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CRER NA FRONTEIRA. HABITAR NOVAS FRONTEIRAS (6/6)

CORREIA, José Frazão, Crer na fronteira. Habitar novas fronteiras
in «Brotéria», Braga: janeiro 2009, 23-48

«A passagem que se faz passio». Epílogo

Começando a concluir, «crer na fronteira», ao sugerir a deslocação do ato de fé e da prática crente do centro da identidade, bem delimitada, para a instabilidade das periferias, apresenta-se, assim, como um duplo programa. Abre, por um lado — e este é o seu lado sugestivo, ao gosto dos nossos tempos líquidos—, à fronteira como lugar habitável, no qual se deposita confiança: abre ao êxodo como domicílio. A suspeição de que este lugar de passagem, de instabilidade, de tráfico, de insegurança, de miscigenação, de impureza de língua, poderia suscitar, face aos centros estáveis, guardiães de identidade sólida, é convertida pela confiança de poder tornar-se kairológico, isto é, lugar de graça, ele que foi já e perenemente assumido, em primeiro lugar, pelo Filho incarnado. Como afirma G. C. Pagazzi, «Jesus é o único que idêntico a Deus mantém para sempre, em harmoniosa diferença, quanto assumiu na sua identidade» «Em Jesus, o Filho de Deus deixa espaço ao que é diferente de si [...]. E este deixar espaço ao que é diferente de si não impede que este mesmo diferente seja idêntico ao Filho de Deus. Deixar espaço ao diferente e ser idêntico ao diferente, em Jesus, crescem de modo direto» . Assim, crer vale aqui como ter confiança na fronteira. Por outro lado, afirma a própria fronteira como o lugar privilegiado onde se crê: essa é lugar da fé, onde se regenera o corpo eclesial, sempre a re-fazer, e se desenha o estilo cristão, sempre a re-novar.

Já a expressão habitar novas fronteiras – este é o lado mais exigente –, como nos sugere G. Mazza, «significa deixar-se reestruturar pelo espaço interior e exterior, garantindo a si mesmo o suficiente grau de permeabilidade útil à osmose entre os dois contextos». No âmbito desta exposição, entre a fé cristã e as novas fronteiras deste nosso tempo. É, portanto, um traço próprio da existência, qual movimento de desapego e de apropriação de si mesmo no fluxo dos espaços existenciais. Implica, por isso, tanto potencialidades como riscos. Entre estes – é F. La Cecla a recordá-lo – está o de se perder ou de perder significado ou, então, de ver transformado o domicílio em exílio ou prisão. Já as potencialidades estão no dar-se uma fisionomia em harmonia dialética com a realidade circundante. Aqui, o limiar ou a fronteira passar-se-á apenas se se aceitar tomar em consideração «o outro domínio, aceitar a sua influência benéfica, ou não, sobre a nossa identidade», já que «o limiar é um lugar onde duas identidades se atestam no espaço, se esperam, se confrontam, se refletem, se defendem» . A disposição a habitar novas fronteiras traduz, pois, a disponibilidade a reconfigurar o corpo.

É, portanto, o dinamismo do movimento que emerge neste tema da fé em fronteira, no limiar, na passagem, com as suas aberturas prometedoras mas, também, com os seus riscos e ameaças. Trans-ire. Atravessar, o que «implica uma mudança de coordenadas, uma deslocação de acentos e de prospetivas». E, por isso, a passagem pode tornar-se dolorosa: «a passagem que se faz passio, o ferir que se faz com-ferir»50. Donde segue que de conversão se trata também. Mas não apenas das consciências. Também do corpo, porque a fé, ou incide na vida biográfica e na história coletiva ou é opção insensata e inconsequente por uma palavra insignificante, por um gesto que nada faz.

Retomando e relançando o início, crer na fronteira configura um modo de proceder ao estilo de Jesus a caminho de Emaús. Primeiro que tudo, é generosidade de atenção, sabedoria de leitura, arte de descrição: modo de ser e de fazer que permite revisitar e narrar movimentos e lugares desta nossa humanidade, sempre demasiado estreitos e sufocantes, sempre admiravelmente largos e promissores. Essa mesma descrição far-nos-á compreender que o que, aparentemente, era fim, não é, senão, princípio fecundo de muitas coisas. Depois, é dedicação, senão a ligar, pelo menos a fazer cumprimentar pontos separados, na convicção profunda de que os lugares humanos mais longínquos são os primeiros no coração de Deus. Porque foram esses que abraçou — e abraça — pela incarnação do Verbo, no Espírito. Nesses, hoje, e pelo discernimento espiritual, inspirará novos modos de incarnar a fé em Jesus de Nazaré — de lhes dar corpo visível —, o Filho de Deus em quem toda a humanidade ferida é salva. Dando-lhes a palavra, convidando-os a entrar em nossa casa, queremos, com a sua presença, compreender o que o Senhor quer de nós. Por eles saberemos melhor quem somos e o que Nosso Senhor diz hoje às Igrejas. Possivelmente, teremos também que chegar a contestar o que neles é corrupção, desordem e engano. Porém, não para os rebaixar do alto da nossa suposta grandeza ou deles nos separarmos pelo temor de acharmos contaminada a nossa presumível pureza, mas para os despertar para a graça daquela verdade de que se pode viver e que faz viver. Graça que, elevando, salva; graça que por entre os espaços deste nosso mundo faz entrever e celebrar O sempre operante, O sempre presente. E, por ser dom oferecido aos homens e mulheres de cada tempo e lugar, cujas histórias sempre se deslocam, é graça que re-desenha o corpo visível e orgânico de Cristo que somos. Não sem a paixão pela revelação de Deus em Jesus. Não sem a paixão pelos contornos de cada tempo e lugar.

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