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CRER NA FRONTEIRA. HABITAR NOVAS FRONTEIRAS (3/6)

CORREIA, José Frazão, Crer na fronteira. Habitar novas fronteiras
in «Brotéria», Braga: janeiro 2009, 23-48

«Dos líquidos». A necessária consciência dos nossos tempos de 'trânsito'

Para o sociólogo de origem polaca, Z. Bauman, a época que vivemos exprime-se em termos de liquefação das formas sólidas. Se o que chama modernidade sólida - por facilidade, tenhamos presente a segunda metade do segundo milénio na nossa era - se formou e consolidou na atitude de repúdio e de destronização de crenças, de fidelidades ao passado e ao transcendente, de sacralidade das mediações históricas, não o fez para se livrar de corpos sólidos, mas antes para preparar o terreno a outros melhores. A ordem antiga que se pretendia alterar, com a reivindicação da autonomia da racionalidade científica, da autonomia social e das liberdades individuais, visava estabelecer uma outra ordem mais perfeita e definitiva que aquela religiosamente estabelecida.

Hoje, pelo contrário, a grande novidade da modernidade, já não sólida, mas líquida, não está no projeto de substituir a velha ordem por uma melhor mas, antes, na rejeição, sem finalidade particular, de tudo o que é sólido, durável, estável. Tal como é próprio dos corpos líquidos não fixar o espaço nem ligar o tempo - diferentemente dos sólidos que tendem a conservar a própria forma e resistem a mudá-la - e tal como lhes é próprio fluir com facilidade e variabilidade, assim se encontra a nossa época, a assumir a forma da fluidez permanente, da intrínseca transitoriedade, flexibilidade e fragilidade, vencendo a rigidez das formas e recusando a perenidade dos vínculos, ao mesmo tempo que se nega ao confronto com um qualquer tipo de objetividade ou autoridade heterónomas. Fluir condensa, portanto, uma forma de imperativo categórico: sê fluido. Fluir, necessariamente. Sem se ligar. Sem parar, para ser novamente e sempre num outro lugar . E o motivo parece não ser outro que o de não ser posto à margem do movimento incessante. Por isso, não se procura promover o sentido, nem abrir cenários de redenção, ainda menos de revelar a verdade. Trata-se, antes, de uma espécie de jogo da mobilidade que desvaloriza o que fora duramente conquistado, desconfiando e considerando politicamente incorreto tudo o que possa insinuar-se sob a marca do definitivo. É o grande jogo do mundo globalizado, saturado de imagens, sons, objetos, viagens, experiências, jogando-se na lógica inexorável e ininterrupta da lei da oferta e da procura, mas também da produção de muitas formas de exclusão, de marginalidade, de lixo e, abrindo novo ciclo de vida, de reciclagem. E isto, tanto ao nível macro da economia global, dos sistemas sociais e políticos, sempre mais condicionados e dependentes daquela, como ao nível micro da experiência individual, das relações pessoais e dos laços, da configuração quotidiana da existência.

Neste cenário, o manifesto programático que se condensa no título «Crer na fronteira. Habitar novas fronteiras», apresenta-se, como dizia, tanto sugestivo quanto exigente. Sugestivo, porque a metáfora da fronteira - poderíamos substituí-la por limiar ou passagem ou pórtico - corresponde bem ao espírito de trânsito, ligeiro e dramático, que carateriza o nosso tempo. Trânsito do centro uno às múltiplas aberturas; do definitivo e completo ao permanentemente aberto; do essencial a representar ao possível, ainda por inventar; da História às histórias; do categorial ao processual; do sentido dado ao sentido a-fazer. Esta é, segundo Bauman, a nossa nova condição humana . Não poderemos fugir-lhe sem risco de alienação da realidade. Identidade líquida, vida líquida, amor líquido, medo líquido, são temas e títulos de obras deste sociólogo , correspondendo a outros tantos 'lugares' do humano em estado de liquidificação e de passagem contínua. Há também quem recorra à imagem da vaporização e do estado gasoso para descrever o espírito dos tempos que correm. Mas, líquido ou gasoso que se tenham tornado o mundo e a vida humana, o certo é que deixámos de nos rever na metáfora dos corpos sólidos. Um único centro, fixo, acabado, estático, garante de todo o sentido entre origem e destino, deixou de fazer parte da imagem social, e talvez também individual, que temos de nós mesmos.

Não só pela apologia teórica, mas ainda mais pela prática efetiva generalizada, a existência humana fragmenta-se na fluidez do instante e volatiliza-se na inefabilidade do momento, sem um fio condutor que os ligue. Simplesmente, vivemos assim. O tempo de garantia do fundamento uno, verdadeiro, bom, que configura o sentido no arco do tempo, entre início que lança e fim que atrai, parece ter chegado ao seu ocaso. O nosso lugar tornou-se hoje o não ter lugar. Habitamos, pois, limiares. Entusiasticamente? Perplexos e inseguros? Talvez, e paradoxalmente, com ambos os sentimentos. Primeiro, porque, de facto, é o ar que, espontaneamente, todos respiramos, mesmo quando o contestamos. Depois, também, porque temos dúvidas que seja realmente só e sempre ar puro. A euforia experimentalista não consegue esconder tantas formas de ansiedade e desilusão, nem o tom quente das cores choc, nem a vibração violenta dos sons ou a agressividade das imagens esconde o drama das existências e a deriva dos grupos.

Neste ar do tempo, também a «nostalgia do uno», de que o cristianismo e a cultura ocidental viveu, praticamente durante dois milénios, considerando frágil tudo o que tinha o selo da multiplicidade e da diferença, entrou em crise. Uma crise difícil de gerir, mas nem por isso menos benéfica se levar a reconhecer o que nessa mesma nostalgia havia tanto daquilo que o jesuíta francês M. De Certeau (|1986) chamou «ideologia da estabilidade»: a fixação imobilista de uma verdade incapaz de contar uma história e de fazer-se história de vida. Como o fluir contínuo pode tornar-se dispersão e veleidade, a estabilidade pode converter-se em corpo cristalizado, insensível a todo o movimento e imprevisibilidade, elementos que, sabemos, são atributos do Espírito. Como o fluir compulsivo pode dificultar o reconhecimento e a adesão à verdade da vida, a verdade reduzida a ideia cristalizada perde facilmente a vitalidade do dom que faz viver.