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DAR CORPO AO VERBO (4/5)
A PROPÓSITO DO MEMORIAL DO PAPA AOS BISPOS PORTUGUESES

CORREIA, José Frazão, Dar Corpo ao Verbo
in «Brotéria», vol. 166, Braga: fevereiro 2008, 111-125

4. A fé eleva e contesta todos os lugares do humano

A quatro vozes, porque nada na nossa vida nem no mistério de Jesus se deixa dizer de um só ponto de vista, os evangelhos revelam-nos, narrando, a ex-posição do Filho ao mundo e no mundo como lugar belo e fecundo, dramático e doloroso. Jesus atravessa-o, deixando-se atravessar por ele, sem separação nem confusão: nascimento, fome e sede e tantas outras necessidades, as festas e os trabalhos no campo e no lago, a economia e as atividades domésticas, também os animais e as plantas, o sol e a chuva, a doença e a morte, são lugares que Jesus habita. Na forma como Jesus os toca, aprendemos como, na sua fragilidade e precariedade, lhe são profundamente caros, sendo os lugares onde o Pai quer dizer-se e dar-se. O mundo não é, pois, para Jesus, apenas instrumento menor para a revelação da sua verdade mas o lugar efetivamente assumido como espaço de ressonância e de presença do Santíssimo. Por isso, a forma como toca o mundo e como pelo mundo é tocado já é revelação e evangelho.

E, depois, há o estilo dos seus encontros. Pense-se, por exemplo, no encontro com Zaqueu (Lucas 19, 1-10), com a mulher pecadora, em casa de Simão (Lucas 7, 36-50) ou com a mulher adúltera, exposta na praça pública (João 8, 1-11). A palavra - e podemos imaginar o tom da voz; os gestos, ora delicados ora vigorosos; também o lamento e o grito; e todas as formas de presença, tanto discretas quanto nobres: aqui configura-se o estilo que revela a santidade de Jesus. Em cada encontro, faz com que a vida elementar daquele que encontra ad-venha, se exponha tal como é, sem receio de preconceitos limitadores ou de juízos precipitados. Jesus não ocupa todo o espaço. Mas, antes, in-voca, con-vida, dá a palavra, cede a passagem para que cada um, a partir do que já o habita em profundidade, possa reconhecer-se em verdade naquele momento de reconhecimento. De tal modo que o ato de fé que ali nasce seja o reconhecimento de Jesus como Messias mas também o reconhecimento da própria vida como dom no qual o Pai se implica desde a criação. E assim, de cada encontro, se pode partir de novo. Naquele instante, jogara-se toda a existência. E Deus fora honrado naquela vida justificada.

E se este fosse o nosso estilo? E se eu, como sacerdote, pudesse celebrar os sacramentos e outros ritos com esta força e delicadeza? Se pudesse fazer a homilia ou tomar a palavra em público, como quem prepara o ambiente para que aflore entre nós a Voz que interessa escutar? E se desenvolvesse uma gestualidade simbólica que não prendesse nem dissolvesse mas criasse um espaço para o ad-vento de algo maior?

A sensibilidade e sensatez de Jesus, pelo encontro, convida, também a nós, a revermos a forma justa ou insensata como sentimos e tocamos o mundo; como afrontamos a maravilha e o enigma da existência, por vezes dramática e assombrosa; como damos espaço ou nos fechamos ao reconhecimento de uma origem maior, precedente e excedente; como enfrentamos o sermos dados à luz, neste corpo, com este nome, por estes pais que não escolhemos nem pedimos e o facto de podermos e devermos assumir a promessa e o peso de sermos livres. Não são estes os lugares da vida? Pois, Jesus habita-os de facto, elevando-os.

Mas, para Jesus, habitá-los significa também contestá-los, pela mentira e pela injustiça, pela indiferença e pela megalomania que hospedam dentro de si. Desmascara e interrompe, por isso, a falsidade de fixações, projeções e expectativas. Jesus sabe – e sabe-o com preço da própria vida – que a nossa existência também é marcada pela banalidade do mal e que o nosso desejo leva consigo a marca de uma profunda ambiguidade. E sabe que entre amor e violência há uma proximidade visceral e que não é linear o impacto entre a liberdade infinita de Deus e a liberdade contingente do ser humano. Desde Adão e Eva que é assim.

É neste horizonte elementar que precisaremos de voltar a habitar o laço íntimo entre o cristianismo e os seus mistérios centrais e as experiências primordiais do humano. Porque os ritmos e os lugares elementares da existência já contêm e já representam, de forma anónima, os ritmos e os lugares da consciência crente e dos mistérios cristãos. Pense-se no nascimento, como exemplo. No início da nossa vida não encontramos já condensado tudo o que os mistérios cristãos refletem: graça e liberdade; ser dado generosamente à luz e dever afrontar o custo da vida; ver-se infinitamente pequeno diante de uma realidade infinitamente maior e ser marcado, desde o início, pela dúvida se a vida é dom ou castigo? No sofrer e fazer sofrer; no ser objeto de cuidado e de desprezo; no sentimento de encanto e de pesadelo, de beleza e de repulsa, de ternura e de medo, não se insinua já o pecado e a necessidade de redenção? E o primeiro aceno à ideia de um Deus não nasce já ali, no impacto fascinante e tremendo entre mãe e filho e, depois, rompendo o jogo dual, entre filho e pai, como figura do Terceiro, e no jogo de alusões e ilusões que ali se estabelece? Não vemos já aqui em filigrana todas as promessas, as passagens, as feridas e os abismos que a nossa fé percorre? Ora, se é assim, como poderá celebrar-se o batismo, como ritualização do nascimento, sem in-vocar para o sacramento todas as dinâmicas presentes no ato de todo e qualquer nascer? Em vez de começar por lamentar a suposta não preparação ou desinteresse das pessoas, não deveríamos antes verificar se, por ventura, não esvaziámos aquilo que celebramos da respetiva densidade humana? A mesma reflexão poderá ser feita sobre a eucaristia, a confissão, ou o casamento na sua relação com os ritmos humanos que evocam, celebram e santificam.

A fé cristã não anula, pois, nem sobrevoa, nem nivela esses mesmos lugares e ritmos, mas assume forma neles, como a interpretação mais exigente da sua espessura e densidade e a contestação mais forte da sua corrupção. Habitando-os como caixa de ressonância, vestígio e símbolo da presença de Deus, eleva as suas possibilidades e contesta as suas ambiguidades. E, assim, assume-se, não como resposta mas como possibilidade, quase no limite do impossível, de viver a existência como uma promessa no meio das contradições e contrariedades deste mundo. Não radicaliza nenhum ponto ou certeza, como se pudesse dizer que já chegou ou que já tem o seu Deus. Como na experiência dos discípulos de Emaús, reconhecer a presença do ressuscitado é já vê-lo desaparecer da própria vista, convidando a outra viagem. Contextualiza, por isso, toda a solução, porque sabe que toda a delimitação pode degenerar em ídolo. Deseja e trabalha por um mundo melhor mas não deixa de se abandonar à salvação paga a caro preço.