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AS BEM-AVENTURANÇAS E A DIGNIDADE HUMANA (1/4)

BALTHAZAR, Hans Urs von, As bem aventuranças e a dignidade humana
in «Communio», Ano VII, 1990, nº5

Introdução

As bem-aventuranças representam um impressionante prelúdio ao conjunto da pregação de Jesus, no Evangelho de S. Mateus, constituindo as primeiras palavras da pregação sobre a montanha. Em S. Lucas: estão no início da pregação na planície, tomando uma forma mais breve que, provavelmente, foi retirada da fonte comum aos dois evangelistas. Mas também em Lucas a pregação do Senhor começa com um anúncio análogo ao de Mateus, retirado de Isaías, segundo o qual Jesus veio para «trazer aos pobres a Boa Nova, anunciar a libertação aos presos, libertar os oprimidos».

As quatro bem-aventuranças em Lucas têm uma expressão lapidar, prescindindo de qualquer comentário: «Felizes de vós, os pobres, porque é vosso o Reino de Deus. Felizes de vós, os que tendes agora fome, porque sereis saciados. Felizes de vós, os que chorais agora, porque haveis de rir. Felizes sereis quando os homens vos odiarem e quando vos rejeitarem, vos insultarem e proscreverem o vosso nome como infame, por causa do Filho do homem. Alegrai-vos e exultai nesse dia, pois é grande no Céu a vossa recompensa. Desse modo, efetivamente, é que procediam os pais deles com os profetas.»

Mateus acrescenta a estas quatro palavras de louvor pelos que sofrem privações, outras quatro, segundo as quais são declaradas bem-aventuradas determinadas atitudes que concedem o acesso a Deus, ao seu Reino e aos bens desse Reino: os mansos, os misericordiosos, os que têm um coração puro ou reto, um coração aberto, os que estabelecem a paz; todos aqueles, portanto, que cooperam na chegada do Reino de Deus, anunciado por Jesus e que está próximo. Além disso, Mateus acrescenta algumas precisões, que considera certamente necessárias para prevenir um possível desconhecimento do verdadeiro sentido das bem-aventuranças. No que toca aos pobres, não se trata, simplesmente, dos destituídos de bens materiais, mas dos pobres em espírito, isto é, pela sua atitude perante Deus; são os «pobres de Yahvé», os anawim que não dispõem de nenhuma outra riqueza que não seja a sua esperança em Deus. E por duas vezes acrescenta Mateus a expressão «a justiça», «por causa da justiça». «Felizes os que têm fome e sede» - de quê? - «de justiça». «Felizes os que são perseguidos» - por que razão? — «por causa da justiça».

Se olharmos, em primeiro lugar, de uma certa distância este solene início da pregação de Jesus, podemos verificar algo que se torna evidente a quem tenha alguma familiaridade com a Bíblia: Quase todas estas palavras provêm literalmente do Antigo Testamento, sobretudo dos Salmos, dos Provérbios e da restante literatura sapiencial. Correspondem estas citações à corrente de piedade veterotestamentária própria dos que colocavam toda a sua esperança em Deus, contrapondo-se aos fariseus e doutores da Lei, que seguiam uma religião baseada no próprio esforço, pelo cumprimento escrupuloso da Lei.

A justiça, no Antigo Testamento, radica obviamente na única justiça divina fundada por Deus e que dele provém. Devido, contudo, à Aliança com Israel, ela torna-se uma questão bilateral, envolvendo também o outro parceiro — de contrário, não se poderia falar de Aliança. É este, com efeito, o sentido dos dez mandamentos de Yahvé, ou seja, o de indicar a maneira como o homem se deve comportar no contexto da Aliança com Deus, caso ele queira viver dentro dela. «Eu sou Santo, também vós portanto deveis ser santos.»

Sabe-se, indiscutivelmente, como se tem de passar da primeira tábua da Lei, na qual se regula o comportamento do homem perante o Deus da Aliança, para a segunda tábua, que regula o comportamento dos homens entre si. Os profetas, sobretudo Amós, Isaías, Jeremias, mas também outros, chamaram a atenção para o facto de a transgressão contra a segunda tábua se repercutir, de modo impercetível mas tanto mais grave, em transgressão contra a primeira tábua. Quando o pobre é oprimido, não pode subsistir uma verdadeira relacionação com Deus.

Quando isto já era visto com toda a clareza no Antigo Testamento, como não será atual agora no Novo, em que a Palavra de Deus se torna homem, em que eu posso encontrar, e encontro de facto, no próximo a Palavra de Deus corporizada. É então, por Jesus – Deus feito homem – o amor de Deus e o amor do próximo confluem num único mandamento.