada, para além do limite aceitável, com uma doutrina a saber, com prescrições morais a pôr em prática, com tradições a preservar, com formas de representação hierárquica a obedecer, a fé perde, de facto, a vida elementar dos homens e mulheres do nosso tempo, da qual pretenderia ser a luz e o sal. Ou porque não consegue ou não sabe como frequentá-la. Ou porque não vê como suportar e habitar a sua densidade, complexidade e ambiguidade. Ou, então, porque a encara como detalhe supérfluo e impedimento para uma verdadeira vida espiritual. Ou, ainda, e simplesmente, porque a considera totalmente corrompida e incapaz de acolher a verdade pura de que a fé seria depositária. Pelo caminho, Deus deixa de ser evidente. Demasiado grande ou demasiado pequeno, parece não ter nada a ver com a vida. Mais do que ausente é in-diferente e in-existente.

Qualquer que seja a análise, os lugares e os ritmos da vida que a fé deveria assumir como o lugar da epifania de Deus no meio de nós acabam por ser dramaticamente removidos. Ou, então, se compreendidos ainda como lugar que à fé diz respeito, são facilmente privados da sua densidade por um registo paternalista e moralizante, devocionista e espiritualizante. Bastará pensar no tom e no conteúdo de muitas homilias. Como consequência, nascimento e morte, sexualidade e geração, culpa e alegria, investimento e derrota, felicidade e desencanto são lugares que se recusam a ser lidos - ou não sabem como ler-se -, e ainda menos vividos, de forma cristã. Não são reconhecidos, portanto, nem como realidades tocadas pela graça, nem como lugares de uma esperança escatológica.

Face à situação de fratura que mexe com o mistério central da encarnação, surge a pergunta: o que poderemos esperar ainda do cristianismo? Que lugar caberá ainda ao Evangelho e à fé? Seremos nós os últimos cristãos? Seguramente que não. Mas somos, isso sim, os últimos de um certo estilo de cristianismo, do qual nos cabe pagar uma parte da fatura. Mas esse é o preço que os cristãos sempre deverão pagar, porque não há forma de incorporação do Verbo e de discernimento do Espírito que não se exponha à ambiguidade e ambivalência dos movimentos da nossa liberdade. De qualquer modo, o que seremos não poderá não habitar a história que hoje vivemos porque, qualquer que seja o momento em que o cristianismo viva, e não há para ele tempo ideal porque cada tempo é tempo propício, esse é a única carne viva na qual pode e deve encarnar a verdade que salva.

Entre as tentativas de afrontar a fratura, encontro dois extremos de difícil justificação. Um pensa em soluções velhas para problemas novos. Ocorreria, por isso, cerrar fileiras contra este mundo corrupto, sem Deus nem valores. Reafirmar a segurança do dogma e da moral. Recuperar a glória da tradição. Oferecer a segurança da instituição. Centrar a teologia no tratado. Esta seria a resposta militante, pretensamente mais fiel contra a degradação do tempo e da cultura envolvente, distraidamente indiferente ou militantemente hostil. Seria a estratégia da fé pura, de uma Igreja perfeita, num mundo corrupto. Mas que significado terá, neste horizonte, a expressão de Paulo de que Deus nos amou em Cristo quando ainda éramos pecadores (Romanos 5, 8; 2 Coríntios 5, 21)?

Um outro tipo de resposta faz suas as estratégias do tempo que diz contestar, e reproduz, em formas de baixo nível e gosto duvidoso, aquilo que o contexto já oferece à exaustão. Assume o código publicitário, mas baixando o profissionalismo; adapta a linguagem ao gosto do tempo e vende uma fé fácil e ao desbarato, como o sentido do mundo, a resposta e a solução para todos os problemas, o caminho da felicidade, o aconchego da alma. Perante as igrejas que se esvaziam, promove-se uma fé simpática e à medida das expetativas, que custa demasiado pouco e garante tudo. Mas, claro, nem a fé nem a vida admitem este nivelamento. São imensamente mais complexas e dramáticas. Pense-se na história de Abraão ou de Moisés e na luta de Jacob com o Anjo; reveja-se o destino de Jeremias, Ezequiel e Oseias; releia-se a relação de Jesus com os seus discípulos e constate-se se também não é marcada por desentendimentos, solidão, distância. A experiência da fé, como o ato de viver, é visceral.

Possivelmente, precisaríamos, também aqui, de revisitar e dar corpo ao Concílio Vaticano II. Há mais de quarenta anos, a Igreja Católica recordou a si mesma que não havia, nem poderia haver, realidade alguma verdadeiramente humana que não encontrasse eco no seu coração. E, por isso, re-assumiu que as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias de cada homem e mulher, sobretudo dos mais pobres, eram as suas próprias alegrias e esperanças, tristezas e angústias. Gaudium et spes não eram apenas belas palavras de otimismo dirigidas a um mundo em profunda crise. Eram, antes, palavras bem-ditas por uma Igreja aparentemente envelhecida e cansada, mas que se dispunha e expunha a nascer num novo dizer e num novo fazer pela força do Espírito. Já não como sociedade perfeita mas como corpo vivo nascido do encontro com o Filho de Deus e capaz de olhar e de habitar o mundo como caixa de ressonância do Espírito. Aquelas palavras traziam consigo a evidência de que lamentar o mundo antigo deixado para trás a tornava estátua de sal, corpo inerte de uma verdade sem força. Que continuar a levantar o dedo condenatório a encerrava numa torre de marfim, bela peça de museu mas não lugar disponível e pobre para a «exposição do Santíssimo». L'aggiornamento, desejado pelo papa bom como forma fiel e criativa de dizer e fazer a Igreja num mundo em mudança, significava passar a conceber as possibilidades, as incertezas e as ambiguidades do mundo e da história como o (único) lugar onde Cristo e o seu mistério sempre se diz e se dá. As duras dificuldades e os dramas do tempo abriam-se, assim, como apelo e possibilidade de dar corpo ao Evangelho a partir do con-tacto generoso, restabelecido no Espírito Santo, com a história humana, seus ritmos e movimentos.

Tudo o que ali nasceu foi conseguido? Foi tudo ganho? Houve perdas? A história da fé, da espiritualidade, do rito ou das formas eclesiais haverá de dizer com mais distância e clareza o que se ganhou e o que se perdeu com o novo dizer e o novo fazer que no Concílio teve início. Porque nenhuma escolha é sem consequências. Mas parece-me que teremos ainda muito a aprender com a atitude assumida: a de procurar converter e conformar o modo de olhar, de ouvir, de tocar o nosso mundo à forma e à força como Deus olha, ouve e toca o mundo que, em Jesus de Nazaré, quis fazer seu para sempre. Não nos esqueçamos: a história que é Jesus não pode ser reduzida a mero pretexto para fixar a verdade dogmática, pretensamente a-histórica. A Escritura que configura e norma a vida da Igreja continua a ser conjunto de textos vivos que se fazem lugar efetivo de encontro no Espírito entre o texto vivo que é cada um de nós e o acontecimento de Jesus, o caminho da verdade da vida.