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CHIARA LUCE: PRIMEIRA JOVEM DO MOVIMENTO DE FOCOLARES A SER BEATIFICADA

Dirce Serafim


Introdução

As Jornadas Mundiais da Juventude deste ano 2013, realizadas no Brasil, têm como padroeira a beata Chiara Luce Badano.

Em 2010, ano da sua beatificação, vinte anos após a sua morte, o irmão da sua melhor amiga e antigo elemento do Movimento Focolar, Franz Coriasco, interrogava-se sobre as razões da universalidade da história de Chiara Luce e concluía que ela reside sobretudo na radicalidade e na coerência da sua vida, no seu “estilo minimalista”, sem efeitos especiais.

Apenas um ano depois da sua morte, Chiara Lubich, fundadora do Movimento de Focolares, declarava-a uma gen (geração nova) ideal, um modelo a propor aos jovens. Os jovens preferem testemunhos a modelos teóricos e os dezoito anos de vida de Chiara eram uma prova viva, segundo as palavras de D. Maritano, bispo de Acqui Terme, a diocese de Chiara Badano, de que ela “cultivara o essencial do cristianismo: Deus em primeiro lugar; Jesus com quem tinha uma relação espontânea, fraterna; Maria como exemplo; a centralidade do Amor, a responsabilidade de anunciar o Evangelho. Tudo isso provado pela experiência do sofrimento e da morte.”

História de Vida

Quem foi Chiara Badano?

Teresa e Ruggero Badano eram um dos cerca de 900 casais de Sassello, povoação italiana entre as regiões de Ligúria e Piemonte. A família Badano morava numa casa da rua Badano, um nome muito popular na região. Maria Teresa e Ruggero estavam casados há mais de 10 anos quando nasceu a sua primeira e única filha.

Chiara nasceu a 29 de outubro de 1971. Cresceu rodeada de afeto. Estimulada a ser generosa e atenta aos outros, cedo revelou o gosto por realizar gestos concretos, refletidos, determinados. Ainda que a sua primeira reação fosse a de dizer não a algum pedido difícil, após captar o sentido, acabava por realizá-lo discreta e alegremente. A sua professora da escola elementar recordá-la-á, mais tarde como uma criança “inteligente, profunda, obediente, respeitosa e também responsável, mas nada piegas”.

Chiara não tem ainda 9 anos quando ouve falar do Movimento dos Focolares como “um ideal capaz de transformar a vida de quem o escolhe e de um grupo de pessoas que quer construir um mundo unido” . Decide participar num encontro organizado para crianças, em setembro de 1980. Os pais apercebem-se da influência desse encontro e decidem também eles participar no encontro de famílias do movimento: Family Fest 1981.

Chiara integra-se no grupo dos Gen 3 de Albissola, os jovens de 9 a 16 anos do Movimento juvenil dos Focolares que reuniam mais perto de Sassello. Semanalmente, reúne com Chicca e a irmã desta de dezasseis anos—Sesi—em casa da família Coriasco. O casal Badano teve o cuidado de contactar a família Coriasco e entre as duas famílias viria a construir-se uma amizade forte e duradoura.

Em 1983, depois do Congresso internacional Gen 3, Chiara escreve: “Este ano decidi considerar Jesus abandonado como meu esposo, e acolhê-lo com alegria e, sobretudo, com todo o amor possível.”

Os anos passam naturalmente e Chiara torna-se numa adolescente cheia de energia, cultivando hábitos de visitar os idosos do asilo, de substituir a mãe na assistência aos avós, mas também de praticar natação e ténis e de conversar com os amigos. Apesar de boa estudante, teve de repetir um ano no ensino secundário, o que a entristeceu muito. Mais tarde, ela haveria de referir esse fracasso como um encontro com Jesus abandonado. Os seus amigos são preferencialmente os Gen, mas faz amigos com facilidade em qualquer grupo. Entre os Gen tem uma relação especial com Chiara Coriasco—Chicca—dois anos mais velha que ela. Será a sua amiga mais íntima e a quem se deve a recolha de muitos dos seus pensamentos e palavras. Chicca recorda que todos os meses se empenhavam em poupar alguns trocos, fazendo pequenas renúncias nas compras de roupa ou de gelados para dividir pelos colegas do Movimento com mais dificuldades. Por ocasião de alguma iniciativa do Movimento, preparavam bolos para vender e ofereciam o dinheiro.

Em 1985, Chiara inicia os estudos clássicos (liceu) e vai viver com os pais para Savona. Para ela foi um sacrifício deixar a terra natal, as suas raízes, os passeios de bicicleta pelo campo, mas não tem dificuldade em integrar-se. A sua vida é muito normal. Vai à missa, não esquece a oração diária, mas quando um dia a mãe lhe pergunta se costuma falar de Deus com os amigos ela responde: “Não, não serve falar de Deus, eu devo dá-lo.” Aos dezasseis anos, com a mudança de grupo gen (do grupo 3 para o 2), atravessa um período de crise de adolescência: falta a alguns encontros, perde um pouco de confiança em si própria, tem medo de se extraviar, segundo ela própria confessará mais tarde. Começa um namoro com Luca, um rapaz de Sasselo. É uma história de altos e baixos que termina quando Chiara descobre que ele sai com outra jovem. Percebe que têm escalas de valores diferentes. Chiara afirmava querer permanecer virgem até ao matrimónio. “Não era para cumprir um dever ou respeitar um preceito, mas por um motivo mais profundo: um sacrifício, para obter algo maior (…) mas não julgava as colegas que pensavam de modo diferente.”

Em 1988, algo imprevisível acontece: Chiara sente uma dor forte ao jogar ténis. Não dá muita atenção, mas a dor permanece e vai ficando mais aguda. Após algum tempo de investigação, os médicos chegam ao diagnóstico: tumor maligno nos ossos (osteossarcoma). Embora não lhe dizendo toda a verdade, não lhe escondem que a doença é grave. Várias pessoas testemunham que Chiara enfrentou a doença com serenidade. Ao regressar do primeiro tratamento de quimioterapia, entra em casa e diz à mãe que lhe pergunta como se sente: “Não, agora não, não me digas nada.” Atira-se sobre o leito e permanece de olhos fechados 25 minutos. Depois, levanta-se e diz, sorrindo: “Agora podes falar.” Estava pronta para abraçar aquele mistério doloroso.

Chiara escreve a C. Lubich dizendo: “Jesus enviou-me esta doença no momento justo, para que eu o reencontre.”

No Movimento, todos continuavam a pedir a graça da sua cura, mas, ao olhar Chiara e os pais, sentiam, bem no fundo de si mesmos, que estavam já perante um milagre do Amor de Deus. Chiara sente que cada dia o Senhor lhe pede pequenos e grandes despojamentos: os efeitos do tratamento acarretam mal-estar, vómitos, debilidade, febre, queda do cabelo… e em cada momento ela vai dizendo o seu sim. A sua firmeza e serenidade espantam os que a rodeiam. Mesmo os companheiros doentes se impressionam com a sua tranquilidade. Para ela, a dor é algo a acolher, uma oportunidade para continuar a crescer na sua relação com Deus. Muito pálida e cada vez mais magra, imobilizada no seu leito, ela permanecia naquela prova, a Chiara de sempre, com o seu sorriso luminoso “como se o corpo exprimisse todo o sofrimento suportado e os olhos, por seu lado, a experiência íntima e profunda de união com Deus”. Vai participando na vida do Movimento, tornando-se presente através de mensagens. Assim, pouco antes do início da Festa Gen em Roma, chegou uma carta sua dizendo: “Ofereço-vos o meu nada a fim de que o Espírito Santo conceda a estes jovens todos os seus dons de amor, luz e paz, para que todos compreendam o imenso dom gratuito que é a vida e quão importante é vivê-la em cada momento na plenitude de Deus. No meu estar, o vosso andar.”
A fundadora do Movimento—Chiara Lubich—apressa-se a responder-lhe agradecendo a sua oferta e garantindo a sua oração. O intercâmbio entre elas é constante. Como uma verdadeira mãe espiritual, C. Lubich acompanha o seu processo, encoraja-a a avançar sem medo. Cada carta recebida é para a jovem uma verdadeira festa. Lê e relê cada mensagem em busca de uma nova energia espiritual. Em julho recebe o “nome novo” que C. Lubich lhe atribui: Chiara Luce. A própria Lubich explicará mais tarde que o nome Luce lhe surgiu enquanto fixava o olhar luminoso que ela apresentava nas fotografias que lhe enviavam.

Chiara, a cada nova dificuldade, declara: “Se tu o queres, Jesus, eu também quero”. Para ela, o fim era um mero prelúdio da meta desejada. Preparava com todo o cuidado pequenos detalhes, como o bilhete de Boas Festas que deixou aos pais, intuindo a proximidade da sua partida: “Natal 1990. Graças por tudo. Votos de um bom ano. Chiara.”

O último verão de Chiara foi uma escalada de alegria e de dor caracterizada por um desejo de perfeição que contagiava os que a cercavam. Sempre pronta a reconhecer a distância da meta a que se sentia chamada, afirmava aos que se sentiam tocados pela sua força: “se soubesses como me custa dizer sim a todas as dores (…) e nunca estou certa de o ter dito verdadeiramente”. “ Como é difícil viver o cristianismo até ao fundo (…) mas não há outro modo!”

Ela sentia que as suas palavras eram enfatizadas e tomadas demasiado a sério, mas “a vizinhança da morte enfatiza tudo, porque é a incarnação suprema do Mistério de que é feita a vida do ser humano”, reconhece Franz Coriasco (p.94).

Chiara, já chamada por todos de Chiara Luce, vive os seus últimos tempos em função do seu próximo encontro com o Esposo. Prepara “a sua missa” fúnebre como se de uma festa se tratasse. Escolhe com Chicca as canções, o vestido… mas mantém sempre o seu interesse pelos outros: desfaz-se de todos os seus presentes, pedindo que tudo fosse dado aos pobres; lamenta só poder doar as suas córneas, já que os restantes órgãos não estavam sãos.

As suas últimas palavras são para a mãe. “Sê feliz, porque eu sou.” Era o dia 7 de outubro de 1990. Os pais abraçam-se dizendo: “Deus no-la deu, Deus a levou. Bendito seja Deus”.

A fila para chegar ao seu quarto é uma verdadeira procissão de focolarinos e amigos de infância, companheiros de escola, sacerdotes e agnósticos, muitos desconhecidos que ouviram falar de Clara, do seu ânimo, do seu despojamento, do seu olhar luminoso.

Espiritualidade

A vida breve de Chiara Luce Badano foi uma viva manifestação de um crescimento contínuo na união com Deus. Atraída por Jesus, empenhou-se em segui-lo tão de perto que acabou irradiando a luz que recebia.

É ela quem revela o segredo de tal luz, quando, numa visita ao serviço de oncologia, o cardeal de Turim lhe disse: “Há uma luz maravilhosa nos teus olhos. O que fazes tu?” Após um instante de timidez, ela responde: “Tento amar muito Jesus.”

Os amigos dirão mais tarde, a propósito das suas visitas, no período da doença: “No início, nós tínhamos a impressão de ir vê-la para a apoiar, (…) mas bem depressa nos apercebemos que nós não podíamos passar sem ela, éramos atraídos como por um Amante.”

Um dos seus médicos afirmou: “Ela demonstra com o seu sorriso e os seus grandes olhos luminosos que a morte não existe, que não há senão a vida.”

O pai declarou: “Chiara estava muito mal, mas nós nunca nos deixámos invadir pelo desespero, porque Jesus estava sempre presente nela.”

Aos 12 anos, Chiara tocara o coração do mistério do cristianismo, “Jesus abandonado, um dos pontos cardeais da espiritualidade da unidade, o desejo de reviver o momento em que Jesus mais sofreu, quando ele gritou na cruz: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”

A sua amiga Chicca não hesita em dizer que “é o seu silêncio que se faz testemunho, prova tangível de uma escolha de vida: nada de espetacular, mas terrivelmente concreta.”

Chiara, segundo Coriasco (p. 56) tinha a clarividência de transcender os valores dominantes: onde impera o culto da aparência, ela persegue a substância; onde se celebra o culto dos vencedores, ela enamora-se dos últimos e glorifica os vencidos; onde o sucesso premeia os sensacionalistas e palavrosos, ela escolhe o minimalismo, a humildade e o escondimento muito mariano da solidez dos factos.” Já alguns anos antes, ao regressar do Congresso Gen em Roma, escrevera: “Descobri que Jesus Abandonado é a chave para a união com Deus e quero escolhê-lo como meu esposo e preparar-me para a sua chegada”. Esta opção por ver Jesus nos mais débeis, nas dificuldades, tão própria da espiritualidade de Chiara Lubich e do movimento que ela fundou, não a impedia de estar atenta a outros aspetos da vida, que ela queria viver de modo novo, para que os outros reconhecessem no seu estilo de vida as sete cores do arco-íris próprias do carisma focolarino: o roxo representando a economia e comunhão de bens; o laranja, sinal do apostolado; o amarelo lembrando a prática de uma vida espiritual; o verde apontando para a importância da saúde e tempo livre; o azul não deixando esquecer o cuidado com o vestuário e a casa; o anil tornando presente a importância do estudo; o violeta sublinhando a importância da comunicação.

O desejo de configuração a Jesus, a sua determinação, a sua humildade, a sua coerência entre o dizer e o fazer acabariam por transparecer no olhar de Chiara de modo a que muitos acreditassem existir nele um sabor de eternidade, um sorrir do paraíso.

A experiência de Chiara Luce é contagiante: alguns jovens tomam-na como modelo no seu amor a Jesus abandoado; outros desejam imitar a sua generosidade oferecendo as suas economias para África, como ela fazia.

Chiara Lubich comentou um dia, a propósito do seu itinerário de união com Deus, do seu desejo de encontro festivo com Jesus, da sua mística esponsal: “Ela transformou a sua paixão num canto nupcial”.

Com o seu estilo de vida e de um modo particular a sua forma de enfrentar o sofrimento e a morte, Clara Luz (traduzindo o seu nome para português) é exemplo não só para os jovens, mas para todos os que querem aprender a viver a doença e o sofrimento como ocasiões privilegiadas de entender a opção de Jesus pelos mais frágeis e simultaneamente de realizar o Evangelho do Sofrimento, já que “no sofrimento se esconde uma força particular que aproxima interiormente o homem de Cristo.”

Que por intercessão da beata Clara Luz, fique mais claro para todos, jovens incluídos, que com Cristo, mesmo o sofrimento pode ser bem-aventurante.

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