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CRER NA FRONTEIRA. HABITAR NOVAS FRONTEIRAS (1/6)

CORREIA, José Frazão, Crer na fronteira. Habitar novas fronteiras
in «Brotéria», Braga: janeiro 2009, 23-48

O caminho de Emaús como quadro inspirador. Prelúdio

A generosidade da atenção, a sabedoria da leitura, a arte da descrição das profundas mudanças históricas a que assistimos é a virtude que hoje precisaríamos de desenvolver mais. Segundo a sapiente sugestão de E. Salmann, «como os discípulos de Emaús, devemos «convidar» para casa o que nos é estranho, o que não compreendemos [...]. A liberdade é poder responder à instância que me interpela e se me impõe [...]. Descrever! Descrever para poder decidir [...]» . Descrever para chegar a redescobrir o encanto deste nosso mundo, para muitos desencantado, redescobrindo por entre as fendas abertas os sinais da passagem de um Deus que, entretanto e entre nós, Ocidente, se tornou anónimo, mudo, indiferente. Descrever para chegar a sentir o mundo como nosso mundo, tal como é, e chegar a acolher com gratidão e como lugar salvífico os seus movimentos e aspirações, as suas graças e desgraças, os seus cumes e abismos. E ver refletido nele o percurso da nossa própria existência, desta nossa biografia. Por fim, e porque a história real fala do Senhor, descrever a configuração atual do nosso mundo, para perceber, por ele, o que Deus tem para nos dizer e para chegar a reconfigurar nele o corpo eclesial que somos, re-dando visibilidade à vida do Espírito que nos habita e in-forma.

Para tal, aprendamos com o estilo de Jesus, o seu modo de proceder. Ou, antes, deixemo-nos tocar e retocar por ele.

Jesus ressuscitado faz-se companheiro de caminho, simplesmente pela insinuação da sua presença. Com uma atenção extraordinária aos sinais corpóreos da desilusão interior, sabe colocar a pergunta certa, aquela que dá a palavra aos dois discípulos desiludidos e tristes e se faz verdadeira disposição a escutar. Ainda que seja para ouvir o que já sabe, dispõe-se a acolher o seu ponto de vista sobre os acontecimentos. A pergunta de Jesus dá a deixa, faz-se convite a revisitar e a repercorrer as estradas e os lugares do que os havia encantado e agora desilude. Entrando pela porta do sonho desfeito, Jesus rompe os lugares comuns da sua inteligência do divino para fazer entrever um outro rosto de Deus. No limite do que se lhes afigurava impossível, faz brotar sementes de possibilidade. Depois, narrados e iluminados os lugares revisitados, faz-se convidar. E à mesa, num gesto eucarístico, desperta os sentidos, toca a alma, cura o corpo, regenera toda a experiência. O anonimato dá lugar à comunhão. O seguimento e a missão vencem o abandono e o ressentimento. Finalmente, quando reconhecido, Jesus desaparece da sua vista. Aquele que, como corpo, se dá a comer é o mesmo que diz «não me tocar» . A presença recusa fazer-se morada que aprisione, coisa que se possua. Agora, é nos lugares concretos da humanidade - em todos - que se viverá o con-tacto vivificante com o Mestre.

Quanto poderemos aprender com esta forma de entrar na vida dos nossos contemporâneos e de comungar os movimentos das suas existências para, desse modo, criar um espaço de possibilidade para um encontro biográfico com o Senhor Jesus: tocar sem aprisionar; dar-se sabendo retirar-se; dizer sem ofender o mistério e cobrir o silêncio que envolve nós e eles; fazer-se alimento sem criar dependências; brilhar como luz que se extingue. E quanto poderemos recolher deste modo de proceder de Jesus ressuscitado que abre os olhos dos seus discípulos ao reconhecimento da sua presença exatamente no momento em que deixam de o ver. A ausência acena a uma outra forma de presença: é preciso que o Senhor vá para que desça o seu Espírito. Não é esse o tipo de relação que vivemos em cada eucaristia, comungando daquele pão que não parece pão que é corpo que não se vê?
É, pois, este encontro a etapas sucessivas e enquanto se caminha que, pela palavra e pelo gesto, vai do isolamento à eucaristia, do anonimato ao reconhecimento, da perturbação paralisante à consolação operativa, que proponho como ambiente inspirador para esta minha reflexão, quase como um prelúdio musical ou uma sugestão pictórica.