• 230x230 PDS 1054230x230 PDS 1059230x230 PDS 1066
    © Pedro Duarte Silva
  • 230x230 PGS 0068230x230 PGS 0554230x230 PGS 0384
    © Pedro Grandão
  • 230x230 PGS 0197230x230 PGS 0266230x230 PGS 0245
    © Pedro Grandão
  • 230x230 PGS 0757230x230 PGS 0653230x230 PGS 0707
    © Pedro Grandão
  • 230x230 PGS 1039230x230 PGS 0911230x230 PGS 0944
    © Pedro Grandão
  • 230x230 PGS 0098230x230 PGS 0044230x230 PGS 0243
    © Pedro Grandão
  • 230x230 PGS 0053230x230 PGS 0067230x230 PGS 0376
    © Pedro Grandão
  • 230x230 PGS 0142230x230 PGS 0549230x230 PGS 0383
    © Pedro Grandão
DAR CORPO AO VERBO (5/5)
A PROPÓSITO DO MEMORIAL DO PAPA AOS BISPOS PORTUGUESES

CORREIA, José Frazão, Dar Corpo ao Verbo
in «Brotéria», vol. 166, Braga: fevereiro 2008, 111-125

5. A ferida que permite reconfigurar o corpo do Verbo

Nas condições da época que hoje nos é dado viver, a auscultação e a exposição do que é próprio desses lugares e ritmos oferece a matéria-prima para a releitura do cristianismo e dos seus mistérios. Em condições que nos parecem adversas, poderemos perceber melhor que eles se apresentam, mais como lugares elementares que falam da força e da ambiguidade da nossa própria existência, e que, por isso, nos implicam em corpo e alma, que fixações linguísticas dadas à excelência da nossa inteligência ou ao voluntarismo da nossa vontade. Pensemos, por exemplo, em D. Bonhoeffer (pastor protestante, morto na prisão, à qual não quis fugir, sob o regime nazi), E. Stein (judia convertida ao cristianismo e morta num campo de concentração, como gesto de fidelidade ao seu povo) ou C. de Foucauld (eremita que, depois da sua conversão em idade adulta, escolheu viver e testemunhar o evangelho no deserto do norte de África: aí morreu assassinado): três místicos-mártires dos nossos tempos, testemunhas extraordinárias de como se pode viver uma fé adulta, num mundo, aparentemente, sem Deus. Talvez possamos descobrir melhor e valorizar o que significa crer na Trindade como espaço e dinamismo onde a vida se dá e se acolhe entre diferentes, sem que deixem de ser um: o mistério maior pelo qual o diferente não ameaça a unidade, nem a unidade teme a diferença. Mas poderemos também redescobrir a força que Deus expõe no ato do Filho se fazer fraco, de se dar sem ostentação, de usar da palavra sem ocupar todo o espaço, de criar gestos sem subestimar ou substituir aquele a quem toca. Descobriremos, talvez, um Deus mais humildade, com mais traços a contemplar, e que, seguramente, nos leva a sério.

Compreende-se, porém, que esta é tarefa bem mais exigente que a condenação sobranceira e implacável do nosso tempo; que o lamento saudoso e infeliz de um paraíso perdido, mais imaginado que real; que os expedientes desengonçados de adaptação ao culturalmente correto. Implicará a aceitação de um cristianismo que não ocupe todo o espaço nem receie perder o lugar. Antes, habitando os lugares do humano, saberá ceder a passagem. Para que o seu Senhor se revele. Aprenderá, por isso, a arte de ser dedo que indica a lua e não de ser a lua indicada. Abrir-se-á a novas práticas, em vez de aplicar mecanicamente formas e fórmulas velhas. Saberá apresentar-se mais como toque artístico do que como definição, sem deixar de ser inteligência crítica. Mais como motivo do que como norma rígida, sem se tornar veleidade arbitrária. Mais como convite do que como organização, sem deixar de ser corpo. Não terá a pretensão de julgar sempre tudo e todos porque também se sabe julgado pelo Evangelho que anuncia. Não esconderá a sua fragilidade porque os Evangelhos também não esconderam a de Pedro e dos outros discípulos e porque sabe que a sua grandeza não está no vaso que é, mas no tesouro que o seu Senhor quis depositar nele. E nem por isso será menos ligado à verdade, à justiça, à sua invulgar Tradição. Naturalmente, será necessário dar corpo ao manifesto. Não como quem procura um expediente de última hora para fazer face à crise que reduz o número de fiéis nas igrejas, mas como fruto de uma prática crente partilhada, alicerçada na celebração do evangelho e no discernimento dos sinais que o tempo dá: pelo desejo contínuo de abertura ao Espírito; pela possibilidade efetiva de tomar a palavra e de se ser levado a sério; pela verificação comum dos passos dados à luz da vida que neles é gerada. Se é corpo vivo, deverá dar espaço a imagens, emoções, experiências, afetos, pensamentos, práticas que se formam no tecido experiencial de cada um: agrícola, citadino, artístico, cultural, económico. Não sobrevoará, por isso, os ritmos e os lugares do humano porque, então, esvaziaria a fé. E mortificaria as legítimas expetativas dos nossos contemporâneos que, não aceitando uma fé fácil, simplesmente sedutora ou administrada sob argumento de autoridade de uns poucos, querem encontrar nela o sal e a luz para as suas existências.

Certamente que o con-tacto renovado e adulto, tanto com os ritmos e lugares do humano como com os mistérios cristãos, não deixará de incidir, de se dizer e de se fazer nas formas de celebração dos sacramentos e dos ritos; nos lugares de escuta e de oração e nas expressões artísticas, visuais, musicais e literárias; nos percursos de iniciação mistagógica e de formação teológica; nos modos de tomar posição profética e de pronunciar palavras qualificadas. Assim sendo e assim fazendo, a Igreja, mesmo podendo ter que o contestar, tocará e elevará o seu mundo. À imagem do seu Senhor.

6. Nota bibliográfica

Optei por não pesar o texto com referências bibliográficas. Os pontos que expus cruzam reflexões das obras que agora menciono. A tese central de que o cristianismo é a lectio difficilior da existência humana e de que os lugares elementares do humano já contêm em filigrana o dinamismo dos mistérios cristãos devo-a a E. Salmann, Contro Severino. Incanto e incubo del credere, Piemme, Casale Monferrato, 1996; Idem, Presenza di spirito. Il cristianesimo come gesto e pensiero, Edizioni Messaggero di Padova, Padova, 2000. Sobre os sentidos de Jesus, veja-se F. Manzi e G. C. Pagazzi, Il pastore dell'essere. Fenomenologia dello sguardo del Figlio, Cittadella Editrice, Assisi, 2001; G. C. Pagazzi, In principio era il legame. Sensi e bisogni per dire Gesu, Cittadella Editrice, Assisi, 2004; Idem, Il polso della verità. Memoria e dimenticanza per dire Gesu, Cittadella Editrice, Assisi, 2006. Em C. Theobald, Le Christianisme comme style, 1. Une manière de faire de la théologie en post-modernité, Les Éditions du Cerf, Paris, 2007, pode encontrar-se uma reflexão sustentada sobre o estilo de Jesus. Ainda que numa perspetiva diferente, o tema do estilo está igualmente presente em E. Salmann. A reflexão que lê a crise do cristianismo como rupture instauratrice devo-a a M. De Certeau, La faiblaisse du croire, Éditions du Seuil, Paris, 1987 (em especial o capítulo «La rupture instauratrice»); J. Delumeau, Scrutando l'aurora. Un cristianesimo per domani, Edizioni Messaggero di Padova, Padova, 2005 (orig. 2003); A. Matteo, Presenza infranta. Il destino del cristianesimo dopo la fine della cristianità (J.-L. Marion, R. Girard, M. de Certeau), PUG, Roma, 2007; S. Morra, «Pas sans toi». Testo, parola e memoria verso una dinamica della esperienza ecclesiale negli scritti di Michel de Certeau, PUG, Roma, 2004; J.-L. Souletie, La crise, une chance pour la foi, Les Éditions de l'Atelier, Paris, 2002. A reflexão de natureza mais eclesiológica remete para G. Lafont, Imaginer l'Église catholique, Les Éditions du Cerf, Paris, 1995; 2001; G. Ruggieri, Cristianesimo, chiesa, vangelo, Il Mulino, Bologna, 2002; Idem, La verità crocifissa. Il pensiero cristiano di fronte all'alterità, Carocci, Roma, 2007. Como leitura da pós-modernidade, veja-se a vasta obra do sociólogo polaco Z. Bauman, por exemplo, Liquid Love. On the Frailty of Human Bonds, Polity Press-Blackwell Publishing Ltd, Cambridge-Oxford, 2003.

 pdf