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AS BEM-AVENTURANÇAS E A DIGNIDADE HUMANA (2/4)

BALTHAZAR, Hans Urs von, As bem aventuranças e a dignidade humana
in «Communio», Ano VII, 1990, nº5

I

Aos pobres, aos aflitos, aos famintos e aos perseguidos, Jesus não os podia, de modo algum, declarar bem-aventurados se Ele o fizesse como que a partir de fora, mediante uma espécie de doutrinação teórica. Pelo contrário, só o pode fazer no interior de uma íntima solidariedade, mais ainda, de uma real identificação com os pobres, os famintos, os que choram e os perseguidos. A partir destas suas primeiras palavras programáticas, é todo o seu programa que está à vista, e sem dúvida que de uma maneira bem consciente. Não é possível pronunciar tais palavras sem ter a disponibilidade de pagar por isso o seu preço total. De tudo o que experimentam os pobres, os famintos, os que choram, os perseguidos, irá assumir a experiência, e mais ainda do que estes podem sentir; mas porque Ele o faz segundo a vontade do Pai, já aqui se encontra incluída a bem-aventurança. E não deixará apenas, passivamente, que tudo isso passe sobre Ele, mas a sua atitude será a daquele que, por esse meio, quer tornar próximo o Reino de Jesus – pela misericórdia e inteira mansidão de quem não replica com violência para realizar justiça com suas mãos, mas conserva a retidão do coração que deixa a Deus o restabelecimento da justiça. Precisamente assim Jesus torna-se aquele que estabelece a paz entre o céu e a terra, e também entre os homens que seguem a sua orientação e o seu exemplo.

Só enquanto se torna, Ele próprio, o pobre, o perseguido, o faminto e o que chora – o abandonado de Deus –, pode Ele prometer a tais miseráveis os dons da plena saciedade. E, deste modo, ganha também a segunda tábua da lei moisaica um peso inteiramente novo. Dado que no próximo se faz o encontro com Jesus Cristo e em Jesus Cristo com Deus, a relação com o próximo adquire uma valência nunca antes atingida: «O que fizestes ao mais pequeno dos meus irmãos foi a mim mesmo que o fizestes» – porque é precisa e expressamente ao lado do mais pequeno que me encontro, cuja carga de miséria, fome, lágrimas e exploração eu tomei sobre mim de modo insuperável.

Deve ter-se em atenção especial esta particular proximidade em relação aos pobres, e por isso bem-aventurados. Poder-se-ia pensar que todos nós somos igualmente pecadores, os opressores tal como os oprimidos, e que Jesus morreu igualmente por todos. Poder-se-ia mesmo insistir em que exploradores e perseguidores são, do ponto de vista cristão, ainda mais «pobres diabos» do que os explorados e perseguidos, encontrando-se assim pelo menos tão perto de Cristo como eles. Mas aqui o que importa não é que Jesus carregue sobre si os pecados de todos os homens. Isto é verdade, mas são os pobres em espírito, os que têm fome e sede de justiça, os que choram e são perseguidos, são esses que têm em si um vazio que pode ser ocupado por Deus, pelo Deus crucificado. Há outros sobre os quais no evangelho de Lucas são pronunciadas as imprecações: «Ai de vós...»: os ricos, os saciados, os que riem, aqueles que, louvados pelos homens, não mantêm livre esse lugar para Deus, mas o preenchem com o seu anafado eu.

De tudo isto resulta algo mais. Pelo facto de Deus, pelo seu Verbo incarnado, ter tomado o lugar do mais pequeno dos homens, torna-se visível a dignidade do homem, para além de qualquer sua avaliação pura-mente humana, e uma dignidade que pertence a cada um dos homens. Assim se torna também visível a radical fundamentação dos direitos do homem, e de um modo que não conhece uma graduação descendente que vá dos chamados mais importantes até aos chamados menos importantes. Pelo contrário, a graduação é ascendente: quanto mais alguém está despojado de poderio próprio, tanto mais se torna nele visível a presença do Filho de Deus: «Aquilo (precisamente) que fizestes ao mais pequeno, fizestes-me a mim mesmo.» «Quem der a um destes mais pequenos nem que seja um copo de água fresca...» «Quem acolher uma destas crianças em meu nome, é a mim mesmo que acolhe.»

Por detrás da dignidade do mais pequeno, na ordem da criatura e da imagem, está a plena dignidade do protótipo, de Deus – que nele habita. Por isso, nas bem-aventuranças segundo Lucas, quando se alude à perseguição, intervém a expressão «por causa do Filho do homem». E quando, além disso, se faz referência ao destino do profeta, em que Jesus noutras passagens claramente se inclui, aparecem, Jesus e os seus discípulos, estreitamente associados.

Mas – poder-se-ia no entanto perguntar – porque será precisamente no mais pequeno, no pobre e no fraco que Deus em toda a sua grandeza, riqueza e poder se revela de maneira particular? Não será a criança ainda algo de potencial, não amadurecido, ao passo que Deus não conhece qualquer potencialidade, porque nele tudo é eterna realidade em sua plena maturação?

A isso apenas se poderá dar uma resposta a partir da profundidade do mistério cristão. Jesus fala da humildade e mansidão do seu próprio coração. Paulo diz que o Filho de Deus se tornou pobre em nosso favor e, mesmo, que Ele se esvaziou na sua descida até à condição de escravo, até à cruz. Humildade, pobreza, descida até ao mais pequeno revelam-se, assim, como possibilidades de Deus, e de tal modo que lhe não dizem respeito somente de forma extrínseca mas, claramente, lhe correspondem ao próprio ser. Deus Pai não é rico senão despojando-se do que é Seu para o oferecer ao Filho; o Filho não quer ser Deus senão recebendo-se inteiramente do Pai, ficando-se-lhe a si mesmo gratamente a dever; o Espírito nada mais pretende ser que a mútua dádiva do Pai e do Filho. O que, na criatura, parece ser o que há de mais dissemelhante a Deus, tem, afinal, o seu protótipo no mais íntimo mistério de Deus, e por isso é também o que mais perto está do Seu coração.

Fora do espaço bíblico, cada homem é apenas um indivíduo da espécie humana. Como tal, possuirá dignidade enquanto participa da dignidade da sua espécie, a qual permanece intacta mesmo quando o indivíduo é destruído. No espaço bíblico, havendo um poderoso crescendo do Antigo até ao Novo Testamento, cada um não é apenas um indivíduo, mas é pessoa. Por cada um se empenha Deus e seu Filho, de tal modo que, quando uma pessoa é destruída, se perde algo de único e irrepetível.