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APÓSTOLOS - RELEVÂNCIA DA EXPERIÊNCIA E DO TESTEMUNHO DOS APÓSTOLOS NA TRANSMISSÃO DA FÉ (1/4)

Teresa Messias
(Texto escrito para a CNAL no âmbito do ano da fé * fevereiro 2013)

Introdução

No acontecimento central da fé cristã que é a pessoa de Jesus de Nazaré somos confrontados com uma pedagogia de atração e convite. Através dessa pedagogia dá-se para cada um(a) de nós a comunicação gratuita que Deus faz de si e somos confrontados com a necessidade de dar uma resposta. A “estratégia” ou pegadogia da Revelação e dos seus caminhos de progressividade é iniciativa do Senhor. E Deus escolheu fazer-Se um de nós: encarnar, ser homem. A partir desta decisão fundamental da Trindade, o processo da fé coincide com esta íntima relação Verbo-humanidade, comunhão interior vivida por Jesus ao longo da sua existência sabendo-Se dom do Pai, seu enviado e amoroso servidor. Coincide também com o oferecimento que, em suma liberdade filial, Jesus faz de Si mesmo a cada um e com a resposta que lhe vamos dando nas circunstâncias concretas (tantas vezes aparentemente banais ou difíceis) da nossa vida. O processo da fé acontece na emergência de uma relação pessoal de atração ou curiosidade que tem Jesus por centro, que evolui e se abre aos níveis mais profundos da amizade e do amor apaixonado que já nada pode reservar de si mas apenas sabe partilhar em tudo quem o outro é. A fé desenvolve-se em crescendo (mesmo se com ruturas e crises) porque essa é a dinâmica interna do amor. Tal relação mútua está sujeita às condições e circunstâncias próprias da condição humana: condições psicológicas, biográficas, temperamentais, histórico-sociais. Como todas as relações humanas, a relação que Jesus estabelece connosco que tem as suas regras e circunstâncias, momentos de confiança e de dúvida, de auge e de crise ou abismo.

No processo vital da oferta de amor que é a Revelação de Deus em Jesus assumem importância particular as experiências feitas pelos Seus primeiros discípulos. Entre estes destacam-se os doze que Ele chamou diretamente para O acompanharem mais de perto. As suas experiências de transformação pessoal e entrega têm carácter fundante na cadeia vital de transmissão do Dom e da resposta iniciada em Cristo, com auge no mistério pascal, do qual são primeiras e confirmadas testemunhas. De chamados são constituídos enviados e testemunhas numa dinâmica interior de partilha de si mesmos no Senhor. A sua missão particular é a de transmitir fielmente aquilo que ouviram e receberam de Jesus, o que experimentaram e aprenderam na relação com Ele, ajudando a discernir e a confirmar a experiência que outros fazem do Senhor. A sua resposta a Cristo constitui-se um serviço ao anúncio e à disseminação do dom de Deus a todas as mulheres e homens por Ele chamados entrar em comunhão consigo. As suas experiências de Cristo, confirmadas pelo dom do Espírito Santo, tornaram-se fonte de credibilidade e inspiração para todos os que, acolhendo o seu testemunho, guardando as palavras que eles ouviram do Senhor, recebendo o Espírito Santo, querem permanecer-Lhe fiéis e criativos, no corpo vivo que é a Igreja, a comunidade de fé.

Deixar tudo e seguir o Mestre como ato fé

Os evangelhos são claros e constantes na afirmação de que Jesus constituiu de sua iniciativa, de entre um número alargado de discípulos, um grupo de doze. Independentemente do significado teológico associado ao número doze (doze são as tribos de Israel) e do facto de, nas várias listas dos Doze presentes nos evangelhos só haver uma coincidência parcial dos nomes, não há dúvida que Jesus convidou explícita, muitas vezes diretamente, determinadas pessoas para fazerem uma opção de vida centrada n’Ele, no seguimento de Si e do seu estilo, como nova orientação e fundamento de vida. O convite a deixar as circunstâncias e as relações habituais e estáveis do quotidiano para arriscar confiar totalmente, como única segurança, na pessoa de Jesus e no que Ele tem para oferecer a cada um dos chamados, faz parte intrínseca do processo da fé. Num momento ou outro da nossa vida, neste ou naquele aspeto, todos teremos de nos confrontar com esta radicalidade da resposta de confiança no amor de Cristo que chama pela nossa vida e nos convida a deixar algo, alguém, a nós mesmos. Não porque essas relações e dons sejam em si maus. Mas porque a dinâmica interna de uma amizade interpessoal que vai em crescendo e em intensidade relacional pede de nós mais: mais confiança, mais despojamento, mais aceitação do poder do amor de Deus em nós, mais sentimento de verdadeira fraqueza e despojamento, mais disponibilidade para seguir com Ele para onde (e como) Ele mesmo quer ir.

No processo da fé o caminho é sempre acidentado e sujeito a imprevistos. Basta ler os evangelhos para vermos como, depois de uma primeira resposta de fé, os apóstolos hesitaram tantas vezes, tiveram dúvidas, medos, fugas. Alguns deixaram de o seguir porque tornou-se difícil acreditar e confiar (“Também vós quereis ir embora”? [Jo 6, 67]). A fé como convite e resposta é sempre um risco. Está assente num dom não manipulável e na resposta que conseguimos dar, também ela não controlável, com os seus altos e baixos, nas nossas circunstâncias pessoais.

A fé não é teórica. Não é da ordem das razões exclusivas ou predominantemente intelectuais, embora não as exclua. Ela é predominantemente de ordem da consciência afetiva, isto é, da experiência profunda de saber-se amado e aceite, da ordem do enamoramento e da atração pela personalidade d’Aquele que convoca, da comunhão com a Sua vida e destino. Uma vez feita esta experiência radical de receção interior de um amor que nos precede, é possível entregarmo-nos. Por isso a fé, enquando resposta, é da ordem da abundância do dom que nos alcança primeiro, da consciência transbordante de si, fruto do dom de Deus gradualmente, progressivamente, feito oferta de retorno. Até ser possível entregar-se totalmente como dom feito a Deus em retribuição amorosa e agradecida ao dom de Si que Ele nos fez primeiro. De outro modo não seria credibibilidade vital em ato mas (mais) uma doutrina.