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    © Mário Linhares
“COMO LÊS?”: LER COMO JESUS
Ir. Marta Heleno, aci
Naquele tempo, levantou-se um doutor da Lei e perguntou a Jesus para O experimentar: «Mestre, que hei de fazer para possuir a vida eterna?»

Disse-lhe Jesus: «Que está escrito na Lei? Como lês?»

O outro respondeu: «Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.»

Disse-lhe Jesus: «Respondeste bem; faz isso e viverás.»

Mas ele, querendo justificar a pergunta feita, disse a Jesus: «E quem é o meu próximo?»

Tomando a palavra, Jesus respondeu: «Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando o meio morto. Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante.

Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: 'Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.' Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores? »

Respondeu: «O que usou de misericórdia para com ele.»

Jesus retorquiu: «Vai e faz tu também o mesmo.» [Lc 10,25-37] 

O Evangelho de hoje é a resposta de Jesus a uma inquietação de todo ser humano – “o que hei de fazer para possuir a vida eterna?”. Ou, por outras palavras, como podemos colmar esta sede de infinito – esta sede de Deus, de “vida verdadeira” - que nos inunda a alma, sempre que nos atrevemos a deixar a superfície das coisas e a entrar em nós?

  • Começo esta oração tomando contacto com os desejos profundos que me habitam. Peço a graça de mergulhar na profundidade das coisas, das pessoas, dos acontecimentos...
  • Diante do Senhor Jesus, contemplo a cena. Saboreio-a, sem pressas... O que me toca? O que me sugere? O que me interpela?

“Que está escrito na Lei? Como lês?” Estas perguntas de Jesus encerram uma verdade profunda: a “Lei” está longe de ser apenas o previamente estabelecido, o imutável, o seguro, o óbvio, o já sabido. 

Jesus faz duas perguntas: a primeira remete para a dimensão objetiva da Palavra. “O que está escrito na Lei?” O doutor da Lei soube responder com prontidão: «Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.»

A segunda pergunta, exigindo a primeira, vai mais além: “Como lês?” É a pergunta pela aplicação concreta, vivencial, pela leitura pessoal que cada um faz dessa mesma Lei.

Jesus convida o doutor da Lei (e a nós com ele) a entrar neste universo: «Respondeste bem; FAZ isso e viverás.». Porque o Amor, como lembra Santo Inácio, deve por-se mais nas obras do que nas palavras [EE, 230].

É isto que a parábola do samaritano ilustra: como se FAZ, como se LÊ, como se aplica o mandamento do Amor. O sacerdote e o levita sabiam o que estava escrito na Lei.

O samaritano, pelo contrário, tinha aprendido a ler: “chegar ao pé”; “ver”; “encher-se de compaixão”; “aproximar-se”; “ligar as feridas”; apear-se; levar o outro, cuidar dele, confiá-lo a outros...

Com esta parábola, Jesus ensina a ler nas entrelinhas, a ler em profundidade, desentranhando o sentido último, pleno, da vocação a que somos chamados: AMAR o próximo é fazer-nos próximos de quem está distante; aliviar, cuidar, REPARAR as feridas – entregar-se; e partir de novo, para uma nova missão.

  • Escuto, dirigidas a mim, as palavras do Senhor Jesus: “Vai e faz tu também o mesmo!”:
    • A quem me envia o Senhor? De quem tenho de me fazer próximo?
    • Que feridas, à minha volta, precisam de ser curadas?
    • Que pessoas, que relações, preciso de deixar e confiar a outro, para poder continuar a amar livremente?

Termino a oração falando ao Senhor Jesus de todas estas pessoas e relações: peço, entrego, agradeço... Peço-Lhe que me ensine a LER, a AMAR como Ele ama.

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