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CRER NA FRONTEIRA. HABITAR NOVAS FRONTEIRAS (2/6)

CORREIA, José Frazão, Crer na fronteira. Habitar novas fronteiras
in «Brotéria», Braga: janeiro 2009, 23-48

A generosidade da atenção, a sabedoria da leitura, a arte da descrição

Começar por olhar, escutar, tocar, sentir generosa e atentamente - um ato de leitura - e descrever pacientemente. Descrever a configuração cultural gerada pelas mudanças deste nosso tempo e também a forma radical como afetam - como estão a afetar - a experiência da fé cristã, a sua prática comunitária e a sua transmissão. Descrever, antes de mais, para tentar compreender os fenómenos e poder entre-ver, pre-sentir, por entre as fendas das feridas abertas, alternativas de pensamento e de vida. E talvez, porque não, de reencontro inédito com o próprio mistério de Deus. Depois, descrever para reavivar o exercício de discernimento da graça que pode ser - que deve ser - para o cristianismo este tempo de desconforto no qual a fé perde a segurança de um contexto favorável.

Não é, por isso, uma generosidade ingénua, que se perde na admiração da paisagem, perdendo-se nela. Esse olhar empático sobre o nosso mundo é, antes de mais, a realização do espírito do Vaticano II que reconhece a história, tal como é, e a vida concreta de cada homem e de cada mulher, como lugar teológico privilegiado. Isto é, lugar humano concreto onde Deus manifesta a sua vontade para nós. Por isso, ao descrever estamos já a perscrutar a ação Divina neste nosso momento histórico e a perguntarmo-nos como, nele, Deus está a revelar-nos a sua vontade .

Se, por um lado, a fé na Palavra que salva não pode renunciar a contestar profeticamente o espírito do mundo, com as suas fixações ideológicas e idolátricas, as suas veleidades inconsistentes de auto-glorificação, as suas forças negativas e destrutivas, as suas desordens e injustiças apregoadas como ordem e desenvolvimento, os seus males oferecidos sob aparência de bem e os horrores das suas injustiças; por outro, hoje e mais do que nunca, com «um forte sentido do sagrado, inseparavelmente unido a um envolvimento ativo no mundo» , cabe-lhe, não menos, a sabedoria dos gestos e das palavras que saibam abençoar e elevar os ritmos e os lugares elementares da existência humana, quotidiana e biográfica. Ainda que na sua corrupção, esses lugares permanecem o corpo ferido e glorioso do Verbo incarnado: a única carne onde a Palavra haverá de ressoar e o Gesto haverá de tocar. Também para nós.
Gera esta sabedoria, antes de tudo, a atitude generosa da atenção, tanto viva quanto humilde - o teólogo B. Lonergan exprime-a no imperativo sê atento - que se faz empatia e simpatia, hospitalidade sincera, escuta genuína. Dessa sabedoria ouvimos ainda o eco nas palavras bem-ditas, quase comoventes, do Concílio Vaticano II, quando declarou serem suas as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias de cada homem e mulher, sobretudo dos mais pobres, por não ser estranha ao coração dos cristãos nenhuma realidade genuinamente humana (cf. Gaudium et spes 1). O simples desejo de as descrever e de as compreender é já um modo de as sentir internamente e de as partilhar efetiva e responsavelmente, sabendo que por elas o Senhor nos manifestará hoje a sua vontade.

Como «as três pessoas divinas» que «observam toda a planície ou redondeza de todo o mundo, cheia de homens» - assim nos é dito no n.° 102 dos Exercícios Espirituais de S. Inácio -, para ter consciência da mudança radical a que assistimos, essa memória descritiva apresenta-se, assim, como a condição sine qua non para um estilo cristão que hoje nos conviria cultivar mais. Em grande parte, será por ele que o Cristianismo poderá oferecer-se como palavra eloquente e gesto significativo, capaz de iluminar as complexas paisagens da existência humana, fazendo pre-sentir e entre-ver possibilidades inéditas, surpreendentemente prometedoras. Como dizia, não se trata de uma abertura politicamente correta, motivada pela tolerância democrática à la mode a tudo o que é diferente. Ainda menos, de uma estratégia de marketing religioso, originada pela infelicidade de ter perdido a palavra e o lugar, pelo desaparecimento de um passado que nos colocou no centro de tudo e de todos, por vezes falsamente idealizado como paraíso imaculado. Trata-se, sim e em primeiro lugar, da convicção, profundamente cristã, de que não há tempos privilegiados para viver o Evangelho, porque todos os tempos são tempos favoráveis. Sabemos como, para a consciência crente, a cadência da história não é marcada primeiramente pelo fluir implacável do tempo, mas pelo toque do Espírito do Ressuscitado que, de cada porção de espaço e fragmento de tempo, faz um acontecimento de graça. Assim, para cada tempo e lugar, inspira à fé que salva em Jesus de Nazaré, formas particulares. A estas me referirei com a categoria corpo. Como o Verbo se incorpora na nossa história, não querendo ser sem a alteridade e a diferença da nossa humanidade ferida e precisada de redenção, assim também não há fé sem corpo. E não há corpo que não habite narrativamente os espaços e que não tenha a marca do tempo. Por isso, será apenas sob as condições da cultura atual que se poderá construir e adquirir uma nova visão do cristianismo, numa constante e contínua correspondência e resistência fecunda entre ambos.

A consciência da mudança que a modernidade ocidental trouxe consigo, deslocando o cristianismo do centro para a periferia dos 'dispensáveis' e dos 'irrelevantes', além de favorecer a sabedoria de atenção e a arte da descrição, apresenta-se também como o ambiente ideal para repensar teologicamente o lugar da fronteira, fazendo-nos talvez concluir que, afinal e desde sempre, o mais originário da fé no Verbo feito homem é de habitar, não a estabilidade e a proteção do centro bem definido e estável, mas a fragilidade e a instabilidade das múltiplas periferias humanas . E, por ser assim, a prática crente não deixará de ser moldada por uma existência individual e comunitária de discernimento, vivida em fronteira, como quem assume a errância do êxodo como o seu próprio domicílio. Com outras palavras e usando uma expressão tipicamente inaciana, a fé na fronteira é gerada e regenera um modo de proceder , que não é primeiramente um código de conduta, nem um compêndio doutrinal ou, ainda menos, um baú de memórias. É, antes, a metodologia de um corpo, ritmado pelo exercício do discernimento espiritual - ele que é habitado pelo Espírito do Ressuscitado -, sob as condições particulares dos diferentes tempos e lugares, em vista de uma «criatividade em colaboração». Uma criatividade comunitária, poderíamos dizer.
Assim se forjará um estilo cristão. A categoria pode ser-nos teologicamente pouco familiar, senão mesmo motivo de alguma desconfiança, pelo caráter epidérmico e circunstancial que lhe poderá estar associado, sobretudo se for considerada como simples coreografia, ornamental e acidental, do que se consideraria realmente substancial e essencial. Isto é, o conteúdo. Mas a categoria começa a fazer o seu percurso em teologia .

Segundo o teólogo beneditino E. Salmann, o estilo é um modo particular de olhar, de habitar, de pensar o mundo, a fé, as formas cristãs. É o toque distintivo de uma presença que se representa num corpo. Emerge da relação íntima entre afinidade originária, que dá um fundo precedente de pertença comum, e liberdade de projetar, que cria o toque da originalidade e desenha as múltiplas possibilidades. Recorrendo à metáfora eloquente do nascimento, trata-se da relação íntima entre ser dado à luz (passividade originária que precede) e o poder e dever assumir a própria existência (liberdade e responsabilidade de se empenhar na configuração única da própria existência). Uma e outra co-implicam-se, sem se fundirem nem se excluírem. O estilo desenha, portanto, um corpo, tão forte quanto frágil, que ocupa o espaço deixando, no entanto, espaços livres para uma possível re-configuração. É o modo de dar figura ao mundo interior, ao apelo do mundo exterior, dos outros, do Absoluto, mas sem que chegue a cristalizar-se numa forma ideológica e, por isso, idolátrica. Como síntese e sintonia entre exterioridade e interioridade, entre corpo e alma, entre ser e comportamento, o estilo é um modo particular de in-habitar infinitamente a própria finitude. Por isso é graça (dom gratuitamente recebido). E, também por isso, é arte (obra a-fazer, com graça). Daí que não seja estranho que, em cada momento da sua história, o cristianismo sempre tenha dado forma - corpo - à experiência espiritual, entre mística e rito, graça e trabalho, tradição e esforço individual, força e fraqueza. A longa e incomparavelmente fecunda história cristã das formas de vida e de piedade, de arte e de organização são disso a prova. E tanto são prova a Companhia de Jesus como as catedrais góticas; a vida de Francisco de Assis como as estátuas de Miguel Ângelo; a regra de S. Bento e os Exercícios Espirituais como a Divina Comédia; o canto gregoriano e a arte barroca como os painéis de Rupnik.
É esta a entoação que escolho, portanto, para desenvolver o tema condensado no título. O facto é que, deixando de habitar o centro de um mundo que, de resto e na sua pluralidade e atomização, perdeu um centro único, clara e unanimemente identificado, e constatando a nossa marginalização na configuração dos tempos e dos espaços sociais, culturais, científicos ou outros, não poderemos viver senão na fronteira, no confim, entre tempos, entre mundos, entre experiências, procurando mediar, criando pequenos pontos de contacto entres margens separadas, lugares de abertura e de compreensão, de estima recíproca, de entendimentos possíveis. Um ofício, não tanto de pontifex maximus mas mais de pontifex minimus que, na familiaridade com o sagrado e o humano, se vive como contemplação, essa mística do quotidiano que, e ainda segundo o pensamento de E. Salmann, sem ser exótica ou esotérica, sabe colher na nossa pequena existência quotidiana os sinais de um Deus, hoje, mais silencioso e incógnito. Talvez, apenas, um «pequeno gesto de atenção, de oração, de reflexão, de tomada de distância, de olhar mais longe, de saltitar um pouco entre céu e terra, entre pensar em grande e o respeito pelo pequeno, de ver como o céu se refrata e se espelha até no charco da nossa existência» , poderá ser suficiente para desenhar oportunidades de contacto entre mundos progressivamente afastados. Deste modo se poderá configurar esse tal estilo mínimo, fenomenológico, levemente profético, numa sociedade plural e neo-liberal, largamente indiferente ao religioso, ou religiosa de outro modo, no interior da qual a fé e a Igreja vivem hoje a dificuldade de provar a sua pertinência e plausibilidade. Ainda que menos pretensioso, mas qualificado pela familiaridade com o divino e o humano - familiaridade que não deverá ser simplesmente individual, mas que precisará de ganhar forma como corpo eclesial, redesenhando o próprio corpo que é a Igreja -, este estilo poderá não ser menos gerador de vitalidade humana e de abertura aos sinais da passagem do divino.
Tenho consciência de que o acento colocado na generosidade fenomenológica da descrição não é sem risco. Dar mais o lugar e a palavra ao outro na sua diferença cultural, social, científica, para que diga de si, do que contestar, à partida, a sua possível insuficiência e corrupção não é opção inocente nem inócua. A hospitalidade não é ingenuidade. Mais não fosse, porque o hóspede recebido em casa pode ser, tanto o mensageiro de Deus como o estranho que se revela hostil. A hospitalidade é exposição arriscada. E a ex-posição, bem o sabemos, é, duplamente, pôr-se a nu, exprimir, mostrar, revelar, e pôr-se a jeito, fazer-se alvo de incompreensão, de desinteresse, de crítica e, mesmo, de ataque violento. Porém, entendo que nenhuma palavra e nenhum gesto nascido da fé que salva em Jesus de Nazaré, o Verbo incarnado, mesmo os mais proféticos de denúncia de desordens e formas de corrupção, terá força fora deste desejo de salvar, assumindo, a proposição e a vida do próximo (cf. Exercícios Espirituais, n.° 22). A contemplação dos mistérios da vida de Jesus de Nazaré bem nos revela este seu modo de proceder. Salvar não poderá ser menos que gesto de bênção pelo acolhimento: bem-receber para bem-dizer.

Mas com esta opção insinua-se uma outra exigência. Como dizia antes, se o cristianismo, pela sua própria missão, não pode deixar de contestar as muitas desordens do mundo, propondo uma vida debaixo da bandeira de Cristo, não está isento de ser, também ele, contestado e dilatado pelo próprio mundo. Em primeiro lugar, porque está sempre aquém do Evangelho que serve. É por isso que a exposição ao mundo põe também a descoberto as nossas próprias fixações e idolatrias. Como alerta G. Lafont, «somente se não cobrirmos o rosto diante do facto de que a maré que hoje em dia arrasta a civilização ocidental leva também consigo a Igreja, se será capaz de imaginar outras formas que, por sua vez, possam permitir à Igreja sobreviver e contribuir para o necessário nascimento de um outro mundo. Mas, pelo contrário, se cedemos à reconfortante consideração de que a crise atual não diz respeito à Igreja mas apenas ao mundo, privamo-nos dos meios até para o estrito necessário [que poderemos oferecer] em proveito do mundo e da Igreja» . Em segundo lugar, a abertura generosa ao mundo e à história não é para nós uma opção negligenciável. O nosso modo de proceder haverá sempre que gerir a co-implicação íntima entre o acontecimento fundador de Jesus Cristo, no qual somos salvos, e o discernimento do presente no Espírito Santo, como quem gere um espaço aberto, no qual o mesmo Espírito continua a gerar o corpo do Verbo. E sem que nenhuma forma histórica possa pretender ser identificada à plenitude da verdade do Evangelho. Esta não viverá sem uma forma histórica. Mas nenhuma forma histórica a esgotará. Assim, a alteridade histórica é olhada e acolhida, não como campo hostil ou indiferente à experiência e à prática crente, mas como aquele diferente, aquele outro sem o qual nós não podemos ser, já que o que somos é fruto do que com ele podemos ser. Noutras palavras, é a sua diferença que hoje e sempre faz reencontrar a nossa identidade. Porque esta não poderá ser sem essa diferença. A própria incarnação é a marca indelével da vontade de Deus em assumir o outro, o outro mais afastado - a humanidade pecadora -, e que só no corpo da história e nas linhas das biografias concretas diz de Si e da nossa salvação. O Verbo, realmente, fez-se carne. Porque o Puro não tem medo de sujar as mãos no impuro, nem o Santo de se expor à miséria humana. E onde está o Mestre lá deverá estar o seu servo; onde está a cabeça lá deverá estar também o corpo.

Com este quadro de referência, gostaria agora de explorar os pontos enunciados, fazendo-os balançar entre o caráter sugestivo do título «crer na fronteira; habitar novas fronteiras» e a exigência que nele se desenha, sobretudo ao nível do «aggiornamento» da prática eclesial em função da particularidade dos tempos que vivemos.