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AS BEM-AVENTURANÇAS E A DIGNIDADE HUMANA (3/4)

BALTHAZAR, Hans Urs von, As bem aventuranças e a dignidade humana
in «Communio», Ano VII, 1990, nº5

II

Com estas reflexões chegámos somente a um resultado abstrato e ainda não podemos descortinar algo do encontro concreto que se dá entre a dignidade conferida, de cima, por Deus ao homem em Jesus Cristo e o movimento que provém do esforço dos homens, a partir da sua realidade, por fazer valer a sua dignidade.

Algo de propriamente dramático será aqui de prever, a não ser que se perca de vista o centro da religião cristã: a cruz, e a ressurreição que nela já se encontra escondida. Na cruz aconteceu o total assumir, como já foi descrito, da situação dos pobres, dos que choram, dos famintos e dos perseguidos. Quem não quiser ver o dramático aqui contido – e que será necessário ainda explicitar –, ou o queira trivializar numa inofensiva harmonização intramundana, esse passará ao lado da profundidade vital da existência humana. Fará como alguém que comprime a viva, tridimensional planta no seu herbário, onde ela perde a sua verdadeira dimensão e, deste modo, a sua vitalidade, a sua floração e os seus frutos.

Vamos expor a dramaticidade dessa vida, em três aspetos sucessivos.

Em primeiro lugar, vemos como Jesus prossegue insistindo na segunda tábua moisaica, como já anteriormente o haviam feito os profetas e também a Lei, e aprofunda, como vimos, a motivação para tal. Não é apenas porque outrora fui liberto, eu próprio, da escravatura no Egipto, que devo escolher com autêntico amor pelo próximo o meu escravo – mesmo que seja um trabalhador estrangeiro, de Moab –, mas também porque Deus, em seu Filho, se aproximou de forma inaudita desse estrangeiro. Desse estrangeiro que jaz, nu e indefeso, à beira da estrada depois de ter sido assaltado pelos ladrões. O facto de Jesus, na sua parábola, ter atribuído precisamente ao samaritano o ato de amor do próximo, é amargo para o judeu que o ouve e lhe pergunta quem é, então, o seu próximo. Ele pensa em determinada categoria de pessoas, perante as quais se sente obrigado a especiais serviços. Mas Jesus troca-lhe as voltas. O seu pensamento toma como ponto de partida não o dever, mas a necessidade do outro: «Qual destes três te parece ser o próximo daquele que caiu sob o assalto dos ladrões?» Aquele, naturalmente, que se aproximou dele, se identificou com a sua miséria, e assim, consciente ou inconscientemente, imitou a própria proximidade de Deus.

Ele mesmo, Jesus, passou toda a sua vida pública na atitude e no gesto dessa aproximação: para com os pecadores e os doentes, os publicanos e as prostitutas, Os possessos, até para com os mortos considerados como impuros e que um fariseu nunca teria tocado. «Ele passou fazendo o bem.» De tal modo Ele é um apóstolo do amor do próximo, que já pôde ser confundido com um humanista; da mesma maneira como um S. Francisco, com os estigmas do Senhor, pôde ser considerado como um fanático da natureza.

Nas suas parábolas se acentua, de modo inequívoco, a urgência de um comportamento humano para com o próximo. Quem foi tratado de forma humana por Deus e, em seguida, trata desumanamente o seu próximo, perdeu o seu direito a tratamento humano e, como é dito, «será entregue aos algozes» até que tenha pago o último centavo. Para aquele que não tem humanidade não há perdão. Ou, com as palavras da carta de S. Tiago: «O julgamento será sem misericórdia para aquele que não tenha usado de misericórdia; a misericórdia, porém, triunfa, sobre o julgamento.» A mesma urgência se encontra na recomendação de se reconciliar com o irmão, antes de comparecer perante Deus, ou de condescender com o inimigo, antes de este ir a tribunal e se correr o risco de ser lançado no calaboiço.

É isto humano ou divino, natural ou sobrenatural? Já acerca da segunda tábua moisaica se tem de dizer que, através dela, o humano ultrapassa a sua pecaminosa decadência e é levado ao seu verdadeiro sentido e esplendor, mas não sem a garantia da Aliança que existia com Yahvé. Como poderia ser de outra maneira, se o Deus salvador da Aliança é o mesmo que o Deus criador do homem? Como poderia a Aliança com o divino e o originário que opera no mundo, não trazer consigo também a consumação do humano, do originado? E tudo isto só pode encontrar a sua plenitude, quando se dá a hominização daquela Palavra de Deus, da qual, enquanto modelo originário do mundo, o próprio homem é a mais alta das criações.

Mas este é apenas o primeiro ato ou aspeto do drama. Pois que a Palavra «veio ao que era seu domínio, mas os seus não a acolheram». O mundo está cheio de pecado e, por isso, também de violência; e Jesus conhece bem o mundo a que veio. Por isso sabe que não há qualquer simples meio ético ou político, para mudar o mundo dessa sua aversão de Deus e violência. Apenas o mais caro preço, da cruz, poderá conseguir alguma coisa — e mesmo isso não necessariamente no palco do mundo. Antes de mais, Jesus conta com o facto do poderoso domínio do César romano (tal como, no seu tempo, Jeremias havia evocado a exigência da sujeição a Babilónia). Não diz: Sublevai-vos contra o dominador, mas: «Dai a César o que é de César». Além disso, nas suas parábolas fala da condução de guerras e de estratégias, como pertencendo ao normal preenchimento do palco do mundo: Se um rei toma conhecimento de que um outro adquiriu supremacia sobre ele, terá de refletir se, em vez de o combater, lhe não deverá propor o entendimento. Na comparação do homem forte, cuja casa foi tomada e espoliada por outro mais forte, pode Jesus ver simbolizada a sua própria missão em toda a sua originalidade e diferença. Por isso utiliza, com todo o à vontade, a imagem do ladrão contra o qual uma pessoa se tem de precaver a tempo, o mesmo acontecendo nas cartas apostólicas. Finalmente, temos a comparação do vigarista que falseia as notas de crédito do seu senhor, sendo louvado por isso. Temos aqui o mundo em todo o seu realismo, a partir do qual Jesus exemplifica a sua própria verdade — porque, se Jesus quer ser entendido pela gente deste mundo, é a partir dele que tem de exemplificar.

Mas, com tudo isto, ainda não atingimos o principal. Há ainda o terceiro aspeto, aquele que propriamente é o dramático. Jesus que veio ao mundo como o misericordioso, o manso, o realizador da paz entre Deus e o mundo, provoca necessariamente com a sua ação a guerra, a dissensão, a contradição. Não pode unir, senão dividindo: dois contra três numa mesma casa, o filho contra o pai, a filha contra a mãe. «Não a paz (como o mundo a entende) eu vim trazer, mas a espada.» E o mesmo acontece com todo aquele que se dispõe ao seu seguimento. «Quem não recolhe comigo, dispersa», quer dizer, quem não recolhe separando e distinguindo, esse só agrega coisas que não estão realmente reconciliadas entre si, e por isso se dispersarão de novo a partir de si mesmas.

Reina aqui uma lei de intensificação, de um cada-vez-mais. Quanto mais Jesus se revela como Filho de Deus, proclamando-o através da palavra e dos milagres, tanto mais energicamente Ele é repudiado, tanto mais se torna insuportável a sua ação no interior da sociedade humana. Só aqui estamos no âmago da teologia cristã da história: Quanto mais brilha de maneira autêntica a mensagem cristã, tanto mais se verifica a sua recusa selvagem, como algo que de modo algum se pode aceitar. O ateísmo é um fenómeno que, a sério, só existe depois de Cristo, isto é, contra Cristo. (Ateísmo pré-cristão foi sempre uma espécie de piedade mundana, quer no Atomismo, quer na crença mística no Nirvana. Marx, Nietzsche, Sartre são antiteistas.)